A liberdade em um mundo de mundos
Durante muito tempo nos acostumamos a pensar a liberdade como um problema de fronteiras. A discussão aparecia quase sempre organizada em torno de perguntas semelhantes: até onde vai a liberdade do indivíduo, onde começa a liberdade do outro, qual deve ser o tamanho do Estado, quais direitos precisam ser protegidos, quais limites precisam ser impostos para que a convivência permaneça possível. Essas questões continuam importantes e dificilmente deixarão de fazer parte da reflexão política contemporânea. Ainda assim, depois de mergulhar mais profundamente na ideia de mundos sociais, comecei a desconfiar que elas respondem apenas uma parte do problema e que talvez estejam apoiadas numa imagem do ser humano que já não explica suficientemente a complexidade do nosso tempo.
Essa mudança de perspectiva começou a tomar forma quando encontrei a formulação proposta por Marcelo Maceo sobre ontogênese e mundos sociais. Em um artigo anterior procurei apresentar os principais elementos dessa construção e discutir suas aproximações com a democracia. O aspecto que permaneceu ressoando desde então, entretanto, não foi propriamente a definição de mundo social, mas a consequência silenciosa que ela produz sobre um conceito que normalmente tratamos como evidente: a liberdade.
Se aceitamos que pessoas não simplesmente ocupam um mundo já dado, mas se constituem dentro de mundos produzidos por relações recorrentes, linguagens compartilhadas, vínculos de confiança, formas de autoridade, práticas cotidianas e critérios comuns de interpretação da realidade, então a liberdade deixa de ser apenas um atributo individual. Antes mesmo de perguntarmos se alguém é livre, torna-se necessário perguntar em que tipo de mundo essa pessoa vive e, principalmente, que tipo de mundo aquele conjunto de relações é capaz de produzir.
Essa mudança parece pequena, mas desloca completamente a questão.
I. Mundos que se fecham e mundos que permanecem abertos
Uma das contribuições mais interessantes da ideia de mundos sociais está em mostrar que eles não são metáforas para descrever culturas ou grupos humanos. São formas concretas de organizar a experiência. Um mundo social estabelece aquilo que parece possível ou impossível, aquilo que merece confiança, aquilo que ganha reconhecimento, aquilo que sequer chega a ser imaginado. É nesse sentido que ele produz realidade.
Todos nós habitamos muitos mundos simultaneamente. A família constitui um deles. A profissão constitui outro. Organizações, comunidades científicas, tradições religiosas, movimentos políticos, grupos de amizade, cidades e países também organizam mundos próprios. Eles possuem linguagens particulares, formas distintas de resolver conflitos, maneiras específicas de distribuir reconhecimento e expectativas diferentes sobre aquilo que significa viver bem.
O fato de existirem múltiplos mundos não representa, por si só, um problema. Pelo contrário. A própria riqueza das sociedades humanas nasce dessa extraordinária diversidade de formas de convivência. A dificuldade aparece quando determinados mundos deixam de compreender a si mesmos como uma forma possível de organizar a vida coletiva e passam a imaginar que representam a única forma legítima de existência. Nesse momento, a pluralidade deixa de ser percebida como fonte de aprendizagem e passa a ser tratada como ameaça.
Existe, então, uma diferença importante entre mundos que permanecem abertos e mundos que progressivamente se fecham sobre si mesmos.
Mundos fechados tendem a transformar suas próprias histórias em destino. A tradição deixa de ser uma fonte de aprendizagem para tornar-se um roteiro obrigatório. O passado deixa de oferecer referências e passa a fornecer respostas definitivas. Tudo aquilo que escapa à sua gramática passa a ser percebido como erro, decadência ou ameaça.
Outros mundos realizam um movimento diferente. Conservam memória, preservam vínculos, sustentam identidades e, ao mesmo tempo, permanecem capazes de aprender. Não abandonam aquilo que os constituiu, mas tampouco permitem que sua própria história esgote o horizonte das possibilidades futuras. Continuam suficientemente porosos para incorporar experiências novas sem perder completamente sua identidade.
Essa diferença me parece muito mais importante do que normalmente imaginamos.
Porque ela desloca a pergunta sobre liberdade do indivíduo para a qualidade do próprio mundo social.
Talvez um mundo seja tanto mais livre quanto maior for sua capacidade de continuar aprendendo.
II. A liberdade como abertura do possível
A tradição política moderna frequentemente descreveu a liberdade como autonomia. Em outros momentos ela apareceu como ausência de coerção, como direito de escolha ou como capacidade de autodeterminação. Todas essas definições iluminam aspectos importantes da experiência humana, mas continuam imaginando um sujeito relativamente pronto que depois passa a exercer sua liberdade diante das circunstâncias.
A ideia de mundos sociais sugere outra direção.
Nenhuma pessoa existe antes das relações que a constituíram. Nossa linguagem, nossa percepção, nossos valores, nossas formas de imaginar o futuro e até mesmo aquilo que consideramos evidente foram produzidos em algum lugar. Cada um de nós carrega consigo histórias, vínculos e mundos que nos tornaram possíveis.
