A normalização do dano
De Chomsky à intelectualidade brasileira
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (19/02/2026)
A relação entre Noam Chomsky e Jeffrey Epstein - revelada pela recente desclassificação judicial de arquivos sobre um dos casos mais documentados de tráfico sexual e predação de menores da história - suscita reflexões sobre o papel dos intelectuais na manutenção de estruturas de poder que naturalizam a exploração. Uma dessas reflexões foi publicada na revista Pressenza por Claudia Aranda, uma jornalista e analista política chilena.
Segundo Aranda, não cabe igualar os possíveis crimes cometidos por cada um nessa relação e sim identificar o papel que exerce o intelectual quando expressa empatia por Epstein, ‘oferece-lhe apoio e fornece conselhos sobre estratégias de comunicação para lidar com a crise. As acusações são caracterizadas como “histeria” em torno do abuso de mulheres; a legitimidade da denúncia pública é questionada e o clima gerado pelo movimento MeToo é deslegitimado’.
O que é importante analisar é como esse poder é mantido por uma estrutura em que há os que praticam o dano e os que, por prestígio ou conveniência, falham em interrompê-lo. O desafio lançado pelo artigo é o de identificar aquilo que Hannah Arendt já havia analisado quando estudou o papel exercido por pessoas comuns diante da monstruosidade do nazismo.
Ao contrário do que se imagina sob uma perspectiva meramente superficial, os crimes cometidos pelos regimes totalitários se tornam possíveis ao longo do tempo não por atos monstruosos, mas pela omissão de agentes que atuam de forma técnica ou estratégica, desvinculados de um compromisso ético.
Arendt identifica um erro típico das elites intelectuais que é o de confundir a capacidade de análise crítica com uma garantia automática de integridade moral. O apoio revelado por um intelectual como Chomsky a um predador sexual evidencia como pode acontecer essa armadilha. Sistemas de poder mal regulamentados selecionam indivíduos com menos contenção empática e que toleram melhor a objetificação.
No contexto brasileiro poderíamos nos perguntar se a relação vigente entre a intelectualidade dominante e um poder que esgarça os sistemas de controle social não indica um tipo de conduta similar. Em que medida, por exemplo, o apoio abstrato a ideais democráticos impede a denúncia de zonas de impunidade ou abusos concretos que ocorrem sob o próprio nariz. O dano sistêmico não exige que todos sejamos agressores ou perpetradores de abusos, mas apenas que uma massa crítica de pessoas brilhantes permaneça passiva ou minimize os fatos para não desestabilizar o sistema.
Em contextos de poder concentrado a lucidez intelectual exige o estabelecimento de limites claros. Onde o poder se liberta de restrições, nem o gênio nem a crítica radical são suficientes para evitar o dano se não houver estruturas de responsabilidade. Um Supremo Tribunal Federal sem freios pode ser o exemplo mais cabal desse risco que vivemos hoje.




O documentário sobre Epstein jura que o advogado Dershovitz usou “serviço” sexual das crianças de 12/13 anos, mas uma de suas acusadoras (Giuffre) posteriormente negou o que havia declarado, inocentando o advogado.
Perfeito, Rafael! O exemplo dado de Noam Chonsky + Jeff Epstein é eloquente e boa comparação com nossas instituições. Na trajetória criminosa de Epstein, há um advogado que já defendeu OJ Simpson, Mike Tyson e foi quem montou a banca de 8 cobrões para defender o priápico. Pois este Dershovitz foi agraciado com crianças de 12/13 anos que ele traçou várias vezes e depois negou, claro! O que dizer de um advogado assim, um dos mais caros dos EUA?