A Esfinge do Kremlin
Putinismo como síntese histórico-política da soberania russa (1999-2026)
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (04/04/2026)
Enigmas de Centralização Imperial, Teologia Política e Revisionismo Geopolítico na Era Pós-Soviética
A interpretação do regime de Vladimir Putin exige que se abandone qualquer leitura episódica ou puramente conjuntural da política russa e que se o reinsira em uma problemática histórica de longa duração. A Federação Russa sob Putin não é apenas um Estado pós-soviético que se adaptou às exigências do sistema internacional após 1991; ela é, mais precisamente, uma recomposição seletiva de formas históricas de poder que atravessam a Rus medieval, o império czarista, a experiência bolchevique, o stalinismo, a desintegração da URSS e o trauma da década de 1990 pós-soviética. O putinismo, nesse sentido, não representa uma ruptura radical em relação ao passado russo, mas uma síntese tardia e tecnologicamente atualizada de elementos identitários profundamente enraizados: centralização extrema, primado da soberania sobre o pluralismo, instrumentalização da memória nacional, associação entre força e legitimidade e uso sistemático da história como instrumento de governo. A metáfora da “Esfinge” permanece útil porque permite nomear o caráter opaco, ambíguo e estrategicamente enigmático de um poder que raramente se apresenta de modo transparente. Mas ela só é realmente fecunda se for tratada como conceito analítico: a Esfinge Putin não é apenas um líder difícil de decifrar; é uma forma de governo fundada na produção calculada de indeterminação, na manipulação das expectativas e na domesticação da incerteza como instrumento político. Como observa Carl Schmitt em Teologia Política, o soberano se define pela decisão sobre o estado de exceção, e Putin parece encarnar essa decisão como princípio reiterado de governança.
A longa duração da política russa já se anuncia na formação da Rus de Kiev1, cuja cristianização em 988 vinculou o espaço eslavo oriental ao universo ortodoxo bizantino e inaugurou um eixo simbólico que continuaria a repercutir séculos depois. A desagregação medieval e a dominação mongol deslocaram o centro político para Moscou. A conversão de 988 inscreveu não apenas religião, mas uma concepção de poder sacralizado—o soberano ungido como intermediário divino. Essa legitimação teológica do poder ressurgiria no conceito do Czar e ecoaria nas narrativas de missão histórica que o governo russo mobiliza hoje. Como mostram Richard Pipes e Orlando Figes, a formação do Estado russo deve ser lida como uma resposta à exposição geopolítica de um território vasto, vulnerável e carente de barreiras naturais estáveis. A consequência foi a consolidação de uma cultura política em que o poder central se justificava como proteção contra ameaças externas e como garantia da integridade territorial. A centralização, portanto, não foi apenas uma opção institucional; tornou-se um princípio civilizacional. A partir desse ponto, a história russa será repetidamente atravessada por uma tensão entre expansão imperial e insegurança estrutural, entre ambição de grandeza e medo de fragmentação. Como discute Braudel em sua análise da longa duração, estruturas históricas profundas tendem a sobreviver a regimes políticos específicos, reorganizando-se sob novas formas sem desaparecer inteiramente. “O Estado é tudo, o indivíduo não é nada”, como sintetiza a voz do Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski, capturando a tentação autoritária que permeia essa tradição.
