A democracia não precisa de Flávio Bolsonaro
Se Lula perder a eleição, não perderá para o bolsonarismo e sim para o antipetismo
Qualquer alternativa para 2026 é ruim. O horizonte de uma alternativa democrático-liberal de centro já se deslocou para 2030
O esbirros do governo Lula e os militantes petistas estão ensandecidos nas mídias sociais denunciando o Flávio por relações com Vorcaro. Ora, os bolsonaros já fizeram coisas muito mais graves. Mas por pior que tenham sido ou sejam Bolsonaro e família, isso não torna Lula e o PT bons e aceitáveis. Nós, os democratas, não apoiamos nenhum populismo: nem o populismo-autoritário e golpista bolsonarista, nem o neopopulismo hegemonista lulopetista. Sim, não é só o golpismo que ameaça a democracia. Também a ameaça o hegemonismo de organizações políticas que não querem destruir as instituições e sim ocupá-las ou capturá-las para colocá-las a serviço do seu projeto de poder.
Por que é proibitivo para os democratas apoiar Flávio (ou outro bolsonarista)? Porque os democratas não podem apoiar um candidato que se alinha a Trump, Vance e Bannon, Salvini, Le Pen, Wilders, Farage, Chrupalla, Weidel e Gauland, Purra, Abascal, Ventura, Bukele e outros próceres da direita populista (que até ontem apoiavam Orban).
Por que é proibitivo para os democratas apoiar Lula (ou outro petista)? Porque os democratas não podem apoiar um candidato que se alinha a Putin, Xi Jinping, Mélenchon, Lourenço, Canel, Ortega e outros próceres da esquerda populista, como, por exemplo, a maioria dos que estão no BRICS (como os autocratas do Irã e seus braços terroristas) e fazem o proselitismo do terceiro-mundismo requentado chamado Sul Global (que até ontem apoiavam Maduro).
Voltemos, porém, à conjuntura eleitoral do Brasil.
Claro que as revelações das relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro colocou o populismo-autoritário bolsonarista (dito de extrema-direita) na defensiva. E que o neopopulismo lulopetista (dito de esquerda) quer passar à ofensiva de modo definitivo, reelegendo Lula por antecipação. Para isso, entretanto, o lulopetismo tem que esconder muita coisa. Por exemplo, as relações de Mantega com Vorcaro; as relações de Wagner e sua filha (enteada) com Vorcaro; as relações do PT da Bahia com Vorcaro; as relações de Lewandowski e seu filho com Vorcaro; as relações de Toffoli com Vorcaro e as relações de Esteves (um dos oligarcas do atual sistema de governo petista) com Toffoli; as relações multimilionárias de Alexandre e sua mulher com Vorcaro; as relações dos irmãos Batista (outros dois do estamento oligárquico do governo Lula) com Vorcaro; os encontros fora da agenda de Lula com Vorcaro. É como se nada disso existisse ou tivesse ocorrido.
Desejando que esses escândalos, atingindo o campo do populismo de esquerda, tenham mais desdobramentos desfavoráveis para Lula, os bolsonaristas esperam dar a volta por cima para emplacar o próprio Flávio ou alguém da família ou da troupe.
Independentemente disso tudo, porém, é improvável que, tendo conquistado hegemonia nos ambientes indicados pelos círculos do diagrama (abaixo), ao longo de mais de três décadas, o PT saia do governo por um golpe de sorte eleitoral da oposição. Para tirar o PT do governo, alguma coisa a mais já deveria ter sido feita. Ou alguma coisa extraordinária precisa acontecer.
Explica-se. A maioria da população está cansada de Lula. Mas a coligação governista é muito forte. Tem a máquina do governo federal e dos governos subnacionais aliados + PT e partidos satelizados (a maioria alinhada ao eixo autocrático) + STF e tribunais superiores + associações "pela democracia" de juízes, procuradores e advogados (como o tal grupo Prerrogativas) + PGR + rede suja de veículos petistas ou cripto petistas (Brasil 247, DCM, ICL, Revista Forum, Carta Capital etc.) + TVs (com destaque para Globo News) + universidades (em especial federais nas áreas de humanas) + sindicatos, centrais e associações profissionais + ONGs e movimentos sociais + (alguns) institutos de pesquisa de opinião e agências de checagem + artistas globais e famosos + oligarcas que atuam no modelo putinista (como, entre outros, Joesley e Wesley Batista e André Esteves).
Mesmo assim, não é impossível que Lula perca a eleição se crescer ainda mais um forte movimento antipetista (que já existe e é maior do que o bolsonarismo). Seria um fator extraordinário. O problema é se isso levar à vitória de um candidato bolsonarista. Mas nada aqui é tão certo, pois sem um antagonista de sobrenome Bolsonaro, Lula perde parte do trunfo de estar defendendo a democracia contra os golpistas e fascistas (ainda que a campanha petista tenda a qualificar assim qualquer adversário capaz de ameaçar a reeleição de Lula).
De qualquer modo, é bom para a democracia que algum Bolsonaro (ou outro bolsonarista-raiz) tenha poucas chances de chegar ao governo. O que não é bom - como já foi dito - é que isso leve a mais uma reeleição de Lula. Como não há, em 2026, uma alternativa democrática liberal, não há também saída boa da situação atual. Para os democratas, o centro da disputa passa então a ser impedir que o PT continue no governo, mesmo que a alternativa seja subótima. Desde, porém, que essa alternativa se materialize em uma candidatura que esteja no campo da democracia formal (ainda que apenas eleitoral, ou seja, mesmo que não seja liberal). Já vimos que não adianta trocar um populista (de esquerda) por outro populista (de direita).
Resumindo. É um imperativo democrático que Lula (um populista de esquerda e iliberal) não seja reeleito. Mas a queda de Flávio Bolsonaro (um populista de direita e iliberal) é boa para a democracia. Como dizíamos, se Lula perder a eleição não perderá para o bolsonarismo e sim para o antipetismo. Isso significa que para derrotar Lula não precisamos de Flávio Bolsonaro (nem de qualquer Bolsonaro). Qualquer candidato que chegue ao segundo turno tem chances de vencer Lula. O que não pode acontecer é Lula (ou um seu preposto) vencer no primeiro turno. Ou um bolsonarista (seja Flávio ou outro qualquer) vencer no primeiro turno.
Para os democratas, entretanto, não se trata mais de escolher o desejável em 2026. Qualquer alternativa para 2026 é ruim. O horizonte de uma alternativa democrático-liberal de centro já se deslocou para 2030.
Para os democratas liberais, portanto, não se trata mais de decidir em quem votar menos desconfortavelmente em 2026 e sim de escolher um caminho que dê mais condições para a construção de uma alternativa democrática (não-populista) para 2030. Para começar a fazer o que não foi feito. E aí qualquer eleito que não seja Lula (ou um poste lulopetista) e que não seja Flávio Bolsonaro (ou alguém da famiglia) - desde que esteja no campo da democracia formal e não seja populista - oferece condições melhores para a articulação de uma alternativa democrática liberal nos próximos quatro anos.




