Mauai M. H. Toledo & IA, Inteligência Democrática (02/11/2026)
Passou. Desceu o pano sobre o espetáculo eleitoral. Lula venceu, Flávio perdeu, os vencedores comemoraram, os derrotados procuraram explicações e o brasileiro finalmente pôde voltar às suas preocupações habituais: pagar os boletos, sobreviver ao supermercado e descobrir por que a internet funciona tão bem para transmitir brigas e tão mal para resolver problemas.
O resultado foi suficientemente claro para definir o presidente e suficientemente apertado para recomendar alguma humildade. Lula recebeu 51,79% dos votos válidos. Flávio, 48,21%.
Aparentemente, quase metade dos eleitores votou errado.
É o que pensa a outra metade.
O problema da democracia é esse hábito inconveniente de permitir que pessoas inteligentes, honestas e perfeitamente capazes de atravessar uma rua sem supervisão votem no candidato que consideramos uma catástrofe.
O governo reeleito celebra a vitória da democracia. Tem razão em celebrar o resultado das urnas. Mas precisa resistir à antiga tentação dos vencedores de confundir maioria eleitoral com certificado de superioridade moral.
Ganhar uma eleição é receber autorização para governar. Não é receber autorização para explicar aos derrotados que eles precisam evoluir como seres humanos.
A militância governista enfrenta agora uma descoberta desagradável: o adversário perdeu, mas seus eleitores continuam existindo.
Não desapareceram durante a apuração. Não foram recolhidos pela Justiça Eleitoral. Continuam morando no apartamento ao lado, dirigindo ônibus, atendendo em farmácias e frequentando as mesmas praias.
Alguns são até parentes.
Do outro lado, a oposição também precisa enfrentar uma experiência pouco agradável: perder uma eleição sem perder necessariamente a razão em tudo, mas sem ganhar, por isso, o direito de desconhecer o resultado.
A urna não é um campeonato de futebol em que se pede revisão do VAR até aparecer o placar desejado.
Fiscalizar instituições e exigir transparência são direitos democráticos. Transformar a própria decepção em evidência de irregularidade é outra coisa.
Mas o estrago mais interessante — e menos discutido — não está nos partidos.
Está nas pessoas.
Durante meses, o brasileiro foi estimulado a praticar uma modalidade de investigação moral extraordinariamente econômica: descobrir em quem alguém vota e, a partir dessa única informação, concluir tudo o que precisa saber sobre seu caráter.
Antigamente, conhecer uma pessoa exigia convivência. Era preciso conversar, trabalhar junto, observar como tratava os outros, descobrir suas contradições.
Hoje basta perguntar:
— Votou em quem?
Pronto. Diagnóstico concluído.
Quarenta anos de amizade podem ser reavaliados em quatro segundos. Um casamento pode entrar em crise. Um grupo de WhatsApp transforma-se em tribunal. A ceia de família começa a exigir habilidades diplomáticas superiores às de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.
É um avanço tecnológico considerável.
Nunca tivemos tantos meios de comunicação e tanta facilidade para interromper uma conversa.
A polarização oferece uma vantagem sedutora: simplifica o mundo.
Se o outro discorda, não precisamos compreender suas razões. Basta classificá-lo. Uma vez classificado, podemos dispensar a escuta.
E aqui surge uma ironia especialmente brasileira.
Os dois campos dizem defender a liberdade. A dificuldade começa quando o outro resolve exercê-la.
Também defendem o diálogo. Desde que o interlocutor não insista demais em responder.
E adoram a democracia. Principalmente quando ela confirma suas expectativas.
Seria confortável concluir que os dois lados são iguais. Não são. Há diferenças reais entre suas propostas, responsabilidades e relações com as instituições democráticas. Essas diferenças merecem análise rigorosa, não uma distribuição automática de culpas para parecer imparcial.
Mas há uma pergunta que atravessa qualquer preferência partidária: o que acontece com a democracia quando passamos a tratar a discordância como defeito moral?
O prejuízo aparece onde menos se costuma procurá-lo.
Perdemos amizades, oportunidades de compreender, disposição para cooperar. Substituímos a curiosidade pela suspeita e a conversa pelo julgamento.
Enquanto discutimos quem tem o monopólio da virtude, os problemas do país continuam perfeitamente indiferentes às nossas certezas.
O hospital não pergunta se a fila é de direita ou de esquerda antes de continuar lotado. O buraco na rua não distingue eleitores. O preço dos alimentos não costuma respeitar convicções ideológicas.
A realidade tem essa deselegância: insiste em acontecer para todos.
Os vencedores terão de governar uma população que inclui milhões de pessoas que não os escolheram. Os derrotados terão de exercer oposição sem imaginar que discordar do governo significa desejar o fracasso do país.
E os cidadãos terão de reaprender uma atividade antiga, anterior às redes sociais e aparentemente ameaçada de extinção: conviver com pessoas que não pensam como eles.
A eleição terminou no domingo.
O vencedor ganhou um mandato. O derrotado conservou seus direitos.
E o vizinho que votou no candidato errado continua entrando no mesmo elevador.
A democracia como modo de vida pode começar por uma experiência modesta.
Desejar bom dia antes de perguntar em quem ele votou.



