A Geração Gama
Uma geração não é uma faixa etária e sim o que ela gera
Está em voga uma classificação das gerações pela época (os intervalos temporais, delimitados pelos anos iniciais e finais) em que nasceram seus membros. É uma classificação etarista que, sobretudo quando instrumentalizada politicamente (como agora vem sendo feito nas mídias sociais), enseja a prática (no Brasil criminosa) do... etarismo!
Aí o militante diz para o interlocutor que nasceu antes de 1964, classificado pejorativamente como um boomer: “Seu tempo já acabou vovô, vai tomar os seus remédios”. Ou, se for mais novo, diz para o que nasceu antes de 1980: “Você não está entendendo nada. Pudera! Você não passa de um X”. Um Z diria - como Ygritte em Game of Thrones - para qualquer um nascido no século 20: "Você não sabe de nada, Jon Snow".
A classificação básica que rola por aí é mais ou menos assim:
Baby Boomers (aproximadamente 1946-1964): Nascidos no pós-guerra, que supostamente valorizariam estabilidade, ambição e trabalho.
Geração X (aproximadamente 1965-1980): Viveram a transição analógica-digital; valorizariam a independência.
Geração Y ou Millennials (aproximadamente 1981-1996): Nativos digitais, que valorizam propósito e tecnologia.
Geração Z (aproximadamente 1997-2010): Nascidos na era da internet, os conectados e multitarefa, que seriam mais conscientes (?).
Geração Alfa (aproximadamente 2010-2024): Filhos dos Millennials, que cresceram totalmente imersos na IA e tecnologia.
Geração Beta (aproximadamente 2025-2039): A geração do futuro próximo.
Estou começando a escrever um artigo mais longo e aprofundado sobre isso. Aqui vai um briefing.
Minha linha geral é a seguinte: uma geração não é uma faixa etária e sim o que ela gera. Nesse sentido, há uma “Geração Gama”, na qual poderão figurar, inclusive, numerosos boomers e também, espera-se, muitos βήτα.
Mas essa palavra “Gama” não designa a letra grega que vem depois da letra “Beta”. A referência aqui é aos buracos brancos (o reverso dos buracos negros) que são abertos quando há certas explosões de raios gama (semelhantes ao Big Bang, mas como small bangs), em que uma grande quantidade de massa e energia é ejetada, antes do buraco branco decair (virando então um buraco negro). É a interessante hipótese de Alon Retter e Shlomo Heller (2011): The Revival of White Holes as Small Bangs. A despeito da ideia ser instigante (ensejando a visão de que o universo não foi criado em um único momento, mas continuaria sendo criado, intermitentemente), o que nos interessa aqui é a metáfora. O velho pode ser novo e o novo pode ser velho. O tempo que conta, em termos de criação, não é Krónos (Κρόνος), o tempo cronológico e sim Kairós (Kαιρός), aquela janela pela qual as coisas que não existem passam à existência.
Leonardo da Vinci (1452-1519), por exemplo, foi sem dúvida dessa “Geração Gama”. Ele continuou sua intensa atividade científica, anatômica e de engenharia após os 60 anos (a partir de 1512), período em que viveu em Roma (1513-1516) e na França (a partir de 1516).
Hoje ele seria depreciado como boomer, alguém que deveria estar na praça num torneio de bocha ou numa casa de retiro assistindo “Vale a Pena Ver de Novo” na TV Globo, ou jogando dama com seus colegas da terceira idade. Mas…
Foi depois de fazer 60 anos que Leonardo refinou seus estudos sobre o sistema vascular, os músculos do ombro e a anatomia do coração, conseguindo entender, pelo menos em parte, o funcionamento das válvulas cardíacas.
Foi depois dos 60 anos que Leonardo avançou nas suas pesquisas hidrodinâmicas aplicando suas descobertas em projetos de engenharia, como a canalização de rios (como o Loire na França) e a criação de sistemas de irrigação.
Foi depois dos 60 anos que Leonardo projetou seu famoso “Leão Mecânico” (para o rei Francisco I). Esse robô podia andar por meio de mecanismos de cordas e engrenagens.
Foi depois dos 60 anos (por volta de 1513) que Leonardo registrou observações sobre a luz da Lua, sugerindo corretamente que o “brilho da terra” na lua era causado pela reflexão da luz solar nos oceanos da Terra.
Uma explosão gama introduz coisas novas (matéria-energia, clara-escura, espaço-tempo) no universo. Um exemplar da Geração Gama, não importa qual sua idade cronológica - se é Boomer, X, Y, Z, Alfa ou será Beta -, introduz inovações na sociedade. Não somente, nem principalmente, novas ideias que dão origem a inovações tecnológicas, mas inovações sociais capazes de ensejar o surgimento de (novos) comportamentos que mudam (antigos) comportamentos.
Sim, ideias não mudam comportamentos, só comportamentos mudam comportamentos. Mas novos comportamentos se fazem acompanhar da geração de novas ideias. O velho McLuhan (1967, 1974) - que, se vivo hoje, seria um Gama tido por pré-Boomer nos seus 115 anos - tinha razão (embora a frase não seja textualmente dele): “É o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia”. Porém, “Toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humano totalmente novo; os ambientes não são envolvidos passivos, mas processos ativos” (e essa frase, sim, é textualmente dele: em 1964, no “Understanding Media: The Extension of Man”).
Outro Gama foi Humberto Maturana que, aos 65 anos (em 1993), estava no auge da sua capacidade criativa, quando escreveu “Amor e Jogo”. Ele faleceu em 2021. Mas durante seus últimos 30 anos mostrava-se, em alguns aspectos, mais “jovem”, na sua capacidade de fazer o pensamento social rejuvenescer, do que grande parte dos pioneiros da internet e do que muitos dos atuais founders das Big Techs e dos sistemas de IA Generativa. “Amor e Jogo” é, até agora, um inigualável programa de Detox da Matrix realmente existente. Escrito por um velho cronológico.
A questão que devemos nos colocar é por que mais pessoas de todas as gerações não geram coisas novas. O que as está impedindo de fazer isso (e ser da Geração Gama)? Elas parecem intoxicadas de céu velho. Mas o que as intoxicou?
Aposta-se que, desintoxicadas, aparecerão, kairologicamente, as Pré-Boomer-Gama, as Boomer-Gama, as X-Gama, as Y-Gama, as Z-Gama, as Alfa-Gama e, tomara, as Beta-Gama - se é que o leitor me entende.



