Alarmismo ou omissão?
A crise da democracia que não existe para Przeworski
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (14/05/2026)
Não existe crise mundial da democracia. É o que diz o cientista político Adam Przeworski numa recente entrevista sobre o tema. A argumentação, basicamente, é a de que, mesmo que haja movimentos políticos consistentes com o objetivo claro de destruir regimes democráticos, isso pode não acontecer tanto por esses grupos enfrentarem a força das instituições políticas como pela própria incapacidade de coordenação.
Podemos pensar no movimento bolsonarista que culminou na manifestação do 8 de janeiro de 2023. Ali, a incompetência da articulação das lideranças de gerar o que se propunha, um golpe militar, ficou evidente. A tentativa se desfez por conta principalmente dos erros de coordenação dos líderes, que não foram capazes de obter o apoio necessário para realizar o seu intento. A força das instituições políticas pode ser exemplificada pela resistência de militares de alta patente a aderirem às articulações.
Outro exemplo usado por Przeworski é o da destituição recente pelo voto popular do líder autocrata Orban, na Hungria. Curioso que um expediente muito usado pelo ex-líder húngaro para se manter no poder, o aparelhamento das instituições, é minimizado para não dizer ignorado quando se analisa o grupo que retomou o poder por aqui depois de quase 15 anos governando o país.
A conveniência desse tipo de argumentação é que observa a política como um fenômeno que parece objetivo. O resultado eleitoral que garante a vitória de alguém não comprometido explicitamente com a destruição da democracia é um indicador claro, nesta análise, de que o movimento contrário foi derrotado. Há aí um evidente protagonismo do componente eleição para entender a dinâmica do desenvolvimento ou decadência do regime político.
No Brasil, a eleição de alguém que se diz comprometido com a democracia seria um sinal evidente de que o movimento para destruição desta foi derrotado. A sinalização analítica de que há um movimento claro de destruição da democracia corresponde à sinalização de que o movimento que se opõe eleitoralmente a ele tem sinal contrário no compromisso com aquela, haja vista, segundo essa lógica, o pleno funcionamento das instituições: congresso, judiciário e imprensa continuam a atuar de forma plena.
O problema dessa abordagem, no caso brasileiro, é que, sem ser explícito quanto a isso, ignora indicadores importantes como o aparelhamento político da máquina pública, a demonização orquestrada do legislativo e o alinhamento com autocratas no cenário internacional.
A democracia no Brasil persistir em um governo Lula implica dizer que não persistiria em um governo Bolsonaro? Ou, dito de outra forma, a tendência para autocratização do governo Bolsonaro foi realmente estancada com a eleição de Lula? Przeworski e outros acadêmicos no Brasil parecem dizer que sim. Não só, garantem que sim.
Há uma espécie de lucidez autossuficiente nessa postura minimalista que reduz tudo a eleições. Governantes autoproclamados democratas com posicionamentos alinhados a autocratas e que cometem abusos em desfavor de mais liberdade política são entendidos como protagonistas das “dinâmicas naturais” do sistema político, o que parece servir de refúgio para que intelectuais como Przeworski e muitos outros deixem de denunciar esses mesmos abusos.



