Tenho acompanhado com certo estranhamento a romantização do chamado Exército de Janones, ou Exército do Lula, especialmente quando ele começa a ser descrito como insurgência digital e colocado perto de fenômenos como 2013 ou das mobilizações recentes de jovens na Europa. Entendo de onde vem a associação. Há redes, transgressão, humor, agressividade, desobediência às formas tradicionais da política e uma sensação de mobilização que escapa das estruturas partidárias convencionais. Mas acho que estamos misturando fenômenos muito diferentes e, nessa mistura, emprestando poesia a uma coisa que tem muito pouco de poética.
Foi isso que me fez lembrar de dois autores que não têm muito a ver entre si: Walter Laqueur e Hakim Bey. E depois de um terceiro, Giuliano da Empoli, que talvez ajude a trazer a conversa de volta para onde ela realmente está.
Laqueur, em seus trabalhos sobre terrorismo, recupera uma história anterior ao terrorismo contemporâneo. Volta aos movimentos revolucionários do século XIX, inclusive algumas vertentes anarquistas, e à ideia da propaganda pelo ato. A intuição era interessante e depois ganhou consequências terríveis: há momentos em que um acontecimento político produz aquilo que o discurso não consegue produzir. O ato rompe a normalidade, mostra a vulnerabilidade do poder, mobiliza, provoca, obriga o sistema a responder.
O terrorismo leva essa lógica ao limite. Um grupo pequeno descobre que não precisa ter força suficiente para derrotar o Estado. Precisa produzir um acontecimento capaz de gerar uma reação muito maior do que ele próprio. A vítima se torna também mensagem. O medo passa a fazer parte da tecnologia política.
Não estou interessado aqui em estudar terrorismo, muito menos em produzir alguma equivalência com os fenômenos brasileiros atuais. O que me interessa em Laqueur é essa genealogia da política como ato. A percepção de que pequenos grupos podem produzir acontecimentos capazes de alterar a dinâmica de sistemas muito maiores.
Existe algo genuinamente insurgente nisso, inclusive antes de qualquer julgamento sobre seu conteúdo. O acontecimento começa a produzir consequências que seus próprios autores já não controlam completamente.
A poesia da instabilidade
Hakim Bey parte de outra tradição. Sua Zona Autônoma Temporária tem uma relação quase oposta com a ideia de poder. Bey desconfia do Estado, mas desconfia também da revolução que vence.
A razão é relativamente simples. Uma revolução que vence precisa existir no dia seguinte. Para isso, organiza estruturas, estabelece regras, cria mecanismos de decisão e defesa. Em algum momento, aquilo que nasceu para destruir uma forma de poder começa a produzir outra.
Bey encontra uma saída estranha e bonita: talvez nem toda experiência de liberdade precise permanecer.
Uma Zona Autônoma Temporária surge, existe e desaparece. Não precisa conquistar o Estado, virar partido, representar a sociedade ou transformar sua experiência numa regra universal. Pode ser uma ocupação, uma festa, uma comunidade, uma rede. A liberdade acontece durante algum tempo e, quando começa a ser capturada, pode simplesmente aparecer em outro lugar.
É aí que existe poesia.
Não porque exista baderna. A imagem do anarquismo como simples desordem sempre foi bastante pobre. Há experiências anarquistas altamente organizadas. A questão é outra: ninguém consegue possuir inteiramente aquilo que está acontecendo.
É por isso que 2013 continua sendo tão difícil de contar. Havia movimentos organizados, grupos políticos, estratégias, interesses e gente tentando conduzir as manifestações. Mas havia também uma multidão entrando por motivos diferentes, pautas mudando, símbolos sendo disputados e grupos tentando capturar o movimento sem conseguir controlá-lo. Em algum momento, ninguém sabia exatamente o que aquilo era.
Os fenômenos recentes na França parecem guardar alguma semelhança com isso. Podem começar em lugares específicos, espalhar-se, incorporar outros atores, produzir violência, receber sindicatos e organizações políticas e mudar de natureza enquanto acontecem. O sentido permanece em disputa.
É instável. Pode produzir coisas ruins. Pode ser capturado depois. Pode desaparecer sem deixar instituição alguma.
Mas há ali alguma coisa que ainda não tem dono.
Essa é a parte que desaparece completamente quando chegamos ao Exército de Janones.
O caos também pode ser engenhado
Talvez Giuliano da Empoli seja uma referência melhor para entender o que aconteceu.
Em Os Engenheiros do Caos, ele descreve uma transformação importante da política contemporânea. O caos deixa de ser apenas aquilo que escapa à organização e pode se tornar uma técnica de organização. Fake news, indignação, contradição, teorias conspiratórias e algoritmos permitem transformar ressentimentos dispersos em mobilização política. A aparência pode ser carnavalesca, irreverente e espontânea. Por trás dela podem existir operadores, métricas, experimentação e objetivos bastante concretos.
Da Empoli passa por personagens como Steve Bannon, pelos experimentos italianos e pela política digital que depois aparece em Trump e Bolsonaro. A desordem não é necessariamente o contrário do comando. Pode ser produto dele.
Essa distinção me parece fundamental.
O Gabinete do Ódio bolsonarista foi criticado durante anos justamente por uma forma de operar em rede na qual fatos reais, recortes verdadeiros, distorções, insinuações e conteúdos falsos podiam ser combinados para produzir narrativas emocionalmente muito eficientes. Não era necessário inventar tudo. Muitas vezes bastava encontrar um pedaço de realidade, deslocá-lo, aumentar determinadas conexões e oferecer ao público uma conclusão que aquele fato sozinho não sustentava.
