A estratégia de Trump
Melando o jogo
Afirma-se que Trump não tem estratégia. E parece que não tem mesmo. Mas não porque o complexo MAGA + Heritage & Bros + Palantir et caterva não seja capaz de elaborar estratégias. E sim porque uma força de desorganização do mundo, num primeiro momento, não precisa de estratégia. Depois da debacle aparecerão várias estratégias em disputa.
O que Trump faz não segue nenhuma estratégia, mas tem uma “lógica”. E a “lógica” é simples. Primeiro demolir, depois construir do nosso jeito.
Os EUA seriam o único complexo Estado-nação capaz de fazer um movimento de destruição da ordem global. Não deixa de ser um plano. Todo mundo tem um plano (pelo menos até levar um soco na boca, como disse o filósofo Mike Tyson), mas a hora agora é de destruir.
Essa é a estratégia que parece falta de estratégia. São muitos os think tanks americanos que apoiam o trumpismo (MAGA) capazes de elaborar estratégias. De um lado (MAGA puro): destacam-se, entre outros, America First Policy Institute (AFPI), Claremont Institute, Heritage Foundation, Heartland Institute, Competitive Enterprise Institute (CEI), Hudson Institute. De outro lado (MAGA Techs): Foundation for American Innovation (FAI), Palantir Foundation for Defense Policy and International Affairs etc. E há também as empresas, como a Palantir, a Anduril, a Andreessen Horowitz (a16z) etc.
Tenho dúvidas se a denominação MAGA Tech é adequada para as articulações de figuras como Peter Thiel (Palantir), Palmer Luckey (Anduril) e Elon Musk (Space X); acho que nem cabe bem aí a Andreessen Horowitz (a16z). Mas o fato é que esse pessoal está alinhado num primeiro momento ao MAGA. Taticamente, talvez. Mas a tática, nas atuais circunstâncias, é a sua estratégia.
Conclusão. Trump não tem estratégia (porque não é para ter). Mas cada um desses grupos tem sua própria estratégia política. Nenhum deles quer Rússia, China ou Irã no comando. Mas podem fazer alianças táticas com qualquer um sem a menor cerimônia. Se há tática é porque há estratégia.
E Trump nisso tudo? Ora, Trump é a bomba. Dos seus pontos de vista, seus apoiadores estratégicos estão certos. Não seria possível destruir uma ordem global edificada durante décadas jogando o mesmo jogo. Trump está violando as regras do jogo porque sabe que não pode ganhar o jogo a não ser acabando com o jogo.
Uma coisa é uma estratégia para ganhar o jogo. Outra coisa é uma estratégia para acabar com o jogo. Do ponto de vista de quem observa o jogo, essa estratégia é uma não-estratégia.
Imaginem alguém que quer acabar com um jogo (de futebol), não vencer o jogo. Uma hora ele facilita que o adversário faça um gol, cometendo uma falta besta na pequena área. Outra hora vai lá e agride o juiz. Mais adiante chuta várias bolas para fora. E o centro-avante faz um gol com a mão. No final não aceita o resultado acusando o árbitro de ladrão. Ou antes de terminar a partida pega a bola e se retira de campo. Quem procede assim não quer ganhar o jogo e sim destruir o jogo.
O eixo autocrático (Rússia, China, Coreia do Norte etc.) não age assim: não gosta do jogo, mas primeiro quer vencer o jogo para depois mudar o jogo. Trump, entretanto, está melando o jogo. E só um cara na posição (e com as condições) de Trump poderia fazer isso.
É fácil fazer uma lista das principais melações do jogo até agora intentadas por Trump (somente em política externa):
Dizer que vai transformar o Canadá em estado americano (começando por anexar Alberta)
Ameaçar tomar a Groelândia de uma democracia liberal aliada (a Dinamarca)
Ameçar sair da OTAN (ou parar de pagar à aliança)
Interromper o apoio de armas e munições para a Ucrânia (e ameaçar não compartilhar mais dados de inteligência com a Ucrânia)
Reabilitar Putin no cenário internacional (inclusive reintegrando-o no G20)
Favorecer Putin suspendendo sanções
Ameaçar invadir o México e outros países da América Latina para combater os carteis encarados como organizações terroristas
Avançar e recuar em relação ao Irã, sempre piorando a situação anterior
Tarifar o mundo inteiro sem critério, depois suspender o tarifaço, em seguida retomar seletivamente as tarifas como sanções a países por critérios políticos e geopolíticos (não-econômicos)
Estimular a perfuração de poços de petróleo nos EUA (”Drill, baby, drill”) e nos países controlados (como a Venezuela), causar escassez de petróleo no mundo e ao mesmo tempo estrangular o desenvolvimento de fontes limpas de energia
Esculhambar e sabotar a ONU, sair da OMC, da OMS e de outras organizações internacionais e romper com quase todos os acordos relevantes (como o de Paris)
Derruir a ordem liberal vigente nos últimos oitenta anos, flertar e abrir espaço para as autocracias, isolar e sufocar as democracias liberais.
Mutatis mutandis, Trump é uma espécie de Napoleão. Assim como Napoleão, disse Heinrich Mann, foi a bala de canhão disparada pela revolução francesa, Trump foi um míssil disparado por próceres da revolução americana que não estavam convertidos à democracia (aqueles que se opunham a Thomas Jefferson): errou o alvo, saiu de órbita e só está voltando agora à Terra.
Reconheço uma forçada de barra aqui para ficar engraçado, mas...



