Estamos há duas semanas do segundo turno e o que se desenha para as duas seguintes é bastante pior do que uma campanha eleitoral ruim. Estamos entrando deliberadamente na fabricação de realidades paralelas, progressivamente mais extremas, nas quais milhões de brasileiros serão convidados a acreditar que não estão simplesmente escolhendo entre Lula e Flávio Bolsonaro, dois candidatos que podem ser julgados por suas histórias, propostas, contradições e riscos reais, mas decidindo entre alguma forma de salvação e uma catástrofe irreversível. E, quanto mais essa alucinação coletiva funcionar, mais pessoas serão mobilizadas para produzi-la dentro de suas próprias redes.
Uso alucinação deliberadamente porque a palavra descreve algo diferente de uma simples mentira. Uma mentira altera um fato; uma alucinação reorganiza a percepção da realidade. E o que começa a aparecer nesta campanha é justamente uma tentativa de construir mundos políticos suficientemente autoconsistentes para que cada novo conteúdo, verdadeiro, falso ou apenas distorcido, encontre imediatamente um lugar dentro deles. Se você acredita que Flávio representa a destruição dos direitos sociais e uma espécie de continuação inevitável de todos os piores aspectos do governo do pai, qualquer notícia sobre ele confirma a catástrofe. A realidade vai deixando de funcionar como limite da narrativa e passa a ser apenas matéria-prima para ela.
Não é uma hipótese sobre aquilo que pode acontecer nas próximas semanas. Já está acontecendo.
Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, a campanha de Lula decidiu explicitamente aumentar a rejeição ao adversário explorando o medo de perda de programas sociais, aposentadorias e direitos trabalhistas. A justificativa de seus aliados é que existem riscos reais associados às propostas econômicas de Flávio. Isso pode e deve ser discutido. Mas há uma diferença enorme entre demonstrar, a partir de propostas, números e precedentes, quais benefícios estão efetivamente ameaçados e organizar deliberadamente uma campanha cuja emoção mobilizadora escolhida é o medo.
Essa lógica ganhou ainda uma infraestrutura bastante explícita. Um canal chamado “Exército do Lula”, criado por André Janones, ultrapassou três milhões de seguidores no WhatsApp em poucos dias e se transformou numa das principais estruturas digitais de mobilização lulista. A campanha de Flávio acusa o canal de disseminar informações falsas, algumas delas envolvendo milícias, aposentadorias e Nossa Senhora Aparecida, e acionou a Justiça Eleitoral; as acusações ainda estão em disputa judicial.
A escolha das palavras é reveladora mesmo antes de qualquer decisão judicial: Exército.
Exército. Inimigo. Mobilização. Medo.
Não considero isso apenas uma infelicidade semântica. A linguagem revela a representação que estamos fazendo da própria política.
Uma democracia evidentemente comporta conflito e campanhas duríssimas. Existem riscos reais associados a candidatos e eles precisam ser apresentados sem pudor. O problema aparece quando a disputa eleitoral começa a adquirir a psicologia de uma guerra, porque a guerra opera sob uma moralidade excepcional: diante de um inimigo existencial, comportamentos que seriam considerados inaceitáveis em tempos normais passam a parecer necessários. Se realmente estamos diante do fascismo, do comunismo, do fim da democracia, da destruição dos direitos sociais ou de uma ditadura do Supremo, então exagerar deixa de ser tão grave; compartilhar alguma coisa cuja veracidade desconhecemos parece um risco aceitável; pressionar um amigo torna-se responsabilidade cívica; o silêncio vira cumplicidade.
E é aí que a coisa fica, para mim, mais perturbadora. Porque não estamos apenas fabricando uma realidade extrema; estamos recrutando pessoas comuns para reproduzi-la dentro de relações construídas sobre confiança.
As cartilhas de mobilização ensinam como abordar eleitores. Fandoms estão organizando postagens coordenadas e guias para conversar com indecisos. Canais gigantescos de WhatsApp distribuem conteúdos prontos para circular. Campanhas incentivam apoiadores a conversar com familiares e amigos. Cada pessoa pode se transformar numa pequena extensão da máquina eleitoral justamente onde um anúncio publicitário teria menos capacidade de entrar: na família, no grupo de amigos, no trabalho, na igreja, na relação de confiança.
É uma tecnologia política poderosíssima. E socialmente muito perigosa.
Porque a coerção pode começar a ser vivida por quem a exerce como virtude. Se realmente acredito na realidade extrema que recebi, por que deixaria minha mãe, meu irmão ou meu amigo votar “errado”? Se aquela escolha representa uma ameaça à própria democracia, por que respeitaria a hesitação de alguém próximo? Quanto maior a alucinação construída, maior a licença moral para intervir sobre o outro.
Há uma irresponsabilidade adicional nisso tudo que me parece ainda pouco percebida: os profissionais da política sairão dessa alucinação muito antes de nós.
No dia seguinte à eleição, vencedores começarão a negociar com antigos adversários, partidos reconstruirão alianças, parlamentares conversarão com o novo governo, marqueteiros receberão seus últimos pagamentos e seguirão para outros trabalhos. A política profissional possui uma capacidade extraordinária de abandonar a guerra assim que ela deixa de ser funcional.
A sociedade fica com os destroços.
Fica a mãe que passou semanas sendo pressionada pelo filho. O amigo que descobriu que o outro o considera cúmplice do fascismo. O colega tratado como alguém que deseja destruir os pobres. O eleitor que passou a acreditar que uma parte enorme do país participa de uma conspiração contra sua liberdade. Ficam a raiva, a desconfiança, as relações rompidas e, sobretudo, uma representação cada vez mais monstruosa das pessoas que votam diferente.
E isso não desaparece no dia 25.
Vai conosco para 2027, 2028, 2030. A próxima campanha começará sobre os resíduos emocionais desta, acrescentará novas imagens, novos inimigos e novas razões para ter medo. A polarização deixa então de ser apenas uma descrição sociológica de um país dividido e passa a ser também um produto político fabricado, distribuído e continuamente aperfeiçoado porque funciona eleitoralmente.
É por isso que me parece tão insuficiente dizer que tudo isso “faz parte do jogo”.
Não deveria fazer.
E quem diz estar preocupado com a polarização ou com a democracia precisa ser muito mais firme agora, principalmente diante dos excessos do campo com o qual possui maior afinidade. Democracia não se defende apenas denunciando a manipulação do adversário. Ela exige estabelecer limites para aquilo que aceitamos fazer para derrotá-lo.
Há uma diferença entre apontar um risco e fabricar uma catástrofe, entre mobilizar e coagir, entre conversar com alguém e instrumentalizar uma relação de confiança, entre disputar uma eleição e construir uma realidade paralela na qual qualquer método se torna admissível porque o outro lado deixou de ser adversário e virou inimigo.
É preciso dizer, com alguma contundência, enquanto ainda estamos dentro da campanha: isso não pode ser feito.
Porque eleições acabam.
A alucinação que criamos para vencê-las pode durar muito mais.
E há algo profundamente contraditório em destruir, eleição após eleição, nossa capacidade de conviver democraticamente em nome de salvar a democracia mais uma vez.




