Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (08/10/2026)
A política pode ser reduzida à ideia de mercado, tal como acontece na disputa eleitoral em que, supostamente, vence aquele que tem as melhores propostas?
Sem entrar na questão da equanimidade dos concorrentes e pensando no fenômeno dos influenciadores digitais, que dispõem de espaço quase gratuito para defender seus pontos de vista, podemos imaginar que o debate de ideias só ganha com o aumento do influxo de novas percepções. Mas será que o debate de ideias na política deveria funcionar como um mercado em que o que vende mais é o melhor?
É óbvio que as eleições, tal como estão organizadas, funcionam assim. A ideia consubstanciada em um candidato que vende mais é eleita. Mas isso faz daquela ideia a melhor?
No sistema proporcional, é possível conviver com várias ideias diferentes. Várias ideias são eleitas — umas com mais peso, outras com menos.
No sistema majoritário, isso não acontece. A ideia ou candidato vencedor leva tudo.
Até que ponto um sistema que favorece o majoritarismo contamina a nossa capacidade de pensar a política como algo além de um mercado? Se a minha ideia não tem chance de vencer, precisa se adequar à de quem vence.
Pensar a política como mercado pode ter suas vantagens ao estipular a premissa de que um ambiente livre de amarras ajuda na circulação das ideias. Mas reduzir a política à lógica de que aquele que está mais apto a vender suas ideias é o melhor acaba por ignorar que o ambiente em que essas ideias cresceram destoa daquele existente em um mercado em que a concorrência prevalece sobre a cooperação.
Um exemplo disso são os maiores arrebanhadores de votos, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Ambos têm ligações fortes com igrejas ou movimentos religiosos — comunidades políticas, por assim dizer. O ambiente em que as ideias de ambos crescem está cercado por um clima de cooperação que faz do candidato alguém autorizado a falar pelas pessoas que integram aquele movimento.
É claro que aquilo que é dito e informado por esses influenciadores é de responsabilidade exclusiva deles, e há uma originalidade em sua formulação. O ponto que quero destacar é que a livre circulação de ideias permitida pelo mercado não alcança a questão fundamental: o papel da comunidade na construção dessa ideia.
Obviamente, quando pensamos em comunidade, imaginamos algo diferente de uma igreja. Mas essa comunidade é uma experiência nossa, de quem pensa a política como um encontro de mundos sociais, como disse o Maceo em seu artigo mais recente aqui: uma comunidade aberta.
O fato de ser uma comunidade fechada não significa que ela não produza essa sensação de pertencimento que alimenta um grupo. O ponto-chave é que as ideias conversem. O mercado, por si só, não garante isso. A lógica concorrencial exige a sua adesão, e não a sua interação.



