Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (27/08/2026)
O Estadão fez uma entrevista com dois economistas sobre a situação fiscal do Brasil. De modo bastante sucinto, a avaliação é que o próximo governo terá de cortar gastos.
Como sabemos, populistas no governo costumam não ligar para essas questões. No caso dos populistas de esquerda, como Lula, essa postura ainda vem revestida de uma propaganda que exalta a democracia por atender a direitos sociais.
É importante nos debruçarmos sobre isso porque essa concepção praticamente atravessa a opinião pública por meio de intelectuais, jornalistas, da classe artística e dos chamados movimentos sociais: democracia é cidadania; ou seja, sem cidadania não há democracia.
Talvez resida aí boa parte da dificuldade de conversarmos sobre democracia com pessoas comuns. O desgaste da palavra faz ressoar, em quem a escuta, um sinal de alerta para o que sempre parece propaganda de governo.
A técnica de manipulação é muito clara e bastante disseminada. O atendimento a direitos sociais transforma o agente em um democrata. Não os atender, por outro lado, joga o adversário — mesmo que este reivindique uma posição no mesmo campo político de esquerda — na vala dos autoritários.
Cabe frisar que o atendimento a direitos sociais pode ser representado por uma régua ampla, que mede desde a menor das garantias até o alcance total do que contempla a Carta Magna como dever do Estado. É importante perceber que boa parte dessa confusão com o termo “democracia” pode ser atribuída à Constituição, que buscou contemplar todas as reivindicações possíveis sem mostrar como financiá-las.
O fato é que quem procura demonstrar a necessidade de reforma do Estado para permitir o financiamento de políticas públicas sustentáveis — obviamente por meio da contenção de gastos, já que os recursos são finitos — costuma se encontrar, nessa régua imaginária, do lado daqueles que atendem a menos direitos, sendo identificado como alguém que quer retirar essas garantias.
O campo discursivo do populista de esquerda diz que a cidadania plena, ou o atendimento progressivo e ilimitado de benefícios sociais, é o caminho do futuro. Sem isso, não haveria democracia.
A liberdade fica sempre condicionada a um benfeitor que supra todas as necessidades. Sem ele, não há esperança. Essa é a mensagem. Finanças públicas são só um detalhe.



