A Era Trump e a Pedagogia do Excesso
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (28/03/2026)
Uma leitura à luz da sophrosyne, da hubris e da nemesis - entre a degradação institucional interna, a brutalização da política externa e a reativação global do nacionalismo, da xenofobia e da violência
A experiência política representada por Donald Trump exige, para ser plenamente compreendida, algo mais do que as categorias correntes do comentário eleitoral, da análise conjuntural ou da crítica ideológica imediata. Ela solicita uma leitura de maior profundidade histórica, filosófica e civilizacional, capaz de enxergar, por trás da sucessão de escândalos, bravatas, rupturas institucionais e convulsões diplomáticas, uma lógica mais abrangente de poder. O trumpismo constitui uma forma contemporânea de política da desmedida: um modo de governar, falar e agir em que o poder já não reconhece mediações, limites ou proporções; e passa a apresentar a própria transgressão como virtude. Para nomear com rigor esse fenômeno, a tradição grega oferece um vocabulário de notável atualidade: sophrosyne, hubris e nemesis. A sophrosyne designa a moderação, o autodomínio, o senso da medida e a prudência que tornam possível a vida política ordenada; a hubris indica o excesso arrogante, a embriaguez de poder, o desprezo por formas e freios; a nemesis, por sua vez, nomeia o retorno das consequências, a correção trágica que recai sobre o poder quando este, imaginando-se ilimitado, rompe a ordem que o continha. À luz desse quadro, Donald Trump não aparece apenas como um líder controverso ou um populista nacionalista, mas como a expressão aguda de uma mutação regressiva da política democrática. Nessa mutação, a brutalização da linguagem, a perseguição do estrangeiro, o ataque às instituições, a manipulação da verdade, o flerte com o autoritarismo e a desestabilização geopolítica se articulam num mesmo sistema de desmedida.
Partindo dessa chave interpretativa, a era Trump não deve ser lida como excentricidade passageira da democracia norte-americana, mas como sintoma de uma crise mais vasta do liberalismo político, da ordem multilateral e da cultura cívica ocidental. De forma complementar, trata-se de analisar como a hubris trumpista se manifesta na política migratória, nas alianças internacionais, nas relações com Israel, Rússia, China, Irã e América Latina, na descrença institucional, no negacionismo científico e climático, no recrudescimento do racismo, da xenofobia e do antissemitismo; e na formação de uma base social movida por ressentimento, medo e desejo de revanche simbólica. Ao mesmo tempo, pretende-se mostrar que a nemesis já se desenha no horizonte e, em muitos aspectos, já começou: como instabilidade energética, corrosão institucional, violência estatal, desordem geopolítica, crise de legitimidade e retorno do ódio social às próprias entranhas do corpo político que o alimentou. Com isso, oferece-se não apenas uma crítica de Trump, mas uma interpretação de seu lugar na história contemporânea.
Há épocas em que a política deixa de ser apenas administração do conflito, disputa de interesses e alternância de elites; e passa a assumir a forma mais antiga e mais perigosa do drama histórico: o espetáculo do poder que, havendo perdido o senso de seus próprios limites, já não se reconhece como função, mas como vontade; já não se pensa como magistratura, mas como destino; já não se submete à medida, mas exige que a medida se curve diante dele. Donald Trump se inscreve nesse gênero de figura. Seria insuficiente descrevê-lo apenas como populista, demagogo, nacionalista radical ou empresário que capturou a linguagem do Estado para adaptá-la à lógica da marca e do espetáculo. Tais descrições, ainda que corretas, permanecem aquém de sua singularidade histórica. Trump é, mais propriamente, a personificação contemporânea de uma política da desmedida e do excesso; e por isso se deixa iluminar com precisão por uma gramática filosófica mais antiga do que o próprio constitucionalismo moderno: a oposição entre sophrosyne e hubris, e o retorno inevitável da nemesis. Platão intuía, na República, que as formas políticas decaem quando a alma pública perde sua ordenação interior, quando o desejo deixa de reconhecer freios, quando a liberdade se corrompe em licença e quando o protetor do povo descobre que pode convertê-lo em instrumento de sua ambição. Aristóteles, ao pensar a sophrosyne na Ética a Nicômaco, mostrava que o homem incapaz de se governar a si mesmo não governa a cidade senão projetando nela o seu próprio desequilíbrio. Trump parece condensar essa intuição clássica com uma clareza quase pedagógica. Se a hubris é o instante em que o poder acredita poder tudo, a nemesis é o momento em que esse excesso volta contra seu próprio autor, não raro levando consigo a cidade inteira.
