A infantilização do pensamento e a traição do real
Há algo que começa a se revelar de maneira mais nítida quando a gente passa algum tempo convivendo com o pensamento de Albert Camus — sobretudo quando essa convivência não se dá apenas por meio de suas obras, mas também pelo olhar biográfico mais próximo, como o de Oliver Todd — que é uma espécie de deslocamento silencioso, mas profundo, da forma como nos relacionamos com o mundo, com a política e, talvez de maneira ainda mais sensível, com a própria ideia de verdade e de responsabilidade intelectual.
O que emerge desse contato não é uma resposta confortável, nem um sistema fechado de explicação do mundo, mas quase o oposto disso: uma espécie de maturidade dura, uma recusa em aceitar que a realidade vá se organizar de acordo com as nossas expectativas, desejos ou construções ideológicas, o que, em alguma medida, nos obriga a abandonar uma postura que, olhando retrospectivamente, parece menos sofisticada do que gostaríamos de admitir, porque o que Camus nos apresenta, ao tratar do absurdo, não é apenas a ideia de que a vida carece de um sentido último — no sentido clássico e metafísico — mas, sobretudo, a tensão permanente entre a nossa necessidade de sentido e a indiferença do mundo em fornecê-lo.
E talvez seja justamente aí que começa a fratura mais interessante para pensar o momento atual, porque essa recusa do mundo em responder às nossas expectativas entra em choque direto com uma tendência muito presente no campo contemporâneo, que é a tentativa de organizar a realidade a partir de sistemas ideológicos que prometem exatamente o contrário: uma leitura totalizante, explicativa e, sobretudo, tranquilizadora da experiência humana, como se fosse possível alinhar o mundo a partir de uma narrativa coerente, moralmente estruturada e politicamente orientada.
Essa tensão, que em Camus aparece como um convite à lucidez — e não à resignação —, no nosso tempo parece ter sido resolvida de outra forma: não pela aceitação do absurdo, mas pela fuga dele, e essa fuga assume a forma de uma adesão quase compulsória a sistemas ideológicos que, mais do que interpretar o mundo, passam a funcionar como dispositivos de proteção psíquica, como uma espécie de blindagem contra a complexidade, a ambiguidade e a incerteza.
E é nesse ponto que a reflexão recente, provocada inclusive por conversas como as do programa Linhas Cruzadas [1], especialmente quando se aborda a chamada “traição dos intelectuais” [2], começa a ganhar um contorno mais inquietante, porque o que se observa não é apenas a existência de ideologias — o que sempre fez parte da vida política —, mas a naturalização de uma ideia que, talvez, seja ainda mais problemática: a de que é impossível não ter uma ideologia, como se toda forma de pensamento estivesse necessariamente aprisionada dentro de um sistema fechado de interpretação.
Quando essa ideia se transforma em senso comum, algo se perde.
Perde-se, sobretudo, a possibilidade de uma relação mais direta, mais honesta e, paradoxalmente, mais exigente com o real, porque se tudo precisa ser filtrado por uma ideologia, então o mundo deixa de ser algo a ser compreendido em sua complexidade e passa a ser algo a ser ajustado, reinterpretado ou até mesmo distorcido para caber dentro de uma narrativa previamente estabelecida.
E aqui talvez caiba uma provocação mais incômoda: esse comportamento, embora muitas vezes apresentado como sofisticado, crítico ou engajado, tem algo de profundamente infantil, no sentido de que se recusa a lidar com a frustração fundamental de que o mundo não responde às nossas expectativas, preferindo, em vez disso, insistir na tentativa de fazê-lo caber em uma estrutura que nos conforta, mesmo que ao custo de empobrecimento da experiência, da linguagem e da própria capacidade de pensar.
Essa infantilização do pensamento não se manifesta apenas no plano individual, mas se torna particularmente visível quando observamos o papel dos intelectuais no debate público contemporâneo, porque aquilo que historicamente se esperava de um intelectual — a capacidade de tensionar, de complexificar, de introduzir nuances, de resistir às simplificações — parece, em muitos casos, ter sido substituído por uma atuação que se aproxima mais de uma militância discursiva, na qual o compromisso não é mais com a verdade ou com a complexidade do real, mas com a defesa de um determinado campo.
