A guerra é um crime de guerra
Uma análise do ponto de vista da democracia
Os populistas-autoritários Netanyahu e Trump estão errados. Democracias não fazem guerra. Democracias jamais guerreiam entre si. E democracias, a não ser quando são invadidas por uma força beligerante estrangeira, não tomam a iniciativa de fazer guerra, nem mesmo contra autocracias. Para os democratas, a guerra é a falência da política. A política democrática não é a guerra e sim evitar a guerra.
Os governos Netanyahu e Trump não são democráticos, mas os regimes políticos de Israel e dos EUA (ainda) são democracias. Por isso Bibi e Trump têm que ser removidos do poder pelas sociedades democráticas de seus países. E julgados e punidos por seus crimes. Se isso não acontecer, muito provavelmente Israel e Estados Unidos deixarão de ser democracias.
O Irã, não. Tanto seu governo quanto seu regime são autocráticos. O governo e o regime dos aiatolás e do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica não podem ser removidos pela sociedade iraniana. Porque não há mecanismos democráticos de troca de governo no Irã. E quando os iranianos tentam protestar nas ruas são metralhados aos milhares (dezenas de milhares, como ocorreu em janeiro de 2026). E isso foi assim em toda sua longa história (a história de que o Irã foi democrático nos poucos meses do governo estatista e dito socialista de Mossadegh é mais uma mentira sórdida).
Agora há uma guerra? Antes já havia uma guerra. Desde a revolução islâmica há uma guerra promovida pelo Irã. Uma guerra que já dura quase meio século.
O plano do Irã teocrático sempre foi esse. Instalar um estado de guerra permanente no Oriente Médio, como espoleta para instalá-lo no mundo.
O Irã vem se preparando ao longo do tempo para esse novo tipo de guerra (a netwar, uma guerra que pervade todas as sociedades com o objetivo de enfraquecer, para depois exterminar, as democracias liberais). Basta ver o que o Irã fez:
Estruturou uma força policial-militar maligna - o Pásdárán (IRGC) - em tudo semelhante a uma SS (Schutzstaffel).
Escondeu seus mísseis, suas fábricas de drones, seus centros de pesquisa e sua indústria nuclear em dezenas de cidades subterrâneas.
Descentralizou o comando militar de pronta-resposta em uma multiplicidade de centros autônomos para sobreviver a qualquer decapitação dos seus dirigentes.
Fustigou seus inimigos (Israel, a “entidade sionista” e EUA, o “grande satã” e seus aliados) por meio de uma dezena de grupos terroristas (Hezbollah, milícias xiitas no Iraque, na Síria e em quase todos os países da região, Hamas, Jihad Islâmica, Houthis etc. - todos coordenados pelo IRGC).
Por que os analistas internacionais não lembram dessas coisas? Porque, em sua maioria, não tomam como critério a democracia. Preferem ficar falando dos crimes de guerra de Israel e dos EUA.
Ora... qual é a guerra em que não se praticam crimes de guerra? O pogrom de 7 de outubro de 2023, praticado pelo Hamas contra Israel, com o apoio, o financiamento e a coordenação do Irã, não foi um crime de guerra? Os foguetes disparados pelo Hezbollah contra áreas civis do norte de Israel não são crimes de guerra? Os mísseis disparados pelo Irã contra cidades israelenses não são crimes de guerra? Os bombardeios de Putin às áreas residenciais e à infraestrutura da Ucrânia não são crimes de guerra?
É crime de guerra atacar a infraestrutura de energia do inimigo? A rigor, sim. Mas a Rússia destrói estações de energia da Ucrânia e a Ucrânia responde na mesma moeda. Israel ataca estações de energia do Irã e o Irã tenta destruir estações de energia de Israel e dos países do Golfo aliados dos EUA. Não há guerra sem crimes de guerra. Porque a guerra, do ponto de vista da democracia, já é um crime de guerra.
Trump e Bibi
Trump disse que o Irã era um perigo para os Estados Unidos. Estava errado. O Irã é um perigo para o mundo, não apenas para os EUA. Não era um perigo iminente para os EUA naquele momento do primeiro ataque da atual campanha americano-israelense (28/02/2026), mas é um perigo permanente (a rigor, desde 11/02/1979). Um Estado dirigido por uma força maligna, a IRGC (em tudo semelhante à SS), organizado precipuamente para a guerra de exterminação de Israel, das democracias e, no limite, de todos os infiéis que não se subordinarem à teocracia xiita, que financia e coordena uma dezena de braços terroristas, almejando se tornar uma potência nuclear, com capacidade ofensiva de mísseis que poderiam (e poderão, se nada for feito) alcançar qualquer lugar do planeta, é realmente uma ameaça para a humanidade. Sim, o Irã teocrático (dos aiatolás, da Guarda Revolucionária e do Basij (1) – que massacram seu próprio povo) é uma ameaça à humanidade. Apesar dos desatinos antidemocráticos de Trump e Bibi, mais cedo ou mais tarde as nações democráticas do mundo deverão tomar providências para evitar um perigo que pode ser muito maior do que esses dois populistas irresponsáveis imaginaram.
Nota
(1) O Basij (ou Basij-e Mostaz'afin, que significa "Mobilização dos Oprimidos") é uma milícia paramilitar iraniana, composta por pessoas mais pobres recrutadas pelo regime no interior do Irã, subordinada ao Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC, ou Pásdárán) que atua como polícia política e de costumes na repressão e intimidação da população. Neste exato momento o Basij está recrutando crianças (de 12 anos ou menos) para morrer nos bombardeios como escudos humanos.