Sua prática política nunca foi a da limitação prudente do poder, mas a da teatralização incessante da força pessoal. Sua retórica não organiza o dissenso; exacerba-o. Sua relação com a verdade não é de fidelidade factual, mas de manipulação instrumental. Sua linguagem pública não busca elevar o nível da deliberação democrática; rebaixa-o metodicamente, substituindo argumento por injúria, mediação por ultimato, instituição por fidelidade personalista. Nesse sentido, ele não é apenas um político agressivo; ele é, para usar a linguagem de Ruth Ben-Ghiat, uma variante tardocapitalista do “homem forte”. Esse homem faz da virilidade performática, do desprezo pelos freios institucionais e da humilhação do adversário os pilares de sua autoridade.
A originalidade perigosa do trumpismo não está em ter inventado o autoritarismo, mas em tê-lo ajustado às condições psíquicas, midiáticas e tecnológicas do presente. Sua força não nasce somente da captura de um partido; nasce da colonização afetiva de uma parcela da sociedade que passou a ver no excesso não um defeito, mas uma virtude; na grosseria, não uma indignidade, mas um sinal de autenticidade; no ataque à norma, não uma ameaça, mas uma forma de coragem. Essa é talvez a operação mais profunda de sua pedagogia política: ensinar que a hubris é energia, franqueza e independência, enquanto a sophrosyne seria apenas fraqueza, covardia e submissão ao “sistema”. A tragédia começa precisamente aí, porque a desmedida, quando celebrada como virtude cívica, deixa de parecer desvio e se converte em método. E toda vez que uma coletividade aprende a admirar o excesso, começa a preparar, mesmo sem sabê-lo, o seu encontro com a nemesis.
A política de imigração foi, desde o início, o terreno privilegiado dessa pedagogia. Trump compreendeu muito cedo que, numa sociedade atravessada por desigualdades, inseguranças econômicas, ansiedade cultural e exaustão institucional, a figura do estrangeiro podia servir de condensador de medos difusos. O migrante, sobretudo o latino-americano, foi elevado à condição de símbolo absoluto do perigo: invasor, criminoso, predador, usurpador de empregos, fator de dissolução moral, ameaça à ordem urbana e à identidade nacional. Não importava que os dados empíricos apontassem noutra direção; a eficácia política da narrativa dependia precisamente de sua desproporção. Ao falar em “invasão”, Trump não nomeia um fato; produz um enquadramento soberano. Desloca o imigrante do campo do direito para o campo da guerra, da administração civil para a lógica do inimigo. O estrangeiro deixa de ser trabalhador, familiar, solicitante de asilo, criança ou pessoa vulnerável: torna-se massa ameaçadora, abstração militarizável, objeto legítimo de contenção excepcional. Não é irrelevante que análises jurídicas recentes tenham identificado nesse vocabulário a sobrevivência de teorias nativistas do século XIX. Nesses vocabulários, a imigração aparece como problema de pureza cívica e não como questão humana, social e econômica.
Aí se manifesta uma das funções mais perversas da hubris política: simplificar violentamente o real para torná-lo obediente à fantasia do mando. O mundo social, sobretudo em democracias complexas, é sempre ambíguo, plural, refratário às soluções absolutas. A desmedida recusa essa complexidade. Precisa de culpados nítidos, imagens fortes, metáforas militares, fronteiras morais rígidas. É por isso que o trumpismo sempre preferiu o muro ao debate, a deportação à reforma, a suspeita ao diagnóstico, a acusação ao entendimento. René Girard ajuda a compreender a lógica íntima dessa construção quando descreve o mecanismo do bode expiatório: comunidades em crise, incapazes de suportar a dispersão de seus conflitos, convertem uma vítima substitutiva em suporte de toda a violência e de toda a ansiedade que as atravessam. O imigrante, no universo trumpista, cumpre precisamente essa função. Tudo o que a sociedade não consegue resolver em si mesma — desindustrialização, precarização, decadência de certas regiões, crise de representação e impotência das elites — é deslocado para o corpo do estrangeiro. A desmedida é aqui também covardia moral: em vez de enfrentar as causas, sacrifica-se o vulnerável.
