A bandeira como venda nos olhos
A nova obra de Banksy, em Londres, consiste em uma escultura pública instalada de modo clandestino em Westminster, nas proximidades do Palácio de Buckingham. O lugar está repleto de monumentos oficiais. Até o momento, a prefeitura de Westminster recebeu a intervenção de modo acolhedor.
A escultura mostra um político bem-vestido, seguro de si, cego pela bandeira que tomou como verdade, caminhando para o abismo. Ele surge flagrado no instante em que a própria convicção o impede de ver. Renuncia ao livre exercício do julgamento moral. Avançar torna-se a única rota admitida. Nesse ponto, a nação não forma mais cidadãos.
Quando a política se reduz à veneração de governantes, doutrinas, guerras e exigências de adesão cega, abandona a arte da convivência e se converte em procissão de autômatos.
Um crápula não surge necessariamente aos gritos. Pode aparecer como burocrata composto, organizado, reconhecível, com a barbárie escondida na banalidade cotidiana. O culto à própria imagem funciona como engrenagem de subjugação. O pior é que gera marcha e devoção.
A bandeira deixa de ser símbolo de pertencimento e se transforma em ferramenta de extirpação do livre-arbítrio. O homem vendado pela própria bandeira representa o estado trágico de líderes modernos: presos a hierarquias obsoletas, fiéis a símbolos mortos, esmagando as relações vivas da comunidade.
Falta-nos abandonar a posição de médicos legistas e limitar o poder desde cedo, criar freios institucionais, proteger o chão comum e impedir a conversão da pátria em licença para mandar.
A provocativa escultura, feita de resina, com acabamento semelhante ao bronze, sobre base com aparência de rocha, bem que poderia estar espalhada pelo mundo como advertência cotidiana. Modelos presidencialistas concentradores de poder oferecem terreno propício para líderes personalistas. Quanto maior a concentração no chefe, menor o espaço para a comunidade política respirar.
O abismo começa na obediência. Os populistas se apresentam como amigos do povo e dizem falar em seu nome. Apontam para um futuro impreciso e pedem que todos os sigam para onde forem. O marchador da escultura é exemplar de condutor de rebanhos.
A percepção de que a liberdade existe é revigorada quando alguém rejeita o ritual das aparências e desperta a inteligência coletiva.




