A melhor ecologia cognitiva
Não sei você, mas tenho minhas reservas com a formação de grupos, embora respeite muito a intenção que faz sopa, reúne remédios e ajuda, instruindo.
Nem todo encontro de pessoas merece aplauso. Parte concorda por convicção tardia; outra, por cansaço preventivo. Tudo piora quando um grupo coeso guerreia com outro.
Já percebi o peso de um ambiente em que discordar era grosseria. Saía com a impressão de que o grupo estava unido demais para continuar existindo. Porque a vida, convenhamos, interrompe, atravessa, contradiz.
Há um excesso de reuniões e gente procurando consenso e criando escassez. Reunião com assertividade tem valor, claro. O problema surge quando corporações juntam pessoas o dia inteiro para “colocar os colaboradores na mesma página”. Falta o tempo da conversa torta, da ideiazinha que entra de lado e salva o empreendimento.
Existem uniões que acolhem e outras que engolem, causas que reúnem e outras que exigem rendição. É crítico quando pertencer passa a valer mais do que pensar, quando exigem submissão em vez de companhia. A convivência humana pede que cada um preserve o próprio temperamento, a própria mania, a própria dúvida. Pede alguém capaz de dizer “discordo” sem ver o surgimento de caretas. Porque a vida em comum requer atrito, ajuste, franqueza.
A expressão “desunidos venceremos” faz sentido e provoca. Ela resume a passagem de uma ordem hierárquica para redes distribuídas. Fala de gente dona do próprio nariz, da própria dúvida, do próprio incômodo, que se recusa a marchar em passo marcado e sob bandeira única. Pessoas que apostam na interatividade, na emergência, nos laços fracos, na autorregulação e na inteligência das conexões livres. Devíamos desconfiar mais da unanimidade, regida pelo medo e pela preguiça de criar caso. A “desunião” pode ser lida como descentralização e recusa da falsa unidade.
O bando tradicional, marcado por hierarquias, exércitos e burocracias, cobrava submissão a um centro de comando. O que fortalece nossa capacidade de criar e cooperar vem da falta desse centro e da preservação das diferenças. Como regra, a unanimidade atrofia a inteligência e massageia o ego.
A busca de uma sociedade perfeita, reunida em torno de uma verdade única e absoluta, desemboca em tirania e guerra. Quando tentamos anexar o outro à nossa visão por exigência e obediência, nós o negamos.
Uma comunidade política inovadora inspira-se em pontes casuais e dispersas, em vínculos aleatórios. Quando os homens são unificados e perdem a pluralidade, a capacidade política mingua. A democracia precisa de democratas. Gente inteira, capaz de pensar por conta própria, sem se prender a caixinhas. Depois das eleições, seguirá a tarefa interminável: tentar controlar o governo com coragem para divergir e disposição para cooperar, quando pertinente.
As democracias plenas foram desenvolvidas e mantidas por meio de conversações e coinspirações. Elas representam jornadas em sociedades livres. Integram 7% da população mundial, distribuídos em 25 dos quase 200 países do mundo. O Brasil está excluído desse grupo. Só sairemos desse constrangimento se formos capazes de viver conectados uns aos outros por vínculos de confiança e aceitação mútua.
E essa história de ser dono absoluto do próprio destino pode até soar forte, mas, na prática, a vida é com os outros. O desafio é atuar na sociedade sem perder o que nos faz únicos.
O que falta não é um líder: precisamos de milhões deles.
Sozinhos e fundidos, não.
Desunidos!