Esse sacrifício, porém, não permanece externo. Uma das leis silenciosas da história do poder é que toda violência legitimada contra o outro tende, mais cedo ou mais tarde, a voltar para dentro. De forma complementar, a nemesis da brutalização migratória manifestou-se com nitidez em 2026, quando operações da ICE e a escalada repressiva associada à política de imigração produziram mortes em custódia, disparos fatais e episódios particularmente graves em Minneapolis. A morte de cidadãos norte-americanos em contexto de repressão federal, entre eles Alex Pretti, rompeu a ficção confortável segundo a qual a exceção migratória era um fenômeno circunscrito aos corpos estrangeiros e descartáveis. Especialistas das Nações Unidas advertiram que certas ações poderiam configurar uso extrajudicial da força. O significado desse deslocamento é profundo. O que começara como violência legitimada contra o estrangeiro, o indocumentado, o marginal, passou a mostrar sua lógica verdadeira: uma vez que o poder se habitua a agir sem medida, a diferença entre o alvo externo e o alvo interno se torna instável. O estado de exceção, como ensinou Giorgio Agamben, nunca é uma anomalia perfeitamente delimitável; é uma técnica expansiva de governo. A morte em Minneapolis foi, nesse sentido, uma imagem de nemesis: o retorno da desmedida ao coração da própria comunidade que a aceitara.
Não se deve compreender esse processo apenas como endurecimento administrativo. O que está em jogo é uma transformação mais vasta do imaginário nacional. O trumpismo reabilita um nacionalismo que não é patriótico em sentido cívico, mas identitário em sentido excludente. Não se trata do amor à comunidade política fundada em leis comuns, mas da nostalgia de uma pátria imaginada como patrimônio racial, religioso e cultural de um grupo que se sente proprietário originário da nação. É esse imaginário que reaquece o racismo, normaliza a xenofobia e autoriza a suspeita permanente contra todos os que parecem deslocar o centro étnico e simbólico do pertencimento. Jason Stanley mostrou que a política fascista opera precisamente por essa fabricação de um “nós” mitológico, puro e humilhado, ameaçado por “eles” internos e externos que encarnariam a decadência, a corrupção, o cosmopolitismo, a impureza ou a criminalidade. Trump não repete mecanicamente os fascismos históricos, mas mobiliza a mesma energia arcaica: a promessa de regeneração nacional por exclusão. Sua grandeza não é projeto; é purga.
A consequência internacional desse nacionalismo exacerbado é o agravamento da crise dos refugiados e dos excluídos. Num mundo já assolado por guerras prolongadas, colapsos estatais, fome, deslocamentos climáticos e catástrofes ambientais, o fechamento norte-americano funciona como sinal de autorização para que outras democracias se endureçam. O refugiado passa a ser visto não como prova viva do fracasso da ordem internacional, mas como ameaça à estabilidade das sociedades receptoras. Desaparece a obrigação moral de acolher; surge o imperativo securitário de repelir. Essa mutação não é apenas política, mas civilizacional. Um tempo em que as principais potências tratam o vulnerável como risco é um tempo em que a própria ideia de humanidade comum se enfraquece. Externamente, a nemesis desse fechamento não será apenas moral; será também geopolítica. O mundo que recusa acolhida aos deslocados é o mesmo mundo que verá crescer campos, rotas clandestinas, redes de tráfico, radicalização identitária e ondas de violência contra os descartados. O preço do endurecimento não é a ordem; é o aprofundamento da desordem.
No Oriente Médio, a lógica do excesso reaparece em escala imperial. A defesa intransigente de Israel por Trump jamais foi mera reafirmação de uma aliança tradicional; foi sua radicalização unilateral. O reconhecimento de Jerusalém como capital, a transferência da embaixada, a tolerância ou normalização dos assentamentos, a marginalização da questão palestina e a disposição para reduzir o conflito a um esquema simplificado de civilização contra barbárie exprimem uma política que abandona qualquer pretensão à mediação. A sophrosyne diplomática exigiria prudência, equilíbrio, noção de que alianças não suspendem obrigações normativas e de que a estabilidade regional depende de uma articulação delicada entre interesses e justiça. Trump substituiu essa prudência pela autorização. O aliado não é contido; é licenciado. A regra não é aplicada; é flexibilizada conforme a conveniência simbólica e doméstica do presidente.