O episódio de Nossa Senhora Aparecida é um bom exemplo do problema atual. Existia um fato remoto: um projeto apresentado em 2007 por outro parlamentar, depois arquivado, propondo alterar a condição legal de Nossa Senhora Aparecida. A partir daí circulou em 2026 a narrativa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A Justiça Eleitoral considerou essa premissa sem suporte factual e determinou remoções de conteúdos que a apresentavam como fato.
Isso não é apenas uma discussão sobre uma mentira isolada. É uma maneira de construir realidade política.
Existe um ponto factual. Em torno dele organiza-se uma narrativa. A narrativa ativa um medo real. O medo produz engajamento. E quando chega a correção, a experiência emocional já aconteceu.
Foi exatamente esse tipo de técnica que uma parte da esquerda passou anos denunciando.
Um exército não é uma insurgência
É aqui que a romantização de Janones começa a me incomodar.
O próprio Janones já descreveu sua estratégia em termos bastante pouco poéticos. Falou em “meias verdades”, em frases deliberadamente abertas a interpretações dúbias e na necessidade de usar “técnicas bolsonaristas”. Disse inclusive que, diante daquilo que considera uma ameaça autoritária, “vale tudo”.
O Exército também não esconde sua estrutura. Há missões, direcionamentos, horários, pedidos de compartilhamento e instruções para aumentar o engajamento de determinados conteúdos. A própria área técnica do TSE identificou orientações sincronizadas de mobilização e grande capacidade de encaminhamento. Sobre os conteúdos denunciados especificamente pela campanha adversária, o TSE não conseguiu encontrá-los no período examinado; parte das mensagens anteriores havia sido apagada ou editada, deixando uma lacuna na análise.
Não preciso resolver a discussão jurídica para enxergar o problema político.
Isso não tem praticamente nada da instabilidade de Bey.
Não tem a indeterminação de 2013.
Não é uma zona autônoma.
É uma estratégia de mobilização.
Existe um centro, existe direção, existem missões e existe um objetivo eleitoral perfeitamente identificável. A rede aumenta a capacidade de ação de quem está no centro.
E talvez a palavra “Exército” seja mais precisa do que seus defensores gostariam de admitir.
O que me espanta é ver gente de esquerda tentando atribuir a isso a beleza de uma insurgência. Como se agressividade fosse espontaneidade. Como se transgressão significasse autonomia. Como se romper regras produzisse automaticamente uma política libertária.
Não produz.
Às vezes significa apenas que aprendemos a técnica do adversário.
O medo permite muita coisa
E aí chegamos à parte mais difícil.
Entendo por que isso acontece.
Quando alguém realmente acredita que do outro lado existe uma ameaça existencial à democracia, muda sua disposição em relação aos meios. Coisas que antes seriam consideradas inaceitáveis passam a parecer necessárias. A excepcionalidade moral do adversário produz uma excepcionalidade moral da resposta.
É uma estrutura antiga.
E aqui Laqueur reaparece.
Não porque um exército digital seja terrorismo. Não é isso. Mas porque a genealogia que ele reconstrói mostra onde pode chegar uma política quando o ato começa a valer principalmente pela reação que consegue produzir. A ação é julgada por sua capacidade de mover o sistema. O método passa para segundo plano diante da urgência da causa.
Começamos dizendo que precisamos derrotar quem ameaça a democracia.
Depois aceitamos as “meias verdades”.
Aceitamos a manipulação emocional.
Aceitamos missões coordenadas.
Aceitamos o assédio digital.
Aceitamos nosso próprio exército.
Tudo provisoriamente, evidentemente. Até a ameaça passar.
Esse “provisoriamente” deveria nos preocupar.
É justamente o problema que aparece em quase toda política revolucionária: a liberdade fica prometida para depois da vitória.
Depois da poesia
Também não acho que Hakim Bey resolva o problema.
Sua resposta é bonita porque é instável. A TAZ pode desaparecer quando começa a se institucionalizar. Sociedades não podem fazer isso.
Alguém precisa abrir a escola na segunda-feira. Direitos precisam continuar existindo quando muda a maioria. Conflitos precisam ser processados. Decisões precisam ser tomadas, limitadas e revistas. O institucional é chato. A democracia é muito menos poética do que uma insurgência.
Mas talvez seja exatamente esse o ponto.
Se precisamos institucionalizar alguma coisa depois da experiência de liberdade, a questão passa a ser como institucionalizamos sem entregar a alguém o direito de comandar permanentemente os outros.
Essa é uma das grandes invenções da democracia.
Distribuir poder. Criar limites. Permitir oposição. Tornar decisões revisáveis. Garantir que quem perdeu continue existindo politicamente. Aceitar que nenhuma vitória seja definitiva.
Bey nos ajuda a lembrar que a liberdade morre quando alguém consegue capturá-la completamente. A democracia tenta fazer uma coisa mais difícil: construir instituições que continuem funcionando sem permitir que alguém as capture completamente.
É menos poético.
Mas é justamente por isso que me parece tão estranho ver pessoas preocupadas com a democracia celebrando a construção de um exército político porque, desta vez, o comandante está do lado certo.
Passamos anos tentando entender Bannon, o Gabinete do Ódio, as fake news, a manipulação algorítmica e a política do medo. Giuliano da Empoli chamou seus operadores de engenheiros do caos.
Seria uma ironia curiosa terminar essa história chamando os nossos de poetas.




