A guerra do Irã continua
Trump recuou. Não deveria ter recuado porque não deveria ter avançado em uma guerra que não poderia vencer. Fez tanta besteira que obteve o resultado contrário do que pretendia. Ou não pretendia, vai saber…
Trump não é caso de impeachment. É caso de interdição. Sua atuação irresponsável e delinquente prejudicou os Estados Unidos, prejudicou Israel e prejudicou todo o mundo democrático.
Tirou credibilidade dos países democráticos como fiadores e mantenedores de uma ordem mundial pacífica e promoveu autocracias (como Paquistão e China) à condição de negociadores de última instância, quer dizer, de (quase únicos) agentes capazes de regular conflitos internacionais.
Além disso, alçou a pavorosa teocracia iraniana à condição de potência soberana, dominante e praticamente inatacável, no Oriente Médio.
Pior, a derrota de Trump para o Irã não parou a guerra do Irã contra Israel, contra os EUA, contra as democracias liberais e, no limite, contra todos os infiéis, guerra que vai continuar enquanto permanecer o regime instalado e comandado pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica. E esse regime do IRGC, agora empoderado pelos desatinos de Trump, embora rejeitado pela ampla maioria da sociedade iraniana, vai continuar massacrando seus dissidentes, reprimindo as mulheres e as minorias e se eternizando no poder. É o horror.
Até agora não há negociações de paz. Não há armistício. Não há nem um cessar-fogo respeitável. Enquanto o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica não for dissolvido teremos guerra permanente promovida pelo Irã. Não importa o que disserem Trump, Bibi, o Aiatolá, o Paquistão, a China, a ONU ou o Supremo Conselho dos Deuses Astronautas. O Irã pode até parar, temporariamente, de enviar mísseis e drones a Israel e países do golfo aliados americanos, mas seus braços terroristas continuarão atuando como se fossem forças autônomas. Além disso, o Irã continuará a sua guerra fria, em formato de netwar, que não é no Oriente Médio e sim no mundo todo.
Como escreveu ontem o analista Yaroslav Trofimov, no The Wall Street Journal, “o plano de 10 pontos do Irã exige o controle permanente iraniano sobre o Ormuz, a aceitação do enriquecimento de urânio pelo Irã, a retirada das forças de combate americanas do Oriente Médio, o levantamento das sanções e o pagamento de indenizações ao Irã. Não menciona, porém, quaisquer limitações ao arsenal de mísseis e drones iranianos, nem restrições à sua cooperação com grupos militantes como o Hezbollah ou os Houthis do Iêmen”. Ora, quem nas circunstâncias atuais faz tais exigências, pode querer tudo, menos paz.
Resumindo. Não há como destruir os braços terroristas do Irã - o Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e alhures - por meios exclusivamente militares. Não adianta demolir todos os prédios, como Israel está fazendo em Gaza e no Líbano, que isso não extinguirá essas organizações. A solução é política, mas exigiria uma ampla coalizão internacional de forças que impusesse ao Irã medidas duras de contenção e neutralização, o que não vai acontecer porque o eixo autocrático (Rússia, China, Coreia do Norte etc.) vai sabotar qualquer iniciativa nesse sentido e os países democráticos não vão querer se meter na confusão com medo de retaliações em seus próprios territórios.
Isso significa que a guerra do Irã - que, repita-se, não é no Oriente Médio, mas no mundo - não vai acabar com acordos temporários de cessar-fogo e que não haverá armistício real, muito menos celebração da paz. A netwar, a nova forma de guerra da atualidade (uma guerra que pervade fronteiras e se instala nas sociedades de todos os países), veio para ficar. É o novo estado do mundo nesta tenebrosa terceira década do século 21.