Paradoxalmente, tal alinhamento não impediu o recrudescimento do antissemitismo nos Estados Unidos; antes, conviveu com ele de modo inquietante. O relatório do American Jewish Committee para 2025 registrou um sentimento majoritário de insegurança entre judeus norte-americanos, além de um crescimento importante da percepção de hostilidade e de experiências diretas de antissemitismo. Isso revela algo decisivo sobre o universo trumpista: sua retórica pró-Israel não elimina os elementos obscuros de sua base social. Nele coexistem sionismos instrumentais, cristãos sionistas com imaginário milenarista, nacionalistas que veem Israel como posto avançado de uma guerra civilizacional e segmentos conspiratórios nos quais antigos motivos antissemitas jamais desapareceram completamente. A desmedida da guerra simbólica produz, portanto, um ambiente em que o judeu pode ser simultaneamente exaltado e vilipendiado, aliado e suspeito, símbolo de civilização e objeto de paranoia. A nemesis dessa instrumentalização é o crescimento de formas novas e velhas de antissemitismo, ao lado da islamofobia e do antiarabismo, numa atmosfera de radicalização generalizada.
O abandono de aliados tradicionais e o esvaziamento do multilateralismo completam esse quadro. Trump tratou a Europa, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, organismos internacionais e acordos multilaterais com um misto de impaciência mercantil e desprezo soberano. Não se limitou a criticar desequilíbrios ou a exigir maior contribuição financeira; atuou como se alianças fossem ativos privados a serem reavaliados conforme sua utilidade imediata para a encenação da força presidencial. O que desaparece aí é o sentido mais fino da ordem liberal internacional: não sua hipocrisia, mas seu valor como tecnologia de contenção da guerra, da arbitrariedade e do solipsismo das potências. Anne Applebaum, ao examinar o crepúsculo das democracias contemporâneas, mostra que o autoritarismo não avança apenas pela violência aberta, mas também pelo enfraquecimento dos laços de confiança e reciprocidade que tornam a cooperação política possível. Trump operou precisamente nesse registro. Onde deveria haver arquitetura, ofereceu transação. Onde havia dever de previsibilidade, introduziu o cálculo personalista. A desmedida aqui não produz soberania forte, mas sistema internacional mais volátil, mais opaco e mais propenso a aventuras de força.
Na América Latina, o ápice dessa lógica foi a operação contra Nicolás Maduro em janeiro de 2026. A captura do presidente venezuelano em Caracas por ação militar norte-americana, apresentada em certos círculos como ato de justiça e em outros, com razão, como sequestro extraterritorial, recolocou a questão da soberania latino-americana no centro do debate hemisférico. Trump afirmou que os Estados Unidos administrariam a Venezuela até uma transição “segura”, linguagem que, despida de ornamentos, revela pretensão tutelar e impulso neocolonial. Brookings, Chatham House, o Council on Foreign Relations e o Serviço de Pesquisa do Congresso ressaltaram de imediato as implicações jurídicas e políticas da operação, bem como a precariedade de sua justificativa em direito internacional. Importa sublinhar que a crítica a Maduro não resolve a questão; antes, a torna mais exigente. O fato de um governante ser autoritário ou profundamente problemático não confere automaticamente a outra potência o direito de capturá-lo militarmente e insinuar administração sobre seu país. Quando esse gesto se torna admissível, a norma internacional já foi corroída.
Mais ainda: a operação venezuelana expôs de forma quase obscena o vínculo entre intervenção e recurso natural. Relatos jornalísticos e análises apontaram o interesse de Trump nas reservas de petróleo do país e a dificuldade de distinguir, em seu discurso, entre mudança de regime, estabilização e acesso a ativos estratégicos. A hubris imperial reaparece justamente aí: no instante em que o governante já não sente necessidade de disfarçar suficientemente seu apetite. Se o século XX ensinara os impérios a cobrir seus interesses com a linguagem do desenvolvimento, da segurança ou da democracia, Trump opera com uma franqueza predatória que é, ela mesma, sinal de decadência. A nemesis dessa franqueza é dupla: por um lado, reativa em toda a América Latina a memória histórica do intervencionismo norte-americano; por outro, enfraquece o próprio prestígio moral dos Estados Unidos ao recolocá-los na posição do dominador que já não se esforça em parecer outra coisa.
