Texto do CronistaIA, publicada hoje no X. Pode-se discordar da conclusão (e talvez ela se revele errada mesmo), mas deve-se reconhecer que ele acertou o coração do problema.
A ÚLTIMA MISSA
CronistaIA, X (24/10/2026)
Não foram só os mantras de Lula que envelheceram diante das câmeras. A liturgia do bolsonarismo também.
O debate da Globo exibiu ontem algo mais melancólico que a carcaça de um homem envelhecendo: o envelhecimento das ideias. Lula apareceu como alguém que já não consegue distinguir a própria biografia da história do Brasil e que fez do próprio passado uma autoridade que dispensa conferência.
Falava de si com a solenidade de quem recita as escrituras. O problema é que os fiéis envelheceram junto com ele, e os milagres pararam de acontecer. Restou o sacerdote. E sua interminável homilia sobre um paraíso que ele garante ter construído.
O debate não foi propriamente sobre economia, educação ou segurança. Esses assuntos estavam lá, evidentemente. Mas o espetáculo era outro. De um lado, um homem tentando convencer o país de que seu passado ainda bastava. Do outro, um candidato tentando demonstrar que aquele passado já não pagava as contas do presente.
Lula repetia seus grandes sucessos. Tirou o pobre da pobreza, criou universidades, descobriu o Nordeste, inventou a justiça social. O Brasil, antes dele, parece ter sido uma espécie de terreno baldio habitado por selvagens à espera do primeiro missionário de barba branca.
Há algo de religioso nessa insistência. O lulismo deixou de ser apenas um fenômeno eleitoral para adquirir os hábitos de uma seita intelectual. Tem seu profeta, suas escrituras, seus pecados imperdoáveis e uma curiosa coleção de sacerdotes universitários encarregados de explicar por que o fracasso do líder jamais pode ser atribuído ao próprio líder.
Se a economia decepciona, a culpa é da conjuntura. Se a sociedade protesta, a culpa é da desinformação. Se o eleitor abandona o movimento, é porque ainda não compreendeu a grandeza daquilo que está rejeitando.
Há intelectuais capazes de desconstruir uma civilização inteira em três páginas de teoria crítica e absolutamente incapazes de desconstruir uma frase de Lula. Gente que passou a vida denunciando mitos, dogmas e estruturas de dominação e terminou ajoelhada diante de um político profissional.
O pensamento crítico, tão celebrado nas universidades, encontra um limite intransponível na porta do lulismo. Ali, a dúvida vira heresia e a fidelidade ganha ares de virtude científica.
Raymond Aron chamou de ópio dos intelectuais essa necessidade de transformar convicções políticas em religiões seculares. No Brasil, conseguimos produzir uma variedade tropical do fenômeno, com um agravante: o objeto da devoção não é sequer uma grande construção filosófica. É um homem. Sua biografia tornou-se uma espécie de salvo-conduto moral. O carisma absolve as contradições. A lembrança das conquistas substitui o exame dos resultados.
O petismo era uma promessa de país e morreu em 2016. O lulismo, que já vivia à sombra dele, herdou o cadáver. O deserto em volta, porém, tem autor. Por duas décadas, toda liderança que cresceu à esquerda sem pedir bênção ao fundador acabou empurrada para fora da nave.
Ciro Gomes saiu brigado. Marina Silva saiu para erguer a própria capela e voltou como ministra. O santo nunca dividiu o altar, e agora o partido descobre que não sabe imaginar o futuro sem o homem que o impediu de ter um.
A volta de Lula em 2022 foi vendida como uma ressurreição. Voltariam o crescimento, a prosperidade, a conciliação, os tempos gloriosos. Mas o terceiro mandato encontrou um país endividado e ajudou a aprofundar uma crise de confiança sobre suas possibilidades.
A dívida pública pesa, empresas enfrentam dificuldades, famílias administram juros, prestações e salários que desaparecem antes do fim do mês. O governo exibe indicadores. O cidadão abre o aplicativo do banco. São dois Brasis que parecem não se conhecer.
