Vamos começar resumindo a questão. No próximo dia 15 de setembro de 2026, em sessão pública, o STF tem de autorizar o início da investigação contra Moraes. Se não fizer isso afundará ainda mais na crise, com repercussões eleitorais trágicas, sobretudo para o governo.
Se a facção governista do STF (Gilmar, Moraes, Dino, Zanin, Toffoli) melar o julgamento do dia 15 - que consiste apenas em autorizar uma investigação sobre Moraes - a crise vai escalar. Vejamos:
Se a facção governista fizer obstrução, discutindo preliminares (os procedimentos de Mendonça ou o pedido de nulidade de Gonet) para não entrar no mérito da questão (a corrupção de Moraes), a crise vai escalar.
Se o STF, empurrado pela sua facção governista, não fizer uma reunião pública (para esconder da sociedade as posições dos seus ministros) e sim uma reunião fechada (ou secreta, como aquela que absolveu preventivamente Toffoli), a crise vai escalar.
Se Toffoli ou Moraes (ou ambos) não se declararem impedidos e votarem na reunião do dia 15, a crise vai escalar.
Se a facção governista fizer maioria para impedir a investigação de Moraes e inocentá-lo preventivamente, a crise vai escalar.
Se a facão governista adotar uma manobra protelatória, adiando a decisão (quer por decisão da maioria do plenário, quer por pedido de vista) a crise vai escalar.
Ou seja, com quase 100% de certeza, a crise vai escalar.
Mas que crise é essa?
Ao contrário do que diz a maior parte da imprensa, a crise não é só do STF. No fundo é a crise da estratégia petista de conquista de hegemonia nas instituições. Quando viu a maioria da população reprovar seu governo e seu candidato ser ameaçado eleitoralmente (o que deveria ser normal numa democracia), o PT virou a mesa do STF.
Está agora plenamente exposto o processo petista de conquista de hegemonia nas instituições. É bárbaro. É um vale-tudo. Diante da possibilidade de perder as eleições (repita-se: o que deveria ser normal numa democracia) a facção governista no STF move uma guerra que pode destruir a instituição.
A democracia no Brasil está sob ataque. Sim, porque atacar a democracia não é só dar (ou tentar dar) golpe de Estado (à moda antiga: golpe militar com tanques nas ruas). A democracia pode ser atacada por um processo de erosão, quando uma força política ocupa as instituições visando conquistar hegemonia para se prorrogar no governo.
Não há democracia liberal ou plena sem rotatividade ou alternância democrática por via eleitoral. Veja-se os casos do Uruguai e do Chile, as únicas democracias liberais do continente neste século, onde a alternância foi assimilada como parte do metabolismo normal do regime. Infelizmente não é o caso do Brasil, que está sob o governo do PT durante quase todo o século. E o PT já decidiu que fará tudo, menos sair do governo.
Por isso, o Brasil tende a cair nos principais rankings internacionais de democracia (apesar do V-Dem ter sido aparelhado por acadêmicos petistas). Na The Economist Intelligence Unit provavelmente vai cair.
Por que? Ora, porque não há mais julgamento imparcial no STF. A facção governista - atuando para reeleger Lula e manter seu feudo na instituição - degenerou o tribunal em um palco da baixa luta política. Isso significa que os brasileiros não têm mais uma suprema corte digna do nome, um dos requisitos para um regime ser considerado democrático. Portanto, o que está em jogo no momento não é apenas quem será o próximo governante e sim a natureza do nosso regime político.
Se Lula for reeleito mais uma vez fará uma maioria tão acachapante no STF que só poderá ser revertida na segunda metade do século. Se Alexandre de Moraes não renunciar ou não for investigado, julgado e condenado, assumirá a presidência da suprema corte em 2027 e retomará para si a relatoria do Inquérito das Fake News (ou criará outro inquérito do exceção ainda pior do que o atual, que ficou em suas mãos monocráticas por mais de 7 anos). Desnecessário dizer que, nessas circunstâncias, não estaremos mais numa democracia.
Estamos caindo no abismo. E a eleição não vai nos salvar da degeneração institucional e da consequente erosão democrática em curso.