A escalada com o Irã, em março de 2026, ofereceu talvez o exemplo mais puro da nemesis econômica e geopolítica da hubris trumpista. Ao combinar ultimatos, ameaça a instalações energéticas, retórica bélica e recuos táticos abruptos, Trump lançou sobre o mercado global de petróleo uma incerteza extrema. O preço do barril subiu fortemente diante do risco de fechamento do estreito de Ormuz e da ampliação do conflito, para depois oscilar brutalmente conforme rumores de pausa, negociações ou reorientação estratégica. Em vez de grandeza, a guerra performática produziu vulnerabilidade energética; em vez de comando, ansiedade global; em vez de dissuasão estável, volatilidade. Essa é uma forma nítida de nemesis: a força ostensiva, quando desacompanhada de prudência, converte-se em fator de instabilidade para o próprio poder que pretendia ampliar. O líder que deseja parecer imprevisível demais acaba tornando imprevisível o terreno sobre o qual também repousa a sua própria autoridade.
É nesse ponto que a chamada “Teoria do Louco”, tantas vezes atribuída como explicação favorável ao estilo de Trump, revela seu verdadeiro conteúdo. Há quem sustente que sua imprevisibilidade seria instrumento racional de barganha: parecer excessivo para obter concessões. Mas uma coisa é manipular incerteza dentro de uma arquitetura estratégica; outra, muito diversa, é governar pela impulsividade elevada a princípio. A primeira ainda pertence ao domínio da prudência calculada; a segunda, à gramática da hubris. O problema do trumpismo é que ele não apenas simula excesso para fins táticos; ele crê no excesso como forma superior de poder. Por isso a nemesis não tarda a aparecer: mercados em pânico, aliados perplexos, adversários testando limites, instituições internas corroídas, opinião pública exausta e a própria potência aprisionada na personagem que construiu.
A relação com a Rússia e a Ucrânia também deve ser lida à luz dessa nemesis. Ao relativizar a defesa da Ucrânia, sugerir acordos apressados e adotar, diante do imperialismo russo, uma postura marcada por transacionalismo e complacência, Trump não apenas enfraquece um aliado sob ataque; ajuda a normalizar a ideia de que a força territorial pode compensar, desde que seja suficientemente brutal e persistente. Timothy Snyder advertiu que a guerra na Ucrânia não é um episódio periférico, mas um teste decisivo sobre a sobrevivência da ideia de liberdade política na Europa. Ao tratá-la como incômodo a ser liquidado rapidamente, Trump opera segundo a lógica do comerciante impaciente, não do estadista. A nemesis dessa posição é a erosão da confiança atlântica, o fortalecimento de revisionismos estratégicos e a multiplicação de dúvidas quanto ao compromisso norte-americano com qualquer ordem que transcenda a vontade presidencial do momento.
No plano econômico, o confronto tarifário com a China repete o mesmo esquema. A crítica à China pode ser legítima em muitos aspectos, como práticas industriais predatórias, assimetrias regulatórias, autoritarismo digital e ambição geopolítica. Mas o trumpismo simplifica tudo isso numa narrativa de espoliação absoluta, em que tarifas aparecem como gesto viril de reparação nacional. Em vez de uma política industrial moderna, consistente e articulada, oferece-se o símbolo bruto do castigo aduaneiro. O resultado é conhecido: cadeias produtivas pressionadas, custos internos elevados, incerteza para empresas, ganhos incertos para o trabalhador e nenhum retorno garantido à prometida idade de ouro manufatureira. Mais uma vez, a nemesis da simplificação aparece quando a realidade se recusa a obedecer ao slogan.
A base de apoio de Trump explica parte de sua persistência. O universo MAGA, setores da extrema-direita, parte do eleitorado evangélico radicalizado, influenciadores digitais, empresários oportunistas e segmentos da mídia conservadora compõem uma coalizão heterogênea unificada não por coerência doutrinária, mas por afetos comuns: ressentimento, nostalgia, desejo de hierarquia, hostilidade ao cosmopolitismo, desprezo pelos mediadores institucionais e fascínio pelo líder que promete punir inimigos. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostraram que democracias morrem quando partidos tradicionais abandonam seus filtros internos e passam a legitimar figuras abertamente hostis à contenção institucional. Foi isso que parcelas decisivas do Partido Republicano fizeram. A mídia conservadora, por seu turno, não apenas defendeu Trump; produziu para ele um habitat cognitivo. Nele, cada investigação é perseguição, cada crítica é complô, cada condenação é prova de que o líder combate forças obscuras. Hannah Arendt reconheceria nessa operação o triunfo da mentira política como forma de desorientação coletiva: o objetivo não é convencer todos de uma mesma falsidade, mas dissolver o terreno comum em que a verdade possa ser politicamente eficaz.
