Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (01/10/2026)
Os estandartes de candidatos que poluem as cidades neste fim de campanha eleitoral expõem a contradição de um sistema que vende liberdade de escolha e entrega confusão de opções. Estou me referindo aos candidatos a deputado.
Em Minas Gerais, são 712 candidatos a deputado federal para a escolha de apenas um representante por eleitor. É óbvio que ninguém terá nem a disposição nem a capacidade de pesquisar sobre cada um deles; por isso, o interesse recai naqueles mais próximos.
Mas mesmo esses são muitos. Cada vereador, que atua como um cabo eleitoral poderoso, costuma se alinhar a um candidato diferente, sendo poucos os que apoiam um mesmo nome. Vejamos um exemplo: num universo de 23 vereadores na cidade de Juiz de Fora, onde moro, contabilizei, com a ajuda da inteligência artificial, treze nomes diferentes de candidatos apoiados por eles.
Para se eleger, um deputado precisa contar com a soma de cerca de 200 mil votos na legenda de que faz parte, incluindo aí, claro, a sua própria votação. O eleitor precisaria saber quem são os companheiros de chapa e avaliar a chance do seu candidato nessa concorrência interna — precisaria, mas dificilmente terá estímulo para fazer isso. O que prevalece, aparentemente, é a indicação recebida por meio de um contato próximo.
O resultado é uma pulverização gigantesca. A peneira acaba privilegiando os atuais mandatários e aqueles que dispõem de poder econômico, que acabam encabeçando as chapas.
É difícil ver alguma perspectiva de mudança num quadro desses. A riqueza de oferta no mercado eleitoral, diferentemente do que ocorre na esfera econômica, não ajuda em nada o consumidor/eleitor.
Como fiscalizar um candidato que pouco tem de compromisso com a localidade onde o eleitor mora? A não ser por algum caraminguá retirado do orçamento e enviado para a sua região, qual é realmente a visibilidade da ação de um parlamentar num Estado — para ficar no exemplo de Minas Gerais — com mais de 800 municípios?
A eleição deste ano está contaminada pela polarização das disputas majoritárias, principalmente a de presidente. É o caso de perguntar: como uma eleição para o Poder Legislativo com esse nível de pulverização pode ajudar a reduzir a força de populistas, ou será que ela, na verdade, contribui para que esses populistas cresçam como praga?