Isso significa que liberdade dificilmente pode ser entendida como ausência de condicionamentos. Eles fazem parte da própria condição humana.
A questão relevante parece ser outra.
Até que ponto esses mundos continuam permitindo transformação?
Uma história que determina completamente o futuro deixa de ser memória e passa a funcionar como destino. Um futuro que determina completamente o presente também produz aprisionamento, porque deixa de ser horizonte e transforma-se em roteiro. Em ambos os casos desaparece justamente aquilo que torna a experiência humana criativa: a possibilidade de reorganizar continuamente a própria relação com o mundo.
Essa talvez seja uma forma interessante de compreender a liberdade.
Ela não consiste em apagar a história nem em escapar dela. Também não consiste em projetar uma imagem ideal do futuro e tentar encaixar a vida dentro desse desenho. Liberdade parece estar muito mais próxima da preservação de um espaço aberto entre essas duas forças, um espaço onde novas experiências possam surgir, onde novos vínculos possam reorganizar a maneira como habitamos o mundo e onde a realidade permaneça maior do que qualquer narrativa definitiva sobre ela.
Curiosamente, essa definição aproxima liberdade e aprendizagem.
Mundos que aprendem permanecem livres porque continuam capazes de produzir possibilidades que antes não existiam.
Mundos que deixam de aprender começam lentamente a transformar toda novidade em ameaça.
III. Democracia como ecologia da abertura
É justamente nesse ponto que a democracia adquire um significado diferente daquele que normalmente lhe atribuímos.
Costumamos defini-la como um regime político, um conjunto de instituições ou um procedimento para distribuição legítima do poder. Todas essas definições permanecem corretas, mas parecem insuficientes diante da ecologia de mundos que caracteriza as sociedades contemporâneas.
John Rawls talvez tenha sido um dos autores que melhor percebeu essa mudança ao reconhecer que sociedades livres inevitavelmente produzem pluralismo. Pessoas diferentes chegam honestamente a concepções diferentes sobre aquilo que consideram verdadeiro, justo ou desejável. O objetivo da política deixa então de ser produzir unanimidade e passa a ser construir instituições capazes de sustentar essa pluralidade sem destruir a convivência.
Vista por essa perspectiva, a democracia deixa de ser apenas um método de decisão coletiva. Ela passa a funcionar como uma tecnologia social voltada para preservar a abertura dos mundos.
Sua tarefa não consiste em eliminar diferenças, mas em impedir que qualquer uma delas reivindique para si o direito de encerrar definitivamente o campo das possibilidades.
Essa talvez seja uma maneira diferente de compreender uma ideia recorrente de Augusto de Franco quando fala da liberdade de estar junto. A expressão costuma ser interpretada como uma crítica ao individualismo, mas ela parece apontar para algo mais profundo. Estar junto não significa apenas compartilhar espaços; significa habitar relações capazes de continuar produzindo novidade, aprendizagem e transformação. A liberdade deixa então de ser medida apenas pela autonomia individual e passa a ser percebida também pela qualidade das relações que sustentam determinado mundo.
Sociedades democráticas continuam convivendo com conflitos, desacordos e tensões. Seria ingênuo imaginar o contrário. O que as diferencia é outra característica: elas preservam condições para que esses conflitos não encerrem prematuramente o futuro.
IV. O futuro permanece aberto
Vivemos um período marcado por enormes tentações de fechamento. Em diferentes partes do mundo reaparecem projetos que prometem restaurar identidades perdidas, recuperar ordens supostamente estáveis ou oferecer explicações totais para uma realidade cada vez mais complexa. Todos eles compartilham uma característica comum: procuram reduzir a abertura do mundo em troca de uma sensação maior de segurança.
A história mostra que esse caminho costuma produzir estabilidade por algum tempo. Também mostra que o preço dessa estabilidade costuma ser uma redução progressiva da liberdade, porque mundos incapazes de aprender acabam transformando toda diferença em ameaça e toda transformação em risco.
Talvez a democracia continue sendo uma experiência histórica tão rara justamente porque aposta no movimento oposto. Ela aceita conviver com certa dose de incerteza para preservar algo muito mais valioso: a possibilidade permanente de reorganização da vida coletiva.
Essa talvez seja a imagem de liberdade que melhor dialoga com um mundo composto por muitos mundos.
Ela deixa de ser apenas o direito de fazer escolhas individuais e passa a representar a existência de espaços sociais suficientemente abertos para que novas formas de convivência continuem surgindo, antigas formas possam ser revistas e diferentes mundos permaneçam capazes de aprender uns com os outros sem abrir mão de sua singularidade.
Em tempos que frequentemente confundem força com fechamento, convicção com rigidez e identidade com incapacidade de transformação, talvez a defesa mais profunda da liberdade consista justamente em preservar aberta a realidade comum. Não porque saibamos exatamente qual futuro desejamos construir, mas porque compreendemos que uma sociedade verdadeiramente livre é aquela que nunca permite que passado ou futuro encerrem antecipadamente as possibilidades do presente.