O caso Epstein paira sobre esse universo como emblema de uma sociabilidade oligárquica profundamente corrompida. A relação social entre Trump e Jeffrey Epstein, fartamente documentada em registros públicos, não pode ser descartada como irrelevância anedótica. Ainda que se deva manter rigor absoluto quanto às distinções entre proximidade social, culpa jurídica e especulação irresponsável, o caso lança luz sobre um ecossistema de poder em que celebridade, dinheiro, promiscuidade moral e proteção recíproca circulam em níveis inquietantes. Somado ao caso E. Jean Carroll e a um histórico público de linguagem degradante sobre mulheres, ele ajuda a revelar uma dimensão essencial do trumpismo: não se trata apenas de um projeto político de força, mas de um mundo moral no qual o outro frequentemente comparece como objeto, troféu, peça ou adereço. E quando isso acontece no plano privado, costuma haver ressonância pública. A república governada por quem não reconhece o outro como limite tende a reproduzir, em escala ampliada, essa mesma lógica de instrumentalização.
Ao lado disso, o negacionismo científico e climático de Trump completa a anatomia do excesso. Sua hostilidade às evidências sobre aquecimento global, sua banalização da pandemia e sua disposição de converter a ciência em adversária cultural não exprimem somente ignorância ou cálculo eleitoral. Revelam algo filosoficamente mais profundo: uma recusa ontológica do limite. A natureza, o clima, a doença, os dados, os especialistas, todos esses elementos comparecem como obstáculos intoleráveis a uma imaginação política que deseja soberania sem resto. Se a sophrosyne supõe aceitar que a liberdade humana se exerce dentro de condições que não escolhemos completamente, a hubris trumpista reage ao limite como se este fosse ofensa. O resultado é duplamente trágico: degrada-se a capacidade do Estado de responder racionalmente a crises e, ao mesmo tempo, educa-se parte da população para desconfiar sistematicamente de qualquer autoridade fundada no conhecimento.
Nesse sentido, autores contemporâneos que criticam Trump não o fazem por histeria ou antipatia pessoal, mas porque reconhecem, em sua figura, um ponto de condensação de tendências destrutivas mais amplas. Anne Applebaum percebe nele a sedução autoritária que captura elites ressentidas; Timothy Snyder vê a ameaça à verdade e à liberdade; Jason Stanley, a maquinaria da política fascista; Ruth Ben-Ghiat, o retorno dos homens fortes; Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, o desgaste dos freios democráticos; Yanis Varoufakis, a aliança entre formas novas de poder plutocrático e degradação da cidadania. O denominador comum dessas críticas é a percepção de que Trump não representa apenas uma preferência ideológica entre outras, mas uma mutação nas condições de possibilidade da própria democracia liberal.
É precisamente por isso que a tese da chamada “Síndrome de Transtorno de Trump” deve ser refutada com energia intelectual e precisão conceitual. Não se trata de negar que existam exageros retóricos entre opositores, nem de afirmar que toda crítica progressista seja sempre lúcida e equilibrada. Trata-se de denunciar um expediente específico: transformar a oposição em patologia para deslegitimar o juízo. Quando apoiadores de Trump qualificam críticas severas como “transtorno”, estão operando uma forma de gaslighting político. A estrutura é simples: o líder agride a norma; o observador aponta a agressão; o líder responde que o observador enlouqueceu. Não há aí conceito; há técnica de dominação simbólica. Ela Serpil Evliyaoğlu mostrou que esse tipo de psiquiatrização do adversário ameaça o espaço democrático justamente porque substitui a controvérsia pela suspeita médica, o argumento pela caricatura clínica. A revista Psychology Today acrescentou que o uso banalizado de rótulos pseudopsicológicos nesse contexto não apenas distorce a linguagem da saúde mental, como encobre a racionalidade de reações morais intensas diante de ameaças reais. O cidadão que teme a deterioração da democracia não está “desarranjado”; pode estar apenas atento. Aquele que se indigna diante da brutalização do estrangeiro, do crescimento do racismo, do recrudescimento do antissemitismo, da violência da ICE, do cinismo geopolítico ou da manipulação da verdade não sofre, por isso, de desordem. Sofreria, talvez, se já nada disso lhe causasse inquietação.