É nesse contexto que a figura do czar adquire seu sentido pleno. A derivação etimológica de czar, proveniente de Caesar, não é um detalhe lexical, mas a inscrição de uma pretensão política: a de uma soberania indivisa, quase sacralizada. Ivan IV, Ivan, o Terrível, representa um momento inaugural dessa gramática do poder. Sua oprichnina2 institucionalizou a violência de Estado como forma de reorganização política, e sua memória permanece associada à ideia de que a unificação do corpo político pode exigir terror. Pedro, o Grande, introduziu a modernização autoritária, a ocidentalização forçada e a reorganização administrativa do império; Catarina, a Grande, expandiu a projeção territorial russa e consolidou a Rússia como potência europeia e eurasiática; Alexandre I inscreveu o império no sistema de equilíbrio continental após a derrota de Napoleão. Esses soberanos são frequentemente celebrados como heróis nacionais, mas sua relevância histórica está menos na emancipação do que na criação de uma imaginação imperial em que a expansão e a unidade se tornam bens políticos supremos. A Rússia aprende, nessa tradição, que a força do centro é a condição da existência do todo. Essa lógica de expansão territorial e soberania indivisa parece ecoar na história russa, onde a política frequentemente se confunde com conquista e controle centralizado, consolidando o poder pessoal; e encontra paralelos estruturais na organização dos siloviki3 do regime atual—ambos instrumentalizando elites securitárias para contornar instituições civis rivais.
A literatura russa, com sua profundidade antropológica e sua capacidade de dissecar as entranhas da alma coletiva, oferece um repertório indispensável para decifrar a matriz histórica do poder na Rússia, revelando padrões de obediência, autoridade e conflito interno que ecoam na era do regime atual. Fiódor Dostoiévski, em particular, constrói uma antropologia da submissão voluntária e da culpa existencial que permanece vital para compreender as dinâmicas autoritárias contemporâneas. Em Os Irmãos Karamázov (1880), a liberdade emerge como um fardo insuportável para a humanidade comum, e o célebre capítulo do “Grande Inquisidor” ilustra uma visão política em que o indivíduo abdica da autonomia em troca de pão e proteção estatal: “Não é o espírito que dá a vida, mas o pão; não é o espírito que dá a paz, mas o milagre”. Essa troca faustiana entre liberdade e segurança ressoa diretamente no contrato social implícito do governo atual, onde a estabilidade prometida pelo Kremlin justifica a redução das liberdades civis. Não é simples troca material; é processo de ressignificação ideológica onde a liberdade torna-se inteligível como irresponsabilidade ou luxo ocidental incompatível com grandeza estatal. Liev Tolstói, por sua vez, em Guerra e Paz (1869), explora a relação dialética entre o indivíduo e os processos históricos, enfatizando a contingência da vontade humana perante forças maiores: “O homem não pode ser um agente livre; ele é apenas um elo na cadeia da história, impulsionado por impulsos coletivos”. Essa perspectiva tolstoiana ajuda a interpretar como Putin se posiciona como o elo central dessa cadeia, manipulando narrativas históricas para afirmar uma agência soberana que transcende o comum dos mortais, transformando eventos como a anexação da Crimeia em capítulos de uma epopeia nacional inevitável. Essa retórica dissolve responsabilidade individual do líder em narrativa teleológica onde guerra, controle e expansão territorial tornam-se necessidades históricas inevitáveis. Anton Tchékhov, com sua prosa sutil e melancólica, captura o esgotamento moral e a paralisia social de uma Rússia pré-revolucionária, como em A Gaivota (1896) e O Tio Vânia (1899), onde personagens prisioneiros de suas rotinas e ilusões revelam uma inércia coletiva que adia qualquer transformação profunda: “A vida passa, e nada muda, exceto o tédio que nos consome”. Essa inércia tchekhoviana encontra paralelo na sociedade russa sob o regime, onde a apatia política e o cinismo cotidiano facilitam a continuidade do sistema, permitindo que a mudança real seja postergada em nome da estabilidade aparente.
