Existem fatores que podem tornar ilegítima uma eleição do ponto de vista democrático.
A legitimidade democrática de uma eleição não tem a ver apenas com a lisura do pleito ou com a ausência de fraudes eleitorais (tipo a velha e falsa suspeita de que as urnas eletrônicas não seriam verificáveis). As eleições podem ser limpas e formalmente livres e, mesmo assim, não serem legítimas do ponto de vista democrático.
Vejamos alguns desses fatores que podem tornar ilegítima uma eleição do ponto de vista da democracia liberal.
O uso descarado da máquina pelo incumbente, ultrapassando qualquer medida: quase 400 bilhões injetados em medidas eleitoreiras durante os últimos dias de campanha (o que a lei proibe ou deveria proibir).
O uso da Polícia Federal como polícia política para molestar, perseguir e lançar suspeitas sobre o adversário (inclusive declarando publicamente - em pleno dia da eleição do primeiro turno - que foi aberta nova investigação policial sobre o candidato de oposição).
O uso do STF e da PGR como meios para governar e vencer a disputa (como se viu à farta durante o terceiro mandato de Lula e, inclusive, durante o primeiro turno das eleições atuais, com a facção governista da suprema corte interferindo diretamente no processo eleitoral a favor do governo).
A indústria de fake news e de acusações falsas - em volume jamais visto - que foi montada pela campanha governista, com a organização de um exército (chamado Exército do Lula, com cerca de 6 milhões de pessoas arrebanhadas) para espalhá-las e para assediar e coagir os eleitores.
Não se sabe em que medida tais fatores tornam a presente eleição presidencial ilegítima. Ainda precisa ser feito um levantamento minucioso e uma análise exaustiva de todos eles.
A incidência desses fatores independe do candidato de oposição ser muito ruim (o que é o caso de Flávio: um concorrente frágil, sem carisma e sem biografia, com um passado familiar que pesa negativamente sobre sua credibilidade do ponto de vista da democracia). Mas, no que tange aos fatores que podem tornar ilegítima uma eleição do ponto de vista da democracia, excluídas as fraudes e a falta formal de paridade de armas ou de equidade entre os concorrentes, se Lula estivesse enfrentando um candidato muito bom daria no mesmo.
Entretanto, se o incumbente estiver concorrendo, a responsabilidade maior sobre ações capazes de deslegitimar eleições do ponto de vista democrático cabe ao governo de turno e às instituições do Estado que devem zelar pela legitimidade democrática do pleito - sobretudo se essas instituições estiverem aparelhadas ou aliadas ao governo que disputa a reeleição (o que é o caso presente).
A discussão está aberta e terá consequências importantes caso Lula vença no dia 25 de outubro.
A cinco dias da votação os candidatos permanecem empatados. Era o esperado. A polarização acirrada tende ao empate. O resultado passa a depender então de uma pequena perturbação, a rigor imprevisível. Um golpe baixo final, uma mentira lançada na undécima hora, sem tempo de ser desmentida, pode definir o resultado.




Bom tema e observações para se pensar. Vale, o "vale tudo ?"