A inteligência que só existe entre pessoas
Inteligência artificial, mundos sociais e a singularidade humana que nasce no entre
Marcelo Maceo, Inteligência Democrática (01/07/2026)
Este artigo nasceu de um comentário que escrevi em resposta a Quem responde pelo mundo?, de Diogo Dutra, publicado na Revista Inteligência Democrática. Ao aproximar meu trabalho de autores como N. Katherine Hayles, Humberto Maturana, Douglas Hofstadter e Hannah Arendt, Diogo abriu um campo de investigação que, sinceramente, considero necessário neste momento. Seu artigo não usa a inteligência artificial apenas para perguntar o que as máquinas serão capazes de fazer. Ele aproveita o deslocamento produzido por elas para perguntar, novamente e de maneira mais exigente, o que significa ser humano.
E há uma virada no seu argumento que considero especialmente potente: talvez estejamos procurando a singularidade humana no lugar errado. Durante muito tempo a colocamos na razão, depois na consciência, na inteligência, na linguagem, na criatividade, sempre como alguma propriedade localizada dentro do indivíduo, quase como se houvesse uma joia escondida dentro da cabeça humana que precisássemos proteger da máquina. A inteligência artificial começa a desmontar várias dessas certezas, e você faz algo muito interessante ao deslocar a questão para os mundos que produzimos, habitamos e pelos quais respondemos.
É justamente a partir da força desse deslocamento que eu gostaria de contribuir com uma demarcação talvez mais radical.
Uma inteligência artificial pode operar dentro de uma democracia, de uma universidade, de uma empresa, de um sistema jurídico, de uma comunidade científica ou de uma família. Pode reorganizar informações, interferir em decisões, modificar percepções, selecionar o que se torna visível, influenciar reputações e alterar profundamente as condições em que as relações humanas acontecem. Isso já é imenso e talvez ainda estejamos subestimando suas consequências.
Mas operar dentro de um mundo não significa participar ontologicamente dele.
Participar de um mundo social não é apenas produzir efeitos dentro dele. É pertencer. É ser atravessado por aquilo que acontece. É assumir compromissos, carregar uma história, sofrer as consequências de uma promessa rompida, ter algo a perder, responder pelo outro, ser reconhecido ou expulso, permanecer por lealdade ou partir pagando o custo real daquela saída. É, sobretudo, mudar com o outro na relação.
É aqui que entra uma distinção importante para mim. Alterpoiese não é qualquer interação que produz transformação. Também não é troca de informação, adaptação ou influência mútua em sentido genérico. É o processo pelo qual pessoas, na recorrência viva de suas relações, transformam-se umas com as outras e fazem nascer um real que não existia antes daquele encontro.
Não apenas uma resposta nova.
Não apenas uma combinação improvável.
Um mundo.
Essa investigação sobre alterpoiese, cosmos social e o real que nasce entre pessoas é desenvolvida em meu livro Ontogênese: Como o real nasce entre pessoas (disponível no link da Amazon).
Por isso eu teria dificuldade em dizer que a inteligência artificial participa da alterpoiese. Ela pode influenciar uma relação alterpoiética, pode interferir nela, ampliar algumas condições, destruir outras, acelerar encontros, endurecer padrões, organizar memórias e até oferecer elementos que humanos usarão para criar algo novo. Mas ela não está no entre da mesma maneira que as pessoas estão.
E não porque uma máquina seja incapaz de mudar tecnicamente. Ela pode adaptar respostas, acumular memória, receber correções e ter seus parâmetros modificados. O problema é outro. Modificação funcional não é transformação ontológica.
A máquina não passa a pertencer ao mundo que ajudou a influenciar. Não sente vergonha. Não herda uma dívida. Não sofre a perda de um vínculo. Não se torna responsável por uma promessa porque sua existência depende dela. Não é humanizada pelo encontro.
Talvez tenhamos, no máximo, uma espécie de adaptação artificial produzida por interação. Mas chamar isso de alterpoiese retiraria justamente da alterpoiese aquilo que a define: a transformação recíproca de pessoas que passam a habitar e sustentar juntas uma realidade comum.
Há algo semelhante na discussão sobre criatividade. Eu teria cuidado ao reduzir a diferença à ideia de que uma máquina somente copia, porque alguém dirá, com alguma razão, que os seres humanos também criam a partir de memórias, referências, linguagens e formas anteriores. Mas há uma diferença que me parece mais profunda do que simplesmente recombinar ou não recombinar conteúdos.
Uma inteligência artificial pode produzir algo inédito.
Mas novidade não é necessariamente criação.
