A banalidade da omissão no esporte
O COI, a FIFA e o risco da trivialização da guerra
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (16/07/2026)
Recentemente, nove nações europeias — Estônia, Dinamarca, Finlândia, Letônia, Lituânia, Holanda, Polônia, Romênia e Suécia — formalizaram um pedido ao Comissário Europeu Glenn Micallef para que o financiamento ao Comitê Olímpico Internacional (COI) seja cortado. A medida é uma resposta direta à decisão da entidade de suspender as sanções contra atletas russos e bielorrussos. O grupo de países solicita ainda a exclusão dessas nações de órgãos diretivos e de programas de apoio, como o Erasmus+. Confira aqui.
Em tempos de Copa do Mundo, com a atenção global voltada às partidas finais, essa movimentação política parece não repercutir como deveria. Embora a Rússia esteja banida das competições de futebol, a FIFA tem adotado medidas de atenuação similares às do COI. Recentemente, a federação removeu o banimento total das seleções russas sub-17 (masculina e feminina). Logo após a decisão do COI, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, declarou que analisaria o conteúdo para decidir os próximos passos — uma postura que sinaliza clara aceitação, se não total sintonia. Não seria surpresa se, em breve, a Rússia fosse reintegrada às competições de elite.
Parece haver um conluio entre essas organizações para minimizar a gravidade da invasão russa a um país soberano. O esporte possui um apelo popular imenso, capaz de gerar dividendos de imagem valiosos para todos os envolvidos. É exatamente esse efeito de propaganda que interessa ao governo russo: estar inserido entre as nações que disputam um torneio mundial sinaliza uma normalização diplomática fundamental.
Não é coincidência que a reação mais forte parta da Europa. É lá que reside a maior ameaça de expansão da guerra de Putin e onde se concentra a maioria das democracias liberais.
A Copa de 2026 aproxima-se do fim e, para quem aprecia o futebol, resta aquela sensação de “ressaca” pelo término do evento. Ao lado das Olimpíadas, a Copa é um dos raros momentos que congregam quase o mundo inteiro. Esse poder de engajamento popular serve perfeitamente a regimes que utilizam o nacionalismo como arma de convencimento.
A mistura entre competição esportiva e conflito bélico não é um fenômeno novo. Os movimentos da guerra acontecem em diversas frentes que extrapolam os campos de batalha; ela está disseminada nas entranhas das sociedades. O esporte, nesse contexto, revela-se como mais um meio de combate.



