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Avatar de Marcelo Maceo

Diogo, artigo excelente! Especialmente porque você não trata a crise democrática apenas como crise de narrativa, você olha para aquilo que vem antes dela, a experiência concreta de convivência que torna qualquer narrativa possível.

Harari ajudou muita gente a perceber que dinheiro, Estado, empresas, religiões, direitos e democracias dependem de ficções compartilhadas. Isso é importante, porque mostra que muitas realidades humanas não são naturais, mas produzidas coletivamente. O problema começa quando a narrativa passa a ocupar o lugar de fundamento da vida humana, como se bastasse criar uma nova história para reorganizar uma sociedade inteira.

Na Ontogênese, tenho tentado trabalhar isso por outro caminho. O que chamamos de mundo social não é apenas ficção, narrativa ou crença compartilhada. É uma realidade produzida entre pessoas, feita de práticas, vínculos, linguagem, confiança, autoridade, repetição, pertencimento, conflito e responsabilidade. Ela não existe como uma montanha, mas também não desaparece porque alguém deixou de acreditar nela. Ela atravessa corpos, decisões, instituições, reputações, economias e formas inteiras de vida.

Em outras palavras, a narrativa conta o mundo, mas é o cosmos social faz o mundo acontecer.

Por isso, concordo muito com sua crítica à ideia de que a democracia precisaria apenas de uma nova narrativa. Antes de uma democracia ser defendida por uma história, ela precisa ser vivida como uma forma de relação. Uma pessoa pode votar, obedecer às leis, pagar impostos, consumir informação política e ainda assim nunca experimentar que sua presença participa da criação do mundo comum.

E é aqui que estou começando a desenvolver uma expansão política da Ontogênese num novo livro.

Democracia não é apenas regime, instituição muito menos uma narrativa compartilhada, como poderíamos interpretar como uma dessas realidades imaginadas que só existem porque são sustentadas coletivamente, como diz Harari. Democracia é a condição ontológica pela qual um mundo social permanece aberto à coautoria, à contestação e à transformação por aqueles que são atravessados por suas consequências.

Quando essa abertura se fecha, o sistema pode continuar funcionando por algum tempo. Pode haver eleições, tribunais, partidos, discursos de liberdade e solenidade institucional. Mas algo anterior já começou a morrer: a experiência de coautoria.

A pessoa continua sendo chamada de cidadã, mas passa a habitar um mundo produzido por outros.

E, quando isso acontece, o autoritarismo não precisa começar como violência explícita. Muitas vezes ele começa como alívio. Alguém aparece prometendo organizar a complexidade, restaurar a ordem, eliminar a diferença, devolver sentido e decidir por todos aquilo que todos já não sentem mais que podem criar juntos.

Por isso, a democracia começa antes das narrativas, sim.

Mas eu acrescentaria: ela começa no entre.

Começa quando o outro não é apenas obstáculo à minha visão de mundo, mas parte inevitável do mundo que ainda estamos criando.

Talvez o desafio agora não seja inventar uma nova grande história para salvar a democracia.

Talvez seja fazer o humano voltar a acontecer dentro dela.

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