Já Nikolai Gogol, precursor do realismo grotesco, desmascara a podridão burocrática e a hipocrisia administrativa que permeiam o Estado russo, temas que antecipam de forma profética as estruturas de poder contemporâneas. Em O Inspetor Geral (1836), ele satiriza uma burocracia corrupta e servil, onde os funcionários vivem em pânico ante a chegada de um inspetor imaginário, expondo a farsa da autoridade: “Todos mentem, todos roubam, e o povo sofre em silêncio”. Essa crítica à degradação da vida pública sob uma ordem formalmente estável e moralmente vazia ressoa na vertical do poder atual, onde a lealdade ao Kremlin mascara a corrupção generalizada e a ineficiência institucional, transformando o Estado em um teatro de narrativas coletivas. Da mesma forma, Almas Mortas (1842) revela o absurdo da especulação burocrática e a alienação humana, com seu protagonista Chichikov comprando “almas” mortas para fraudar o sistema: “O mundo é uma prisão onde cada um carrega sua própria corrente”. Gogol não apenas diagnostica o grotesco administrativo como traço estrutural da Rússia, mas ilustra como ele perpetua ciclos de dominação, ecoando o sistema de favoritismo seletivo do regime atual, tolerado desde que alinhado à lealdade pessoal. Sob o regime, a corrupção é instrumentalizada: elites comprometidas tornam-se reféns do poder através de chantagem mútua, sob permanente ameaça de perseguição retroativa.
Essa tradição literária se estende aos autores soviéticos e contemporâneos, que aprofundam a crítica ao totalitarismo e à manipulação da verdade, oferecendo lentes ainda mais afiadas para o governo atual. Aleksandr Soljenítsin, em Arquipélago Gulag (1973), denuncia o universo concentracionário como expressão máxima da desumanização estatal, onde o indivíduo é reduzido a número e o terror se naturaliza: “O Gulag4 não era uma anomalia; era o coração do sistema”. Essa denúncia ressoa no controle contemporâneo sobre dissidentes e na legislação de “agentes estrangeiros”, que transforma a sociedade civil em potencial ameaça ao Estado. Boris Pasternak, em Doutor Jivago (1957), dramatiza a devastação da vida privada pela história totalizante, com seu protagonista navegando o caos revolucionário: “A revolução devora seus filhos, e o amor é o único refúgio”. Vladimir Nabokov, exilado e crítico irônico, em obras como Fogo Pálido (1962), expõe a instabilidade das narrativas oficiais e a fragilidade da identidade sob regimes de ficção política: “A realidade é um espelho quebrado, e cada fragmento reflete uma mentira”. Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida (1967), converte o absurdo soviético em sátira de alta potência, com o diabo Woland desmascarando a hipocrisia: “A verdade é o que o Estado diz que é, mas o diabo sabe que mentiras”. Finalmente, Vladimir Sorokin, em O Dia de um Opríchnik (2006), projeta uma distopia onde tecnologia moderna e brutalidade medieval coexistem, antecipando o neoautoritário atual: “O futuro é o passado revivido, com drones e chicotes”. Essas obras não “explicam” Putin, diretamente, mas formam um arquivo sensível da cultura política russa, onde a tensão entre verdade e propaganda, submissão e resistência, já estava inscrita, permitindo uma leitura crítica do regime como herdeiro dessa herança literária e histórica.
A Revolução de 1917 rompeu com o czarismo, mas não com a lógica da centralização extrema. O bolchevismo transformou o partido em vanguarda e o Estado em instrumento de direção total da sociedade. Lenin concebeu o poder como forma de condução histórica por uma elite esclarecida, e a política como monopólio de interpretação do processo revolucionário. O resultado foi um sistema que associava mobilização de massas, coerção e monopólio ideológico. Como destacam Sheila Fitzpatrick, Stephen Kotkin e Moshe Lewin, a União Soviética constituiu uma experiência de modernização autoritária em escala sem precedentes. Com Stalin, esse modelo atingiu seu ápice. O stalinismo produziu industrialização forçada, expurgos, culto à personalidade e uma máquina repressiva que tratava a sociedade como material administrável. O Holodomor5, na Ucrânia soviética, permanece como um dos episódios mais dramáticos dessa lógica. Anne Applebaum demonstra que a fome resultou da combinação entre política de requisição, violência estatal e destruição da autonomia camponesa, tornando-se expressão extrema de um poder que não reconhecia limites éticos à realização de seus objetivos: “A fome foi usada como arma contra o campesinato”. Mesmo quando a historiografia debate o grau de intencionalidade, permanece incontornável o fato de que o regime tratou populações inteiras como objetos de engenharia social e política. A continuidade paradoxal entre czarismo e bolchevismo—ambos centralizadores, ambos mobilizadores, ambos desconfiados de pluralismo—demonstra que a forma de exercício do poder—centralização extrema, monopólio de interpretação, controle securitário do espaço político—transcende as diferenças de conteúdo ideológico. A liderança atual herda não apenas mentalidade securitária da KGB6, mas uma linhagem histórica inteira de centralismo como princípio civilizacional, reciclando estruturas de concentração de poder.
A vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial conferiu à União Soviética uma legitimidade histórica incomparável. A Grande Guerra Patriótica tornou-se, e ainda é, o eixo simbólico mais poderoso da memória nacional russa. Ela permitiu que o Estado soviético, e depois o Estado russo, associassem sua autoridade a um sacrifício heroico e à derrota do mal absoluto. A Guerra Fria, por sua vez, consolidou a imagem do Ocidente como inimigo sistêmico e moral, produzindo uma cultura política em que a fortaleza cercada é a figura dominante. A URSS7 não desapareceu apenas como arranjo institucional; ela permaneceu como repertório simbólico de disciplina, vitória e missão histórica. A desestalinização de Khrushchev e a gerontocracia tardia do período brejnevista revelaram um sistema já em desgaste. A economia perdia dinamismo, a legitimidade ideológica se esvaziava e o Estado mantinha a forma sem renovar o conteúdo. Gorbachev tentou salvar o sistema por meio da glasnost e da perestroika8, mas a abertura expôs fragilidades e acelerou a desagregação política. A queda do Muro de Berlim simbolizou o colapso da ordem soviética no Leste Europeu, e a dissolução da URSS em 1991 produziu uma crise de legitimidade e identidade que marcaria profundamente a Rússia pós-soviética. “O colapso do império soviético foi uma catástrofe para a Rússia”, como resume Kotkin em Stalin: Paradoxos do Poder. A mutação de inimigos permite renovação infinita da justificativa para centralização: sempre há ameaça existencial requerendo exceção.
A década de 1990, sob Boris Yeltsin, foi vivida como trauma nacional. A liberalização econômica acelerada, a privatização predatória, a ascensão de oligarcas, a fragilidade do centro político e a perda de prestígio internacional produziram uma sensação generalizada de humilhação. A Federação Russa herdou a estrutura estatal da URSS, mas não sua centralidade imperial. O fim do Pacto de Varsóvia e a expansão da OTAN para o leste reforçaram o sentimento de cerco. As redes da antiga KGB não desapareceram; antes, reconverteram-se em novos aparelhos de poder e segurança, fornecendo ao regime uma base organizacional decisiva. Formado na cultura da inteligência, da lealdade e da contenção estratégica, Putin ascendeu como o homem capaz de restaurar ordem, previsibilidade e respeito externo. As análises de Masha Gessen e Catherine Belton são centrais aqui, pois demonstram que a ascensão da liderança atual não se explica por genialidade individual isolada, mas por sua capacidade de articular elites, administrar conflitos e responder ao desejo social por estabilidade após anos de colapso institucional. “Putin é produto do KGB, e o KGB é produto da Rússia”, como sintetiza Gessen em O Homem Sem Rosto.