E quando isso acontece, a traição não é apenas de um ideal abstrato de intelectualidade, mas de algo mais concreto: a própria possibilidade de um espaço público minimamente compartilhado, no qual diferentes interpretações possam coexistir sem que precisem ser imediatamente enquadradas como certas ou erradas dentro de uma lógica binária e moralizada.
O resultado disso começa a aparecer de forma cada vez mais evidente: um mundo que se organiza em torno de narrativas concorrentes, cada uma delas sustentada por uma lógica interna que justifica seus próprios excessos, suas próprias distorções e, em muitos casos, suas próprias mentiras, sempre em nome de um bem maior que, curiosamente, nunca precisa ser colocado à prova fora do próprio sistema que o sustenta.
E é nesse ambiente que a política se transforma em guerra, não no sentido clássico de conflito entre interesses ou projetos, mas como uma guerra moral, na qual o outro deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser alguém que precisa ser corrigido, neutralizado ou eliminado do campo do legítimo, o que, por sua vez, alimenta um ciclo de radicalização no qual cada lado passa a justificar seus próprios excessos a partir dos excessos do outro.
O mais perigoso dessa dinâmica talvez não seja nem a existência desses extremos, mas o fato de que eles passam a capturar progressivamente o campo, atraindo inclusive aqueles que, em outras circunstâncias, tenderiam a posições mais moderadas, criando um ambiente em que se posicionar fora dessa lógica implica, quase inevitavelmente, isolamento, marginalização ou a condição de minoria permanente.
E aqui surge uma espécie de dilema silencioso, mas profundamente estruturante do nosso tempo: ao recusar essa lógica, você se afasta dos polos e perde potência política imediata; ao aderir a ela, mesmo que parcialmente, você passa a contribuir para a sua reprodução, reforçando exatamente o processo que, no limite, leva à deterioração das relações, à escalada do conflito e à normalização de práticas que, até pouco tempo atrás, seriam consideradas inaceitáveis.
Talvez seja por isso que a sensação predominante seja a de um mundo em colapso relacional, um mundo que não apenas vive em conflito, mas que parece incapaz de sair dele, porque os próprios mecanismos que poderiam interromper essa dinâmica — o diálogo, a escuta, a mediação — passam a ser vistos como fraqueza, ingenuidade ou até cumplicidade.
E, nesse ponto, a leitura de Camus volta a se tornar relevante, não como uma solução, mas como uma espécie de reposicionamento existencial, porque ao recusar tanto a ilusão de um sentido pré-dado quanto a fuga para sistemas totalizantes, ele nos coloca diante de uma responsabilidade mais exigente: a de sustentar uma relação com o mundo que não se apoia em garantias, que não se protege em narrativas fechadas e que não se organiza a partir da necessidade de vencer o outro, mas da capacidade de continuar habitando a tensão.
Isso, evidentemente, não resolve o problema político.
Mas talvez seja uma condição para não agravá-lo.
Porque, no limite, o que parece estar em jogo não é apenas a disputa entre diferentes projetos de sociedade, mas a própria possibilidade de sustentar um modo de vida que não esteja permanentemente orientado pela lógica da guerra, da simplificação e da mentira legitimada.
E talvez o mais difícil de aceitar seja justamente isso: que ao tentar organizar o mundo de forma excessivamente coerente, moralmente alinhada e ideologicamente protegida, acabamos contribuindo para torná-lo mais caótico, mais violento e, paradoxalmente, mais incompreensível.
E que, ao fazer isso, não estamos apenas errando na análise.
Estamos, de alguma forma, participando daquilo que dizemos combater.
Notas
[1] Linhas Cruzadas é um programa da TV Cultura apresentado por Thaís Oyama e Luiz Felipe Pondé, dedicado a debates sobre temas contemporâneos — políticos, filosóficos e culturais — a partir de perspectivas distintas, buscando explorar tensões e contradições do pensamento público atual.
[2] Link para o programa:




