Renato J. Cecchettini, Inteligência Democrática (04/09/2026)
Tenho apenas uma hipótese: talvez estejamos numa situação ruim, em parte, pela falta de protagonismo de pessoas normais. Não pessoas resignadas ou indiferentes, mas pessoas falíveis, incompletas, capazes de dizer “não sei” sem que isso as desqualifique. A exigência de seres super-humanos, moralmente impecáveis e donos de verdades definitivas parece nos empurrar para um mundo de faz-de-conta.
Talvez uma das matrizes dessa lógica esteja no ambiente corporativo. Empresas, compreensivelmente, procuram elevar a média de competência e reduzir a variação em atividades nas quais consistência importa. O problema começa quando esse critério, útil para organizar o trabalho, transborda para a vida social: como se todos precisássemos ser simultaneamente excelentes, seguros, produtivos, admiráveis e irrepreensíveis.
Quando toda manifestação precisa demonstrar certeza, uma resposta enfática aparece antes mesmo que a pergunta seja feita. A conversa deixa de ser investigação e vira disputa por superioridade. Talvez seja assim que caímos na polarização: não porque apenas um lado se julga perfeito, mas porque cada lado precisa se imaginar como o lado certo — e o outro como erro, ameaça ou falha moral.
Quando falo de pessoas comuns, não falo de mediocridade. Ter limites, ignorar algo ou precisar aprender não torna ninguém medíocre. Mediocridade é reconhecer que se pode compreender melhor, escutar melhor ou agir melhor — e ainda assim recusar esse movimento por comodismo ou desprezo.
Falta uma espécie de classe média de prosaicalidades: gente que aceite a trama ordinária da vida, com suas dúvidas, tentativas, revisões e insuficiências. Falta o convívio entre pessoas que possam construir respostas provisórias e, a partir delas, formular dúvidas melhores. Esta é só a hipótese de uma pessoa comum procurando outras pessoas comuns que não tenham medo de expor suas dúvidas e opiniões.