A partir de 2000, o regime começa a estruturar sua forma. O primeiro movimento foi a domesticação dos oligarcas. A mensagem política era inequívoca: a riqueza privada seria tolerada, mas não convertida em poder autônomo. A prisão de Khodorkovsky simbolizou essa nova ordem. O capital passou a estar subordinado ao centro estatal, e a economia russa tornou-se uma forma de capitalismo de Estado em que recursos energéticos, sobretudo petróleo e gás, sustentavam a arquitetura de poder. Como sugere a literatura sobre autoritarismo personalista, especialmente Barbara Geddes e os trabalhos reunidos em Como funcionam as ditaduras: poder, personalização e colapso, como discute Juan J. Linz em Regimes totalitários e autoritários (2001), a estabilidade desses regimes depende da capacidade de neutralizar elites rivais e de reduzir ao mínimo os mecanismos de contenção. A Rússia sob o regime caminhou precisamente nessa direção. O fortalecimento dos siloviki, a restrição progressiva da mídia, a erosão da autonomia regional e a manipulação do sistema eleitoral constituíram etapas de uma centralização sistemática. A vertical do poder, expressão recorrente do sistema, designa a transformação da lealdade pessoal em princípio de organização institucional. As reformas constitucionais de 2020, ao zerar o cálculo dos mandatos, legalizaram a perpetuação potencial de Putin no poder e tornaram explícita a fusão entre biografia do líder e continuidade do Estado. “O soberano decide sobre o estado de exceção”, como formula Schmitt em Teologia Política, e a liderança atual parece encarnar essa decisão como método permanente de governança. Instituições russas tornam-se fundamentalmente decorativas—legislatura, federalismo, eleições —funcionando como cenários para operações de consolidação de poder pessoal.
A ideologia do regime é híbrida, adaptativa e, ao mesmo tempo, profundamente ancorada em tradições históricas russas. Não se trata de um simples nacionalismo conservador, mas de um projeto civilizacional que articula ortodoxia religiosa, antiliberalismo, revisionismo histórico e uma concepção imperial da soberania. O conceito de Russkiy Mir, o mundo russo, tornou-se peça central dessa arquitetura. Como mostram estudos contemporâneos sobre o tema, a ideia de uma comunidade transfronteiriça unida pela língua, pela cultura, pela ortodoxia e pela memória histórica permite ao Kremlin reivindicar autoridade sobre espaços e populações para além de suas fronteiras formais. A anexação da Crimeia, em 2014, foi justificada precisamente por essa gramática. A Igreja Ortodoxa Russa, por sua vez, converteu-se em parceira do Estado na sacralização da ordem e na legitimação da guerra. O poder passou a apresentar-se como guardião não apenas da soberania política, mas também dos valores tradicionais e de uma suposta moral civilizacional ameaçada pelo Ocidente liberal. “O gnosticismo político transforma a política em salvação”, como observa Voegelin em A Nova Ciência da Política, e o regime parece seguir essa lógica ao prometer redenção nacional através da restauração imperial. Como mostra Marlène Laruelle, o nacionalismo russo contemporâneo articula imaginários imperiais, doutrinas civilizacionais e campos de batalha políticos que dão densidade ao discurso eurasianista.
Nesse ponto, a interpretação de Jan-Werner Müller revela sua utilidade analítica. O populismo moralizado, baseado na oposição entre um “povo verdadeiro” e elites deslegitimadas, ajuda a compreender o discurso oficial russo. O Kremlin não se apresenta apenas como governo; ele se apresenta como expressão autêntica da nação, o que reforça a marginalização de opositores, liberais, ONGs, jornalistas independentes e minorias dissidentes. Aleksandr Dugin, com sua Quarta Teoria Política e seu neoeurasianismo, oferece a formulação intelectual mais conhecida desse horizonte. Sua visão combina geopolítica, tradicionalismo, antiliberalismo e reivindicação civilizacional. A Rússia aparece como centro de uma ordem continental capaz de desafiar a hegemonia atlântica. O conceito de Heartland, originalmente formulado por Halford Mackinder, é reapropriado em chave antiocidental. Dugin não deve ser tratado como um simples ideólogo oficial do Kremlin, mas como parte de uma ecologia discursiva mais ampla que ajuda a legitimar o expansionismo russo. O regime se vale dessa linguagem quando ela fortalece sua narrativa, embora governe de maneira mais pragmática do que doutrinária. Em outros termos, o Kremlin utiliza a ideologia como atmosfera de legitimidade, não necessariamente como roteiro estrito de ação. Ainda assim, o efeito político é real: consolida-se uma visão da Rússia como civilização distinta, sitiada e autorizada a reagir de maneira excepcional. “O povo russo é o guardião da tradição contra a decadência ocidental”, como ecoa Dugin em Fundamentos de Geopolítica.
