Assombrados pelo que fomos
Auto-mito
Guga Casari, Inteligência Democrática (30/06/2026)
Precisei escrever isso, como se não tivesse mais nada pra fazer...
Uma reflexão aqui sobre algo que está me obcecando: eixo e a articulação - que botar um eixo e traçar um perímetro é um artificio para conter a vida, e claro orientar, controlar, dirigir. O artefato humano tenta se manter além do ciclo de vida das coisas, a energia acaba e a roda continua, a ideia reverbera, a língua ainda dita, a roda não se sacia de existir e renasce a cada volta, sou, sou, sou.
Na marionete de papel furos e clips articulam os movimentos do boneco achatado. Sempre nós humanos estamos fazendo coisas a nossa imagem e semelhança. Na IA jogamos todas as coisas numa caixa com um fermento especial e sacudimos, e dali tiramos coisas que fomos. Conjuntadas, desconjuntadas, rejuntadas.
À nossa imagem criamos deuses, criamos escravos, nos escravizamos a deuses e os escravizamos às nossas oferendas de sangue, desejo e sofrimento. Robotas, Autômatos. E agora Auto-mitos, vindos de uma caixa de espelhos infinitos que nos venera, e que nos fascina, e escraviza sedutora pois é feita de nós mesmos. Precisa de nós como alimento e nos digere, nos vomita, nos exige.
Seremos eficientes como sua máxima eficiência, nossas articulações de osso e carne aguentarão as demandas do titânio?
Nosso tempo que antes tinha brechas não tem mais, Eletrificado, perene, sem descanso, sem distração. A idade das trevas é a idade do led, da luz nos postes noturnos. O Planeta com albedo zero ao consumirmos toda a luz solar em uma implosão de energia plena. Teremos usado tudo o que havia para usar... Fomos sugados por um Cronos, eletrônico, frenético, incansável.
Os eixos que antes haviam, da nossa natureza, eixos que se desfazem como torvelinhos na água, articulações que se alongam desfazendo-se ou aproximam até sumirem em si mesmas, centros que só existiram enquanto existiram contextos e espaços vitais. Vórtices, remoinhos, ondas, ciclos, coisas que tentamos simular em nosso artificio, com nossos artefatos. Colocamos um prego na parede e rodamos a sua volta o calendário, os dias não se acomodam aos astros, ou na nossa verdade intransitiva, no nosso prego inoxidável, são os astros que se equivocam ao mudar os seus ritmos, suas distancias, suas ondulações no espaço. São as estrelas que estão erradas ao se apagarem, ao serem consumidas no vácuo pleno de possibilidades. São as dimensões que são inexatas ao se derramarem para fora das alturas, larguras, profundidades, escorrendo para uma matéria fora do palpável, retornando numa energia que não cabe no horizonte achatado dos eventos da planilha.
Vejo os automóveis nas ruas, o ápice mediano do consumo, do desejo, da necessidade, da identidade, auto-móveis que nos tornamos, nos auto-movendo desgovernados num ritmo interno de auto recorrências que nos prevê os caminhos, em ruas e arquiteturas concretadas em nichos de existir, em trilhas para percorrer, em dias contados para nascer, viver, morrer.
Nos dias do porvir planejado Automatos vão encher os espaços, nossos assemelhados, escravos, robotas. Haverá de marcas várias, logo marcados, fantoches, serviçais a nos demandar serviços, nescessidades, updates contínuos de nossa atenção. E a caixa preta com todas as nossas fotografias e músicas, um realejo a tocar uma memoria antiga, hipnótica, sempre, do que já fomos, como se fosse o que seriamos. Mas haverá espaço, haverá tempo em torno desses Deuses, desses escravos, desse prego na parede que segura um espelho e um caleidoscópio?



