A cegueira geopolítica
Por que o V-Dem erra ao ignorar a "Internacional Iliberal"
O caso da África do Sul demonstra que classificar democracias apenas por métricas domésticas é um erro metodológico fatal na era das autocracias em rede
Reposicionando a crítica
Durante os últimos meses, ou melhor, aproximadamente 2 anos, temos feito críticas (1) ao V-Dem. Essas críticas estavam baseadas na percepção de que suas classificações sobre certos países (principalmente nos chamando a atenção o Brasil e África do Sul) estavam desconectadas da realidade.
Nas últimas semanas, voltamos a analisar profundamente a metodologia do instituto e assim, compreendemos a raiz da dissonância. O V-Dem opera em um “silo doméstico”. Sua metodologia avalia a qualidade das instituições dentro das fronteiras nacionais, tratando a política externa como uma variável exógena, irrelevante para a definição do regime.
Neste artigo, fazemos uma correção de rota. Não afirmamos mais o V-Dem de errar o cálculo dentro de sua própria fórmula. Afirmamos que a fórmula está obsoleta. Em uma realidade em que o autoritarismo se globalizou através de redes de cooperação, não se pode mais aferir a saúde democrática de uma nação ignorando a quem ela dá apoio ou é omissa no palco global.
O Paradoxo Sul-Africano. Como uma “Democracia Liberal” pode estar a serviço de autocracias?
O Relatório de Democracia 2025 do V-Dem traz uma conclusão que desafia a lógica geopolítica. A África do Sul recuperou o status de Democracia Liberal, o nível mais alto de classificação. Pelos critérios internos como eleições, judiciário, liberdade de imprensa, a pontuação subiu.
No entanto, enquanto os algoritmos do V-Dem celebravam essa “recuperação liberal”, a realidade geopolítica mostrava outra face:
Exercícios navais com o eixo autocrático: Em 2026, a África do Sul hospedou exercícios navais conjuntos com China, Rússia e, de forma alarmante, o Irã. Uma “Democracia Liberal” treinando interoperabilidade militar com uma teocracia que enforca dissidentes e oprime mulheres?
Legitimação via BRICS: O país tem sido ponta de lança na expansão do BRICS para incluir regimes autoritários, servindo de “lavanderia de reputação” para ditaduras que buscam escapar do isolamento ocidental.
Silêncio sobre Direitos Humanos: A recusa sistemática em condenar a invasão russa à Ucrânia ou as violações no Irã.
O V-Dem nos diz que a África do Sul é uma democracia liberal. A realidade nos diz que ela é um pilar de sustentação da autocracia global. Ambas as afirmações não podem ser verdadeiras simultaneamente se quisermos que o termo “Democracia Liberal” mantenha seu valor normativo.
A metodologia vs. A “Internacional Iliberal”
O erro do V-Dem é presumir que a democracia é um atributo puramente interno, isolado do comportamento internacional.
Isso poderia ser verdade nos anos 90, mas não hoje.
Vivemos a era das redes autocráticas, documentadas brilhantemente pela Foreign Affairs no artigo “The Illiberal International: Authoritarian Cooperation Is Reshaping the Global Order” (2). A republicação desse artigo em português, na revista Inteligência Democrática, continha um correto alerta inicial:
“A internacional iliberal não congrega apenas governos ou regimes nacional-populistas, considerados de direita ou extrema-direita. Boa parte dos países que compõe hoje o eixo autocrático – como China, Coreia do Norte, Vietnam, Laos, Angola, Cuba, Venezuela e Nicarágua – tem governos auto-declarados de esquerda e socialistas. Isso para não falar da Rússia (hoje na vanguarda da segunda grande guerra fria) e do Irã e das ditaduras islâmicas (que não podem ser adequadamente classificados como sendo de direita ou de esquerda).”
Estas redes funcionam como um sistema de suporte à vida para ditadores. Elas compartilham táticas de repressão, tecnologia de vigilância, e, crucialmente, proteção diplomática.
Quando um país classificado como “Democracia Liberal” (como a África do Sul) atua para fortalecer essas redes:
Ele exporta legitimidade para autocratas.
Ele enfraquece a ordem baseada em regras que protege sua própria democracia interna.
Ele trai os princípios liberais que o V-Dem afirma medir.
Uma nova proposta de mensuração
A crítica que apresentamos agora ao Professor Lindberg e ao V-Dem é estrutural.
A cumplicidade externa deve penalizar a nota interna.
Não é possível ser liberal da porta para dentro e facilitador de tiranos da porta para fora. A política externa é o reflexo final dos valores de uma elite governante. Se um governo escolhe, sistematicamente, o lado da “Internacional Iliberal” em detrimento das democracias, isso é um indicador antecedente de erosão democrática doméstica.
A Proposta: O V-Dem deve incorporar um indicador de “Alinhamento Democrático Internacional”. Países que votam sistematicamente com autocracias na ONU, realizam exercícios militares com ditaduras ou ajudam a furar sanções contra regimes violadores de direitos humanos não podem, por definição, ostentar o selo de “Democracia Liberal”.
Conclusão
Ao classificar a África do Sul como Democracia Liberal enquanto suas fragatas navegam ao lado das do Irã, o V-Dem está normalizando a hipocrisia.
O instituto corre o risco de se tornar um meio útil para governos que usam suas boas notas domésticas como escudo para cometer atrocidades diplomáticas.
Reposicionamos nossa crítica não para depreciar o V-Dem, mas para alertá-lo de sua própria cegueira metodológica. A democracia no século XXI é um esporte de equipe, e não se pode jogar no time dos autocratas vestindo a camisa dos liberais.
Notas
(1) Por que o V-Dem não pode se dar ao luxo da seletividade: https://open.substack.com/pub/revistaid/p/por-que-o-v-dem-nao-pode-se-dar-ao
(2) Nic Cheeseman, Matías Bianchi, e Jennifer Cyr, "The Illiberal International: Authoritarian Cooperation Is Reshaping the Global Order," Foreign Affairs 105, nº 1 (Janeiro/Fevereiro 2026), https://www.foreignaffairs.com/china/illiberal-international-cheeseman-bianchi-cyr








Muito bom Sr Padovan! E o V-DEM deveria interromper a avaliação de países que estão em guerra, pois os indicadores mensurados nestes - durante estes períodos -, deixam de refletir a realidade.