A política externa russa sob o regime deve ser entendida a partir da convergência entre cálculo estratégico e imaginação imperial. O debate nas relações internacionais oscilou entre explicações realistas, que enfatizam a expansão da OTAN, e leituras que sublinham o revisionismo ideológico russo. John Mearsheimer, em texto amplamente discutido, argumentou que a crise ucraniana decorre em grande medida da expansão da OTAN e da tentativa ocidental de deslocar a Ucrânia da órbita russa. Há, sem dúvida, elementos válidos nessa leitura, sobretudo quando se trata de reconhecer as sensibilidades estratégicas do Kremlin. Entretanto, a explicação é insuficiente se tomada isoladamente. O discurso de Munique de 2007 já indicava uma guinada da política externa russa rumo a uma postura mais assertiva e contestatória da ordem internacional liderada pelos EUA. A partir de então, Moscou passou a combinar revisionismo, guerra híbrida, manipulação informacional, uso geopolítico da energia e exploração de fissuras internas no Ocidente. Timothy Snyder tem insistido que a guerra contra a Ucrânia não é apenas conflito territorial, mas desafio à própria ideia de soberania pós-imperial na Europa. “A Ucrânia é o teste da Europa como projeto político”, como afirma Snyder em O Caminho para a Infelicidade. Fiona Hill e Clifford Gaddy, ao analisarem Putin como agente no Kremlin, mostram que sua forma de agir é baseada em operações, não em institucionalidade. A guerra, nesse sentido, é o momento em que o regime revela sua tendência a centralização total.
A invasão da Ucrânia é, de fato, o clímax do sistema atual. Nenhum outro evento condensa com tanta clareza as preocupações centrais do regime: história, soberania, império, identidade e fronteira. A anexação da Crimeia e a guerra no Donbas já eram ensaios de um projeto mais amplo; a invasão em larga escala de 2022 tornou explícita a questionamento da soberania ucraniana plena. O conflito é ontológico porque questiona a própria narrativa de continuidade histórica entre Rus de Kiev, império czarista, URSS e Federação Russa. A Ucrânia demonstra que essa continuidade é uma construção política, não uma essência natural. Por isso, o Kremlin investe tanto na manipulação da história. Putin recorreu em diversos momentos à afirmação de que russos e ucranianos seriam um só povo, mas essa formulação não é um dado neutro; ela funciona como negação da autodeterminação ucraniana e como justificativa para a guerra. A história, aqui, é arma. O passado é mobilizado para legitimar o presente e reconfigurar a legitimidade territorial. “A unidade histórica é o nosso destino”, como declara Putin em Sobre a Unidade Histórica dos Russos e Ucranianos.
As consequências internacionais foram profundas. A OTAN, longe de enfraquecer, revitalizou-se. A invasão russa reconstituiu a coesão atlântica, reforçou a percepção de ameaça no continente europeu e acelerou a reorientação estratégica de vários Estados. A Finlândia e a Suécia passaram a se aproximar formalmente da arquitetura de segurança ocidental, e a dependência energética europeia da Rússia começou a ser reduzida com maior vigor. A Rússia, por sua vez, buscou compensações na China, na Índia e nos BRICS. No entanto, essa reorientação revela assimetria estrutural. “O BRICS é um espaço de equilíbrio, não de subordinação”, como observa o diplomata brasileiro Celso Amorim em análises sobre multilateralismo.
