As almas pias
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (30/07/2026)
As “almas pias” da nossa intelectualidade manifestaram profunda ofensa com o discurso de Javier Milei, que insultou um ministro do Supremo e o Presidente da República. De fato, a retórica do presidente vizinho foi chula, assemelhando-se mais a uma discussão de boteco do que à solenidade de lançamento de um candidato aliado em solo estrangeiro. Para essas almas pias, tal agressão é inaceitável: como tolerar que uma autoridade externa ataque nossas instituições, ainda que apenas no campo retórico?
No entanto, essas mesmas almas pias parecem ter como missão proteger-nos apenas das “impurezas” que vêm do lado de lá. Quando as manchas surgem do lado de Lula, elas preferem baixar o rosto para não enxergar.
Ignoraram, por exemplo, o apoio explícito do “sábio presidente” a um candidato a ditador na Venezuela. Não viram quando esse mesmo personagem, já convertido em ditador de fato, foi recebido com tapete vermelho em nosso país, chegando a ouvir de seu anfitrião que o regime venezuelano não passava de “uma outra democracia”. Nessas ocasiões, as almas pias desviaram o olhar de milhões de venezuelanos que, logo depois, manifestaram nas urnas sua repulsa ao regime.
Também não notaram quando o atual governo resgatou uma aliada política no Peru, agindo como se as instituições daquele país carecessem de autoridade para processá-la por corrupção. Diante desse episódio, nossas almas pias provavelmente limitaram-se ao riso cúmplice.
Parece que a soberania, para esse grupo, só é sagrada quando convém. Que o digam os ucranianos, obrigados a ouvir que a culpa por uma guerra de agressão é “de ambos os lados” e que a invasão de seu território não representa uma ameaça à autodeterminação dos povos — princípio, vale lembrar, inscrito em nossa própria Constituição.
Contudo, para as almas pias, xingar um magistrado ou um mandatário brasileiro é um crime de gravidade muito superior. Elas arrogam para si o papel de nossas protetoras, o mesmo papel que desempenharam ao ignorar os movimentos explícitos do “presidente-entidade” — posicionado acima do bem e do mal — em apoio a uma candidata no país do próprio Milei.
As almas pias querem nos proteger, mas a verdade é que estamos profundamente desprotegidos. Somos conduzidos por uma hipocrisia sistêmica, enquanto o principal expoente da oposição navega nas mesmas águas do descompromisso com a convivência democrática. Essas almas pias habitam um mundo à parte, onde quem não pertence ao círculo não merece amparo. Por sorte, nossa desproteção pode ser nossa força, desde que não caiamos no conto do vigário desse mundo prometido por populistas.
Foto de capa. Por ordem de Lula, um avião da FAB buscou a ex-primeira-dama condenada por corrupção em Lima, impedindo que ela fosse presa após receber asilo diplomático.



