Tudo parece errado nas elocubrações eleitoreiras dos analistas ditos "progressistas". O eleitor não é de direita porque no mundo real as pessoas não se enquadram no esquema classificatório da guerra fria do século 20, de esquerda x direita (baseado no "nós contra eles").
O eleitor dissidente se cansou de Lula e do PT e quis renovação depois de quase duas décadas de mais do mesmo. Se não havia um candidato de centro democrático liberal para receber esse voto exausto, a culpa é dos populismos (ditos de esquerda ou de direita) que parasitam nosso regime político.
A polarização e a divisão da sociedade brasileira matou o centro. E foi por isso que os cansados acabaram votando, em sua maioria, em quem não é governo, não porque seriam bolsonaristas, trumpistas, golpistas e fascistas, como diz a esquerda para enganar os outros e se auto-iludir. A maioria do eleitorado votou em candidatos bolsonaristas não porque é bolsonarista e sim por antipetismo, porque avaliou que eles tinham mais firmeza do que o melífluo e alugável “centrão” para renovar o sistema político, espancando o PT das instituições que parasitam. E nem porque seja de direita contra a esquerda.
Esse esquema interpretativo esquerda x direita que herdamos das revoluções francesa e russa já é uma degeneração da política (democrática) baseada na fórmule inverse de Clausewitz-Lenin: a política como continuação da guerra por outro meios. É isso que produz o “nós contra eles” com o qual o lulopetismo infectou a sociedade brasileira produzindo o que depois viemos a chamar de polarização e… divisão mesmo!
Sobre o “nós contra eles” convém lembrar aqui de Tom Hanks que, em 2019, interpretou o icônico apresentador infantil Fred Rogers no filme Um Lindo Dia na Vizinhança. Durante a divulgação do longa, Hanks repetiu publicamente a filosofia de vida de Rogers para explicar a mensagem central da história:
"Não existe 'eles'. Não há divisão. Não há uma linha na areia. Só existe nós. Então, tudo o que temos que fazer é trabalhar juntos".
A campanha governista, totalmente baseada no “nós contra eles”, vai intensificar agora a desqualificação do candidato de oposição como golpista, reeditando a farsa de que só Lula pode salvar a nossa democracia. Mas golpes de Estado (sobretudo à moda antiga, com protagonismo militar) não são a única maneira de atacar a democracia. O fato de uma força política não ser golpista não lhe dá atestado de democrata.
A maior parte dos processos de desconstitução da democracia se dá hoje por erosão democrática, não por golpes militares. A ocupação pacífica das instituições para colocá-las a serviço do projeto de poder de um partido hegemonista (como o PT), erode a democracia.
Façamos agora pequeno esforço de examinar o gráfico abaixo (dos pesquisadores do V-Dem, Lührmann e Lindberg):
Sem querer ver nada disso, muitos jornalistas e analistas políticos - para, supostamente, salvar nossa democracia do golpismo - viraram agora consultores eleitorais de Lula. Sustentam que é possível Lula virar o jogo, desde que faça isso ou que não faça aquilo. Marqueteiros voluntários, que recebem em troca autossatisfação ideológica e reconhecimento da tribo.
Eles ficam procurando onde Lula errou no primeiro turno e como poderia acertar no segundo. Empreendem uma cruzada santa para abrir os olhos da população contra algo que não vai acontecer como eles imaginam. Os bolsonaristas não têm força político-militar para dar um golpe (à moda antiga). Jair Bolsonaro já não tinha, tanto que cogitou, tentou, mas não conseguiu consumar esse tipo de ruptura constitucional.
E se esquecem de ver o que deveria ser evidente. Lula sabe que já é minoria nos governos e parlamentos municipais, nos governos e parlamentos estaduais, no Congresso Nacional, nas mídias sociais e nas ruas. Mas quer ser eleito apostando na possibilidade de governar com o STF atuando como tribunal de exceção, a PGR como grande inquisidora e a PF como polícia política. Nessas circunstâncias, mesmo que consiga comprar muitos deputados federais e senadores, não há fórmula possível de governabilidade democrática.
Então temos um problema real pela frente. Lula não vai dar golpe de Estado, mas seu desejo é continuar aparelhando as instituições para sustentar um poder que, a rigor, ele não pode mais exercer em termos democráticos. Esse aparelhamento, entretanto, tende a degenerar essas instituições, como está ocorrendo com o Supremo Tribunal Federal.
Afirmo que foi o “nós contra eles” que fez isso. E Lula vai insistir em trilhar o mesmo caminho, percorrido desde o início do século, pois o hegemonismo é da natureza do PT. Como sabemos, o populismo de esquerda não aceita a rotatividade ou alternância democrática. Perder uma eleição presidencial, para o PT, é mais ou menos como o fim do mundo. Então Lula fará tudo para não perder, mesmo correndo o risco de acabar de esculhambar várias instituições e, no limite, até tornar as eleições ilegítimas.
Não vai ter golpe se Flávio for eleito. Nem se Lula for eleito. Mas erosão democrática provavelmente haverá, em qualquer caso (da vitória de Flávio ou de Lula), pois as instituições estão sendo degeneradas.