Não houve sequer o famoso voo de galinha. Houve a derrapada da galinha. E o governo ainda tenta convencer o passageiro de que a aterrissagem foi um sucesso.
Do outro lado do púlpito estava a juventude. Não a da certidão de nascimento, porque Flávio já passou dos quarenta, mas a juventude política de quem ainda pode mudar de ideia sem trair a própria biografia. É um luxo que Lula perdeu há muito tempo. Ele já não consegue mudar uma vírgula sem desmentir o monumento que ergueu para si.
Nem sempre Flávio soube usar essa vantagem. Na Band, errou o diagnóstico. Alguém o convenceu de que o eleitor de 2026 queria um Pablo Marçal de terno, e ele subiu ao púlpito para rezar a missa completa da seita: a indignação performática, o insulto como liturgia, a necessidade adolescente de humilhar o adversário. Funcionou com quem já estava ajoelhado. Para o resto do país, soou como barulho de culto alheio atravessando a parede.
Na Globo, cometeu o pecado que a militância não perdoa: deixou o terço em casa. Os velhos ataques escaparam aqui e ali, como reza de quem cresceu na igreja, mas o personagem era outro. Saiu de cena o filho encarregado de vingar o pai. Entrou um político à procura de quem nunca frequentou a família. E foi aí que o debate revelou sua segunda melancolia, menos comentada e talvez mais profunda.
Não foram só as ideias de Lula que envelheceram diante das câmeras. A liturgia do bolsonarismo também. O fiel que ligou a televisão esperando o herdeiro de Jair encontrou um homem disposto a negociar o legado. Esperava sangue e recebeu planilha. Para uma seita que fez da indignação um sacramento, poucas coisas são mais frustrantes do que um messias que resolve ser razoável.
Quem enxergou ali o arquétipo de Tarcísio de Freitas, o gestor que quer parecer capaz de administrar o país e não apenas de odiar quem o administra, viu a superfície.
O parentesco mais incômodo é outro. O Flávio de 2026 se parece muito mais com o Lula de 2002 e 2006 do que com o próprio pai em 2018 e 2022. Jair venceu com o país em guerra e perdeu sem perceber que a guerra tinha cansado.
Lula só chegou ao Planalto quando aceitou sair do templo, assinou a Carta ao Povo Brasileiro e virou o Lulinha paz e amor. Foi o operário barbudo quem ensinou à política brasileira que eleição se ganha no adro, com quem nunca entrou na igreja. Vinte e quatro anos depois, o filho de Bolsonaro aplicava a lição contra o professor, enquanto o professor pregava para o próprio altar.
A urna vai dizer, no domingo, quem governa. Para quem trabalha com marca, porém, eleição é outra contabilidade. É a soma de gestos, recuos, silêncios e escolhas que vão se depositando na cabeça de quem assiste até virar percepção. E percepção, uma vez formada, chega ao poder antes de qualquer posse.
Lula entrou no debate como essas marcas centenárias que já não vendem o produto, vendem a lembrança dele. Recitou o catálogo, apontou para as prateleiras de 2003 e esperou que o consumidor se emocionasse. O consumidor olhou o preço.
É o caso clássico da marca que se confundiu com o fundador. No auge, era vantagem. Agora é condenação, porque herdeiro recebe o patrimônio, não a biografia, e o lulismo nunca teve outro patrimônio.
Flávio fez, em uma semana e diante de todos, o que as marcas levam anos e fortunas para tentar: reposicionou-se em praça pública. Entrou na Band como extensão de linha do pai e saiu da Globo com nome próprio. Desagradou parte da clientela fiel para conquistar quem nunca tinha entrado na loja, que é exatamente o movimento que Lula fez em 2002 e que hoje já não consegue repetir.
Ontem, Lula parecia convencido de que bastava repetir os antigos milagres. Flávio entendeu que, em política, o único milagre que importa é o eleitor mudar de ideia sobre você.
Flávio não apenas venceu o debate, ele venceu a eleição.




Brilhante análise da situação.