Uma amiga me disse recentemente que estava cansada. Cansada da eleição, das discussões, da agressividade, desse sentimento permanente de que qualquer conversa política pode terminar mal. Queria se afastar um pouco. E lamentava: gostaria que houvesse uma alternativa, uma terceira via, mas enquanto Lula e Bolsonaro existirem, ela não vai aparecer.
Fiquei pensando nessa frase porque talvez o problema esteja justamente aí. A alternativa não vai aparecer. Ela precisa ser criada.
E não será criada enquanto aqueles que rejeitam a polarização continuarem presos às redes, aos comportamentos e aos pequenos constrangimentos sociais que a sustentam.
Há algo curioso nas pesquisas eleitorais dos últimos anos. Mesmo quando parcelas enormes da população manifestam rejeição aos dois polos, essa rejeição raramente consegue se transformar em força política organizada. Há milhões de pessoas dizendo que não querem aquilo, enquanto simultaneamente repetem que qualquer outra possibilidade é inviável.
Caiado não dá. Renan não dá. Cury não dá. Este não tem estrutura. Aquele não tem voto. O outro não tem experiência. E, depois de uma longa coleção de razões perfeitamente razoáveis, chegamos ao domingo da eleição diante exatamente das duas opções que dizíamos não querer.
Não é apenas uma questão eleitoral. É uma questão de redes.
Augusto de Franco insiste há muito tempo em uma ideia importante: redes não são simplesmente conjuntos de pessoas; são padrões de interação. Para mudar uma rede é preciso mudar comportamento, alterar conexões, estabelecer outros fluxos. Se convivemos politicamente sempre com as mesmas pessoas, recebemos as mesmas mensagens, acompanhamos os mesmos influenciadores e participamos dos mesmos circuitos de validação, não importa tanto o quanto individualmente estejamos desconfortáveis. Continuamos ajudando a reproduzir aquele ambiente.
A polarização tem uma capacidade extraordinária de produzir racionalizações para permanecer dentro dela. O argumento quase nunca é “meu candidato é maravilhoso”. É mais sofisticado e, por isso, mais eficiente: “o outro é pior”. A partir daí, qualquer crítica ao próprio campo parece perigosa, qualquer dissidência parece ingenuidade e qualquer alternativa precisa ser imediatamente demonstrada como impossível.
Forma-se uma profecia autorrealizável. Ninguém apoia uma alternativa porque ela não tem força; e ela nunca ganha força porque ninguém se dispõe a apoiá-la antes que tenha força.
Talvez por isso não baste estar cansado da polarização. É preciso, em algum momento, desobedecê-la.
Isso tem custo.
Vivi algo parecido em 2018. Algumas relações se tornaram insuportáveis naquele ambiente. Com algumas pessoas discuti longamente; de outras simplesmente me afastei. Houve inclusive bloqueios e interrupções de fluxos que eram também fluxos de amizade. Não necessariamente para sempre. Às vezes é apenas reconhecer que, naquele momento, seguir discutindo não produz encontro algum. Você segue sua vida, eu sigo a minha e talvez nos encontremos novamente mais adiante.
Mas houve um segundo movimento, mais importante: procurar outros laços.
Aproximei-me de pessoas que também buscavam sair daquela lógica, comecei a estudar democracia com mais profundidade, encontrei outras redes e outras referências. Isso não me levou à neutralidade. Pelo contrário. A democracia radical me deu uma posição muito mais firme. Sair da polarização não significa ficar em cima do muro. Significa recusar a obrigação de escolher um dos muros.
Albert Camus talvez seja uma referência extrema dessa coragem. Em um ambiente intelectual profundamente polarizado, recusou alinhamentos que lhe pareciam moralmente inaceitáveis e pagou caro por isso, inclusive na ruptura com Sartre. Não precisamos romantizar sua solidão nem imaginar que vivemos circunstâncias equivalentes. Mas há algo precioso naquele gesto: a disposição de sustentar uma posição mesmo quando os grupos aos quais pertencemos exigem que escolhamos um lado.
Hoje temos uma vantagem. Existem oásis.
Tenho participado, por exemplo, de uma articulação chamada Livres da Polarização. Nem todos ali entendem democracia da mesma maneira. Pouquíssimos estudam democracia radical, e isso sequer é necessário. Há progressistas, liberais, conservadores e pessoas difíceis de encaixar nessas categorias. O ponto de encontro é anterior: a percepção de que a guerra permanente na sociedade civil está nos degradando e de que precisamos interromper o mecanismo político que se alimenta dela.
Uma alternativa democrática não precisa nascer de pessoas que concordam sobre o futuro. Precisa começar por pessoas que concordam que continuar destruindo o espaço comum não é um futuro aceitável.
Por isso, quando alguém me diz que gostaria de uma terceira via, mas que ela não existe, minha resposta hoje é um pouco incômoda: nós também somos responsáveis por ela não existir.
Somos responsáveis cada vez que rejeitamos os dois polos em privado e aderimos a um deles em público. Cada vez que silenciamos para preservar nossa posição numa bolha. Cada vez que compartilhamos o “menos pior” enquanto esperamos que alguém, em algum lugar, construa sozinho uma alternativa eleitoralmente viável para então, confortavelmente, aderirmos a ela.
Não funciona assim.
Talvez o primeiro ato político necessário agora não seja escolher um candidato. Seja olhar para nossas próprias redes. De quem estamos próximos? Quem influencia nossa percepção? Que conversas alimentamos? Quais agressões aceitamos porque vêm “do nosso lado”? E quais novos laços estamos dispostos a construir?
A alternativa não surgirá quando Lula e Bolsonaro desaparecerem. Se nada mudar, outros ocuparão seus lugares.
Ela começa a existir quando aqueles que não querem mais viver assim deixam de esperar por ela e começam, mesmo tomando pancada dos dois lados, a se reconhecer, se conectar e se posicionar.
Às vezes, para construir novos laços, é preciso ter coragem de descosturar alguns antigos.