Essa posição ambígua explica, em parte, por que certas correntes da esquerda internacional interpretam Putin de maneira excessivamente favorável. O equívoco central é confundir antagonismo geopolítico com projeto progressista. O regime é antiliberal e anti-hegemônico em relação aos EUA, mas isso não o torna emancipador. Seu antiestablishment opera a serviço da consolidação de um Estado hierárquico, conservador, militarizado e controlador. O que nele pode parecer progressista é apenas a contestação da unipolaridade estadunidense e do moralismo liberal internacional. Contudo, sua prática política revela um regime com traços reacionários: monitoramento da dissidência, controle da sociedade civil, intolerância ao pluralismo, ênfase na defesa, instrumentalização da religião e aliança entre poder político e elites rentistas. Em comparações com Trump, com a extrema-direita europeia e com outros movimentos iliberais, o que se observa é convergência tática, não identidade substantiva. Trump mina a confiança em instituições multilaterais; a Rússia beneficia-se dessa erosão. A extrema-direita europeia radicaliza o discurso soberanista e anti-globalista; o Kremlin explora essas fissuras para enfraquecer a unidade ocidental. A relação com Israel é mais pragmática do que ideológica, atravessada por cálculos de segurança e pela presença de comunidades russófonas, sem implicar alinhamento estratégico total. Em todos esses casos, o objetivo russo é o mesmo: corroer a arquitetura liberal internacional e ampliar a margem de manobra do Estado russo.
A literatura russa, novamente, oferece uma via de interpretação particularmente rica. Soljenítsin, em Arquipélago Gulag, expôs de maneira devastadora a racionalidade concentracionária do poder soviético. Pasternak, em Doutor Jivago, dramatizou a destruição da vida privada pela história totalizante. Nabokov revelou a instabilidade das narrativas e da identidade sob regimes de ficção política. Bulgákov, em O Mestre e Margarida, expôs a coexistência de absurdo, medo e encenação no mundo soviético. Sorokin, em O Dia de um Opríchnik, projetou uma distopia que combina tecnologia e medievalismo repressivo, antecipando com notável força simbólica a lógica neoautoritária do século XXI. Gogol permanece como anatomista da burocracia farsesca e corrupta; Tchékhov, como cronista da melancolia social e da inércia histórica; Tolstói, como pensador da relação entre liberdade e contingência; Dostoiévski, como grande intérprete da tentação autoritária e da submissão como escolha existencial. Ecoando Dumont em O individualismo: teoria da personalização da sociedade, pode-se notar que a tensão entre pessoa e totalidade, tão central no liberalismo ocidental, assume na tradição russa um registro oposto, no qual a integração ao corpo político tende a prevalecer sobre a autonomia individual. Esses autores canônicos permitem compreender a persistência de formas de poder e de imaginários políticos que a história institucional, por si só, não dá conta de explicar. “O homem é escravo de suas paixões, e o Estado é o mestre dessas paixões”, como resume Dostoiévski em Crime e Castigo.
A metáfora da Esfinge expressa esse regime de opacidade funcional. A Esfinge não resolve o enigma; ela o administra. Putin parece oferecer estabilidade, mas produz guerra; promete soberania, mas aprofunda dependências; promete restauração, mas compromete o futuro. A Rússia contemporânea vive, assim, um paradoxo complexo: forte o bastante para desafiar o Ocidente, mas frágil o suficiente para depender de uma política de exceção permanente. A personalização do poder, a influência sobre as instituições e a fusão entre Estado e líder produzem um sistema de estabilidade aparente e vulnerabilidade estrutural. A guerra na Ucrânia intensificou o controle, aprofundou a mobilização social e consolidou a narrativa do cerco, mas também acelerou a fuga de cérebros, a dependência econômica e a degradação do horizonte de inovação. Em termos estratégicos, o regime ganhou tempo. Em termos históricos, porém, seu legado já se apresenta como profundamente ambivalente. “A guerra é a continuação da política por outros meios”, como formula Carl von Clausewitz em Da Guerra (1832), máxima que John Mearsheimer evoca em sua análise da crise ucraniana para enfatizar a dinâmica realista de poder entre grandes potências, e a liderança atual parece ter levado essa lição ao extremo, convertendo a política em uma guerra permanente de atrito e expansão.
