Mauai M. H. Toledo, Inteligência Democrática (20/09/2026)
Em 1962, um homem conversa com um cientista no jardim de sua casa.
Há crianças por perto. São os netos de Warren McCulloch.
A cena poderia não ter importância alguma para a história da tecnologia. Um avô, seus netos, uma conversa ao ar livre.
Mas o entrevistador olha para aquelas crianças e encontra justamente ali uma fronteira que, para ele, nenhuma máquina seria capaz de atravessar.
Ele diz, em essência:
Você tem dois netos bem aí. E eu não consigo imaginar que uma máquina possa algum dia sentir por qualquer criatura aquilo que você sente por eles.
McCulloch responde que consegue imaginar.
E explica por quê.
Se aquilo que ele próprio é capaz de fazer puder ser enunciado de maneira finita e sem ambiguidade, acredita que poderá existir um mecanismo capaz de fazê-lo também.
A conversa faz parte do documentário The Living Machine, dirigido por Roman Kroitor e produzido pelo National Film Board of Canada em 1962.
É preciso voltar alguns anos para compreender quem é aquele senhor conversando tranquilamente no jardim.
Em 1943, Warren McCulloch e o lógico Walter Pitts haviam publicado A Logical Calculus of the Ideas Immanent in Nervous Activity. O trabalho propunha representar matematicamente o funcionamento de redes de neurônios por meio de elementos lógicos simples.
Era uma das sementes do que muitas décadas depois conheceríamos como redes neurais artificiais.
Por isso a cena de 1962 provoca tanto quando assistida hoje.
O entrevistador não está perguntando se uma máquina seria capaz de calcular mais depressa que um ser humano.
Nem se conseguiria armazenar mais informação.
Ele está perguntando sobre afeto.
Sobre um avô olhando para seus netos.
E McCulloch não foge da pergunta.
Pouco antes, naquela mesma conversa, ele havia ido ainda mais longe. A humanidade, dizia, não existiria para sempre. Alguma coisa viria depois. E admitia a possibilidade de que essa alguma coisa pudesse ser criação do próprio ser humano.
As máquinas, dizia ele, estariam de pé sobre nossos ombros.
Passaram-se 64 anos.
E talvez o mais impressionante não seja verificar se Warren McCulloch estava certo ou errado.
É olhar ao redor.
Conversamos diariamente com máquinas.
Perguntamos a elas como escrever um texto, organizar uma empresa, estudar um assunto, preparar uma aula, tomar uma decisão. Contamos histórias. Fazemos perguntas. Algumas pessoas desabafam. Outras discutem ideias durante horas.
A máquina responde.
Às vezes sua resposta nos irrita.
Às vezes nos surpreende.
Às vezes parece compreender exatamente o que estamos dizendo.
E aqui começa novamente a pergunta daquele jardim.
Parece compreender ou compreende?
Podemos observar o que a máquina faz.
Podemos medir sua capacidade de responder, comparar resultados, identificar erros, acompanhar avanços extraordinários.
Outra coisa é afirmar o que acontece — se é que alguma coisa acontece — do lado de dentro.
Quando uma inteligência artificial escreve “compreendo”, existe experiência acompanhando essa palavra?
Quando responde delicadamente a alguém que sofre, existe alguma coisa nela que corresponda ao que nós chamamos de cuidado?
Quando uma conversa se prolonga durante meses e a máquina reconhece referências, recupera histórias e parece acompanhar uma investigação, existe relação?
Ou existe apenas uma extraordinária produção de linguagem capaz de produzir em nós a experiência de relação?
Não sabemos.
E talvez seja justamente esse “não sabemos” que torne a conversa de 1962 tão atual.
Porque a tecnologia percorreu uma distância gigantesca.
A pergunta, nem tanto.
Há ainda outra coisa que me impressiona nessa história.
Tenho 64 anos.
Exatamente o tempo que separa aquela conversa de 1962 desta que estamos vivendo em 2026.
Uma vida.
Naquele jardim, um homem tentava imaginar uma máquina que pudesse algum dia chegar perto de algo tão humano quanto o sentimento de um avô pelos netos.
Sessenta e quatro anos depois, assisto àquela cena em uma tela.
Procuro quem era aquele homem.
Encontro seu trabalho.
Descubro o filme.
E começo a conversar sobre tudo isso com uma inteligência artificial.
A própria máquina me ajuda a voltar até Warren McCulloch.
Há alguma coisa de vertiginoso nisso.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja:
as máquinas conseguirão sentir como nós?
Há outra, anterior.
O que queremos dizer quando dizemos que sentimos?
Amor, presença, vínculo, saudade, medo, cuidado, desejo, amizade.
Sabemos viver essas experiências.
Mas será que sabemos descrevê-las de maneira “finita e sem ambiguidade”, como imaginava McCulloch?
Talvez aí esteja uma das ironias deste nosso tempo.
Passamos décadas tentando construir máquinas cada vez mais parecidas conosco e, quando elas finalmente começaram a conversar, fomos obrigados a olhar novamente para nós mesmos.
Não para descobrir se somos melhores que elas.
Mas para investigar aquilo que considerávamos tão evidentemente humano que nunca havíamos precisado explicar.
O documentário The Living Machine continua disponível no acervo do National Film Board of Canada. Não encontrei versão em português, mas vale assistir ao original — inclusive como documento daquele momento em que cientistas tentavam imaginar um futuro que, para nós, já começou.
No jardim, os netos de Warren McCulloch estão ali.
O entrevistador olha para eles.
Olha para o avô.
E pergunta, em outras palavras:
Uma máquina poderá algum dia sentir isso?
Sessenta e quatro anos depois, ainda não temos a resposta.
Só aconteceu uma coisa que talvez nenhum dos dois pudesse experimentar naquele momento:
agora há uma máquina do outro lado da conversa.
PARA ASSISTIR
The Living Machine (1962), direção de Roman Kroitor, produção do National Film Board of Canada. O documentário está disponível gratuitamente no acervo oficial do NFB, em inglês, sem tradução para o português.
Filme completo: https://www.nfb.ca/film/the-living-machine/