Criar, no sentido humano, não é apenas fazer aparecer uma forma que ainda não existia. É inaugurar sentido, colocar algo em risco, comprometer-se com aquilo, responder por suas consequências e permitir que a própria criação transforme quem criou e aqueles que passam a encontrá-la. A criatividade humana não está apenas no resultado. Está no nascimento de um mundo e na responsabilidade de sustentá-lo.
Uma máquina talvez produza o inesperado.
O humano pode transformar o inesperado em mundo.
E aqui seu artigo toca, para mim, num ponto ainda mais importante do que a comparação entre inteligências humanas e artificiais: o humano não nasce pronto e depois começa a participar da sociedade. Ele se torna humano dentro dos mundos sociais que o antecedem.
Nós aprendemos entre pessoas a confiar, desconfiar, prometer, pertencer, reconhecer autoridade, sentir vergonha, assumir uma dívida, amar uma obra, defender uma instituição, criar reputação, obedecer a um símbolo ou romper com tudo isso. Não carregamos essas realidades prontas dentro da biologia. Elas aparecem porque nascemos em mundos que já estavam em andamento e somos lentamente produzidos por eles.
Nós criamos mundos, mas os mundos também nos criam.
Isso significa que o humano não é apenas o autor soberano da realidade social. Ele é também matéria viva de mundos iniciados por outros. É produto, participante, sustentador e possibilidade de transformação daquilo que o atravessa.
E é exatamente por isso que eu preservaria uma fronteira entre pessoas e máquinas no cosmos social. A máquina pode operar dentro dele, influenciá-lo, registrar seus rastros e modificar as condições em que ele se organiza. Mas ela não é produzida como pessoa por esse mundo. Não emerge dele como alguém capaz de pertencimento, autoria e responsabilidade.
Talvez exista ainda uma camada mais rara, e esta me parece uma das fronteiras mais interessantes abertas pelo seu artigo.
Quando pessoas e mundos sociais entram em interação de maneira aberta, distribuída, plural e sem um centro capaz de controlar o processo, pode emergir algo como uma inteligência genuinamente humana compartilhada. Não uma consciência coletiva permanente. Não uma grande mente pairando acima das pessoas. Não um superorganismo que elimina diferenças. E também não uma inteligência híbrida composta por humanos e máquinas.
Estou falando de um acontecimento fugaz do entre.
Um momento em que um conjunto de pessoas percebe, cria, responde ou encontra uma saída que não estava disponível para nenhuma delas isoladamente e que também não pode ser explicada pela simples soma de suas capacidades individuais.
Essa inteligência não pertence a ninguém.
Não pode ser convocada por decreto.
Não aparece porque alguém deu um comando correto, nem porque somamos vontades individuais, nem porque reunimos dados suficientes numa plataforma. Ela emerge de um determinado padrão de interação e desaparece quando esse padrão se desfaz.
É quase impossível fabricá-la, porque sistemas complexos não obedecem à vontade central de alguém. Podemos talvez cuidar de certas condições, preservar a pluralidade, ampliar conexões, diminuir hierarquias, sustentar confiança e impedir que um centro capture tudo. Mas não podemos ordenar que uma inteligência compartilhada apareça.
Quando ela aparece, aparece como acontecimento.
E desaparece como acontecimento também.
Pode deixar uma obra, uma decisão, uma invenção, uma nova linguagem ou uma transformação irreversível nas pessoas que participaram. Mas aquilo que aconteceu entre elas não pode ser armazenado integralmente como informação. A máquina pode registrar os rastros, processar os resultados, encontrar padrões depois do acontecimento e talvez até ajudar a preparar algumas de suas condições. Mas não faz parte da inteligência que emergiu ali.
Porque aquela inteligência não estava nos dados.
Estava no padrão vivo de interação entre pessoas.
Talvez este seja um dos territórios mais importantes que a ascensão da inteligência artificial nos obrigará a investigar. Não apenas aquilo que as máquinas conseguem reproduzir em nós, mas aquilo que só pode nascer quando seres humanos mudam uns com os outros, criam mundos e, durante alguns instantes, tornam-se coletivamente capazes de algo que nenhum deles poderia produzir sozinho.
Seu artigo abre essa investigação de uma forma muito potente. E talvez a pergunta “quem responde pelo mundo?” possa ganhar uma camada anterior e ainda mais incômoda:
Quem realmente participa do mundo?
Quem apenas opera dentro dele?
E que formas de inteligência somente podem existir porque, antes de sermos indivíduos inteligentes, somos humanos produzidos no encontro com outros humanos?






Bem vindo meu caro!