O mais importante talvez seja perceber que Putin fez da biografia um problema de Estado. As reformas institucionais, a verticalização do poder e a centralidade das redes de segurança produziram uma ordem cuja estabilidade depende de uma figura pessoal. Isso é, ao mesmo tempo, uma fonte de força e um fator de fragilidade. A sucessão futura poderá revelar tensões acumuladas entre elites civis, militares, regionais e econômicas. A história russa já conheceu colapsos, aparentemente improváveis. A diferença é que o regime, ao associar fortemente Estado e líder, torna a transição ainda mais delicada. A Rússia que emergirá depois de Putin dependerá de como essa estrutura será desfeita ou ressignificada. Não se trata apenas de substituir um líder, mas de enfrentar um modelo histórico de poder que vem se rearticulando há séculos. “O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, como advertiu Lord Acton, e o poder atual parece ilustrar essa máxima de forma notável.
Notas
(1) Rus de Kiev (séculos IX-XIII) foi o primeiro estado eslavo oriental, localizado na Europa Oriental, com capital em Kiev. Formada pela união de tribos eslavas e vikings (varegues) liderados por Rurik, a confederação teve seu auge com Vladimir, o Grande (cristianização) e Jaroslau, o Sábio, estendendo-se da Ucrânia à Rússia e Belarus
(2) Oprichnina - período de terror, repressão e reestruturação política, visando consolidar o poder autocrático. Consistiu na divisão do território em uma área sob controle direto do czar (a própria Opríchnina) e uma força policial brutal, os oprichniki, que confiscaram terras da nobreza (boiardos) e executaram opositores.
(3) Siloviki (Os siloviki (do russo sila, “força”) são agentes de segurança, militares e membros da inteligência russa (FSB, GRU, FSO) que ocupam altos cargos no governo) –
(4) Gulag - foi o sistema de administração dos campos de trabalho forçado na União Soviética (URSS), funcionando como principal ferramenta de repressão política e trabalho forçado, especialmente durante o stalinismo (1930-1950). Milhões de prisioneiros, incluindo opositores políticos e cidadãos comuns, sofreram com fome, frio e violência, resultando em altíssima mortalidade.
(5) Holodomor - também conhecido como a Fome-Terror e por vezes referido como a Grande Fome, foi um período de fome na Ucrânia Soviética entre 1932 e 1933 que causou a morte de milhões de ucranianos
(6) KGB (Comitê de Segurança do Estado) foi a principal agência de inteligência, polícia secreta e contrainteligência da União Soviética entre 1954 e 1991. Subordinada ao Partido Comunista, atuava internamente para suprimir dissidências e externamente em operações de espionagem durante a Guerra Fria, sendo temida pela sua repressão
(7) URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi um estado socialista federal que existiu entre 1922 e 1991, liderado pela Rússia e composto por 15 repúblicas. Criada após a Revolução Russa de 1917, tornou-se uma superpotência mundial rival dos EUA na Guerra Fria antes de se dissolver em 15 países independentes
(8) Glasnost (abertura/transparência) e Perestroika (reestruturação) foram reformas políticas e econômicas introduzidas por Mikhail Gorbachev na União Soviética (1985-1991). A Glasnost aumentou a liberdade de expressão e a transparência política, enquanto a Perestroika visou descentralizar a economia e introduzir mecanismos de mercado, visando salvar o sistema soviético em crise, mas acabando por acelerar o seu colapso
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