Apostar na democracia ou...
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (09/07/2026)
Acredito que existe, no Brasil, uma ala da esquerda que se indigna com os atuais desdobramentos no Supremo Tribunal Federal. Essa percepção sustenta-se, em grande medida, na repercussão das manifestações de Glenn Greenwald, jornalista historicamente alinhado a esse espectro político. Greenwald, que desempenhou papel central na exposição dos métodos heterodoxos da Operação Lava-Jato — culminando na anulação das condenações do presidente Lula —, manifestou profunda indignação quanto aos fatos recentes que envolvem o ministro Alexandre de Moraes e as investigações contra o banqueiro Daniel Vorcaro. Para o jornalista americano, trata-se de um escândalo judicial sem paralelos na cena internacional.
Embora eu não acompanhe sistematicamente os perfis de esquerda nas mídias sociais, é plausível supor que as críticas de Greenwald encontrem ressonância nesse meio, ainda que em intensidades variadas. É notório o esforço de certa militância em concentrar a responsabilidade de crises e escândalos na figura do “capitalista vilão”. Sob essa ótica, a eventual colaboração de um magistrado com um financista é reduzida a um elo secundário na cadeia de culpabilidade.
Nesse cenário, prioriza-se a campanha contra o banqueiro e a exposição de seus vínculos com a direita, associando-se o prejuízo ao erário e à população ao curso inexorável do capitalismo. A lógica dita que um juiz, por mais proeminente que seja, não deve ser abandonado ao escrutínio público antes da condenação do “malfeitor maior”. Além disso, argumenta-se que haveria instâncias de poder a serem punidas prioritariamente, com destaque para o Congresso Nacional.
Soma-se a isso a memória do papel fundamental desempenhado pelo referido ministro no processo que garantiu a eleição do atual presidente. Para esse grupo, um deslize com o setor financeiro não teria o condão de macular a honra de uma figura alçada ao status de personagem histórico.
Embora tais argumentações sejam elaboradas nos círculos intelectuais, não se pode ignorar a existência de um interesse central na gestão desse discurso. Por mais que a associação a um tribunal com credibilidade em declínio seja impopular, o custo político de elevar o tom em favor de uma maior moralidade no Judiciário parece proibitivo para o atual governo.
Isso ajuda a explicar o silêncio relativo da intelligentsia de esquerda. Dar vazão à indignação corrente entre os setores esclarecidos da população poderia comprometer os planos eleitorais da principal liderança do campo, uma vez que a pauta da reforma do Judiciário e do impedimento de ministros parece interessar prioritariamente à oposição.
Essa “ação pela inação” camufla-se na ideia de um percurso histórico necessário para a redenção do povo brasileiro, no qual a deposição de um magistrado seria um entrave tático. Hoje, o sentimento de revolta contra uma alta corte que parece imune ao controle de poder é recebido com frieza pelos líderes de esquerda, por setores acadêmicos e pela elite intelectual. Tais motivações — manipuladas ou não — revelam a resistência em aderir a um movimento cívico por um controle mais estrito do Poder Judiciário. A verdadeira questão que se impõe para uma esquerda que se pretenda independente não é a adesão a teorias históricas, mas a aposta concreta no futuro da nossa democracia.
Será que existe uma esquerda independente no Brasil?



