A arte de caminhar juntos
Ode a Humberto Maturana: 1928-2021
Um bebê estende o braço, aponta para um pássaro no muro e logo procura os olhos de quem está ao seu lado. Quer dividir o momento. Nascemos com a urgência de estar acompanhados. Nossa primeira e mais forte vocação é a partilha.
Para que essa troca aconteça de verdade, é preciso um chão firme feito de confiança. Confiar significa olhar para quem está ao nosso lado. A beleza de estarmos lado a lado exige a coragem de abraçar o que é diferente e de acolher as pessoas como elas são. Ninguém precisa ser apagado para que o outro brilhe.
Por muito tempo, fomos condicionados a aplaudir a disputa. Fomos ensinados que a vida é uma corrida dura, na qual o troféu de um exige o tropeço do outro. Se avaliarmos com atenção para a natureza e para a nossa própria história, perceberemos que sobrevivemos aos milênios pela nossa incrível capacidade de formar vínculos, de dar as mãos e de cuidar uns dos outros. Quando a minha vitória exige a exclusão do outro, enfraqueço a trama que arquiteta a nossa vida.
Conversar é misturar linguagem com emoção. Um gesto de empatia constrói acessos onde antes havia medo. Entender o outro significa deixar de impor uma certeza goela abaixo e passar a desenhar um sentido comum, uma realidade capaz de abrigar todos nós. O mundo que habitamos é um mundo que nós mesmos trazemos à existência a cada encontro.
Quando exigimos ter sempre razão, a vida encolhe. O que nos parece uma verdade inquestionável agora pode revelar-se um equívoco amanhã. A necessidade cega de estar certo e no controle sufoca a criatividade e afasta as pessoas. Perdemos a sabedoria natural do brincar, que é a entrega à convivência pelo prazer do agora.
Uma convivência rica e saudável precisa de espaço para a falha, para a reparação e para o pedido de desculpas. Onde o erro vira ameaça, o grupo perde a chance de aprender. Onde falta perdão, os laços se partem e custam a se renovar.
As palavras que escolhemos alteram pessoas com carícias ou golpes. O bom diálogo desponta onde há paciência para escutar o inesperado. Nós somos a soma de todas as palavras que trocamos, de todos os pratos que dividimos, de todos os olhares que cruzaram os nossos.
Uma pessoa que conviveu com o medo se esconde. Se recebeu humilhações, ergue um escudo. Quem deseja as consequências do que deseja e é acolhido pela escuta atenta, ganha liberdade e responsabilidade para contribuir.
O mundo que deixaremos será feito da qualidade e da ternura de nossos encontros e dos caminhos que desbravarmos juntos.