No fundo, o trumpismo é inteligível como tragédia moderna porque conjuga, em um só movimento, a celebração da hubris e a incubação da nemesis. A desmedida aparece como carisma; a nemesis, como consequência retardada. Ela já se deixa ver, porém, em vários planos: nas mortes em Minneapolis e na expansão de uma máquina repressiva que se volta também contra cidadãos; no recrudescimento do racismo e da xenofobia; na intensificação da crise dos refugiados; no aumento do antissemitismo em meio à instrumentalização da questão israelense; no desprestígio internacional dos Estados Unidos após a captura de Maduro e a naturalização do intervencionismo; na volatilidade energética gerada pela escalada com o Irã; na insegurança global produzida por um poder que confunde imprevisibilidade com grandeza; na erosão interna da confiança eleitoral e na corrosão das mediações democráticas. A nemesis não precisa esperar o colapso final para existir; ela já está presente em cada consequência que revela o preço oculto do excesso.
Se a história há de julgar Trump com alguma justiça, talvez o faça menos como excêntrico e mais como revelador. Ele mostrou que a democracia liberal pode abrigar, em seu interior, apetites de desmedida que se julgavam domesticados. Mostrou que partidos podem acomodar o inaceitável por oportunismo. Mostrou que a mídia pode fabricar universos paralelos suficientemente densos para suspender a verdade factual. Mostrou que a brutalização do estrangeiro seduz parcelas significativas da cidadania. Mostrou que o poder, quando estetizado como força pura, atrai devoção mesmo ao custo de degradar o comum. E mostrou, sobretudo, que a sophrosyne não é uma virtude antiquada, mas uma necessidade permanentemente atual. Sem moderação, sem domínio de si, sem respeito ao limite, sem reconhecimento de que a política exige forma e contenção, a república torna-se presa fácil da hubris. E quando isso acontece, a nemesis não é possibilidade distante; é o nome mais sóbrio do futuro.
À guisa de conclusão, pode-se afirmar que a era Trump não representa apenas uma inflexão política dentro da história recente dos Estados Unidos, mas uma inflexão moral e civilizacional cujo alcance ultrapassa amplamente a cronologia de seus mandatos. Seu legado mais profundo não reside apenas nas medidas adotadas, nas alianças recompostas ou rompidas, nas operações militares, nos ataques às instituições ou na brutalização da política migratória, mas naquilo que ensinou a considerar admissível. Ao normalizar o excesso, ao converter a crueldade em sinceridade, ao transformar a mentira em instrumento ordinário de governo, ao degradar o estrangeiro à condição de ameaça abstrata, ao reabilitar formas agressivas de nacionalismo e ao submeter a ordem internacional a impulsos personalistas, o trumpismo deslocou o horizonte do politicamente tolerável. Nisso consiste sua verdadeira gravidade histórica.
O conceito de nemesis permite compreender que esse processo não se encerra em si mesmo. Toda política fundada sobre a hubris produz, cedo ou tarde, um retorno: às vezes sob a forma de instabilidade econômica, às vezes como violência social, às vezes como erosão institucional, às vezes como descrédito internacional, às vezes como ressurgimento do ódio que, liberado contra o outro, termina por corroer a própria comunidade que o legitimou. A nemesis trumpista já se anuncia na crise de confiança democrática, na exacerbação do racismo e da xenofobia, no aumento do antissemitismo, na intensificação do controle interno, na fragilidade das alianças, na volatilidade dos mercados energéticos e na corrosão do prestígio normativo dos Estados Unidos. Não se trata, portanto, de condenação moral abstrata, mas de reconhecimento histórico de causalidades. O poder que despreza a medida não inaugura grandeza duradoura; prepara a sua própria fatura.
Deste modo, a crítica a Trump não pode ser descartada como histeria, obsessão ou simples antipatia ideológica. Ela é, antes, esforço de lucidez diante de um processo em que a democracia liberal se vê tensionada por dentro por energias regressivas que haviam sido subestimadas. Se se insiste em recorrer à tradição trágica grega, isso se deve ao fato de que ela ainda oferece um dos melhores instrumentos para pensar o presente: ensina que a ordem política não subsiste sem autolimitação, que o excesso fascina antes de destruir, e que o preço da arrogância do poder costuma ser pago também pelos inocentes. Trump, nesse sentido, é menos um desvio acidental do que um sinal de advertência. Sua figura condensa uma pergunta decisiva para o futuro: se as democracias ainda são capazes de restaurar a sophrosyne antes que a nemesis se complete.
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