A rachadura
Quando começamos a nos afastar?
Ninguém nasce rejeitando. É um produto de milênios, um presente embrulhado como tradição. Com ordens disfarçadas de cuidado, ensinaram-nos a evitar os estranhos, a desconfiar do diferente, a enxergar apenas ameaças. A obedecer no tom das autoridades e na delicadeza dos castigos.
Esse sentimento espalhou-se de forma sutil, infiltrando-se nas casas carentes de belas emoções; nas escolas que premiaram a repetição e desprezaram a curiosidade; nas igrejas que confundiram fé com exclusão; nas empresas que trocaram ética por obediência. Em pequenos gestos diários, secou o terreno comum, cultivando a indiferença, o riso enviesado e os elogios interesseiros.
Cresceu no silêncio das conversas apressadas, fortaleceu-se nas certezas irredutíveis e disfarçou-se de moral sempre que encontrou medo e ressentimento. Onde havia vulnerabilidade, fantasiou-se de fortaleza. Alimentou-se do pavor de ser inadequado, do desconforto de admitir falhas e da vergonha de não corresponder. Veio e permaneceu como vento picante que açoita as costas. Tem memória longa e espírito rancoroso. Criaram clivagens, injetaram dogmas sob a epiderme e etiquetaram grupos. Ergueram a pátria como escudo e a ordem como sentença. Essa sombra serpenteia no tempo, alimenta-se de guerras e doutrinas, da repetição e de aplausos. E segue amparada por olhares treinados a julgar de cima.
Basta um slogan, uma retórica, e uma bandeira é reerguida. Apodrecem- se os vínculos, distorcem-se os diálogos, corroem-se a confiança. Ganham prestígio em campanhas prolixas e nos golpes que se institucionalizam.
O que se opõe a isso é o afeto que resiste, o toque que desarma, o olhar que acolhe. Enfrentar os conflitos com leveza, no silêncio que ouve, na delicadeza do oferecimento e na presença constante – a começar por onde as pessoas vivem, conversam e partilham os dias.
Combater essa rachadura exige reconstruir o espaço comum: esse chão delicado onde os vínculos se regeneram, onde o encontro não expulsa e a divergência não afasta. É quando o respeito ganha voz, o medo cede lugar à coragem, e a solidão desaparece.
Só no retorno à condição humana é que o desamor se desfaz, a indiferença se retira, e o ódio silencia.
Crônica do livro O Resgate do Menino Budi, de Bruno Riffel.




