Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (24/09/2026)
Não sei se me lembrarei do meu insight ao caminhar um dia desses. Não sei se posso dizer que foi um insight ou um lampejo do que poderia ser um artigo. A ideia surgiu e logo cravei o conceito de pertencimento. Talvez isso tenha me atrapalhado mais do que ajudado a decifrar o que pensei ali.
Penso que foi ao refletir sobre a posição de um amigo de longa data, que virou militante lulista, que me lembrei da minha própria posição ao longo da vida, a partir da universidade. Creio que minha postura mais vocal tenha começado na universidade, desde tempos quase imemoriais, quando discutia no centro acadêmico sem entrar na pegada do movimento estudantil.
Doce ilusão achar que alguma mudança mais substancial aconteceria num departamento todo compartimentado e fechado em disciplinas — eu, que queria mais abertura para novas formas de conhecimento. Mas havia uma rivalidade com outro grupo, que eu via como “ensaboados”, que sustentava a “luta”.
Sempre tive dificuldade com “ensaboados”. Um certo jornalista que se diz independente é um exemplar do momento atual que eu poderia colocar nessa categoria de “ensaboado”. Preciso me esforçar bastante para ouvi-lo.
Mas não escapei, em minha trajetória, de encarar o grupo como um norte — algo que pudesse me colocar na posição de pertencer a ele. Esse grupo, na época, era a esquerda.
Apesar de ser uma categoria ampla, entendo que nomear o pertencimento a esse campo me fazia estar dentro de um grupo. Meu pensamento é retrospectivo aqui, e meu espelho é esse amigo, em quem vejo meus próprios comportamentos do passado.
Estar no campo da esquerda é como pertencer a um grupo; dá essa sensação de pertencimento. Isso é antropológico, não é um julgamento — todos nós temos essa necessidade.
A questão é que o campo da esquerda cria o seu antípoda natural na direita. Pertencer a um campo automaticamente empurra quem está fora para o outro lado. É nítido ver isso no comportamento daqueles que batem no peito para se declararem de direita.
Em certo momento da minha trajetória de vida, fui um militante. Espero ter abandonado de vez esse comportamento. Às vezes, sentimos uma compulsão por defender nossos pontos de vista que beira a reprodução da militância. Para responder a um militante, quem nunca se sentiu na mesma vibe?
Meu amigo virou um militante. Parece não ouvir. Sempre me vem a sensação de estar sendo julgado no meio das discussões que ainda tenho com ele. Aprendi a respirar antes de responder — isso em mensagens. Confesso que não sei se saberia fazer o mesmo presencialmente.
Acho muito difícil se desvencilhar do modo militante. Entendo o meu amigo porque ele é meu amigo, e isso me ajuda a compreender meu próprio comportamento. No cômputo geral de um país inteiro onde grassam militantes por todos os lados, a sensação é a de estarmos cada vez mais acossados.



