Ativo russo ou agente da guerra?
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (08/01/2026)
Guerra é paz. Essa é a célebre frase do Partido Único que governa a Oceania, no clássico 1984 de George Orwell. Ela me vem à mente ao lembrar de um dos slogans de campanha de Trump ‘Vote Pro-Peace Ticket’ e que me faz contrastar com a ação mais espetacular de seu governo até agora, a prisão do ditador da Venezuela em pleno exercício de poder.
Esse episódio aumentou a desconfiança do mundo democrático com relação ao propósito de paz do presidente americano. Seu desejo de ser premiado pelo prêmio Nobel seria mais uma das suas táticas diversionistas, a la 1984, enquanto seu intento real é estabelecer uma autocracia nos Estados Unidos a partir de um comportamento beligerante externamente. Depois da Venezuela, Groenlândia, Canadá, etc.
Sobre o papel que Trump tem exercido recentemente no seu último mandato, muito se tem falado se ele é ou não um ativo russo. A sentença ganhou projeção com a afirmação do presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa, que disse categoricamente ser o presidente americano um ativo russo.
Afirmou Marcelo, em um evento promovido pelo seu partido, PSD, em Portugal: “O líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo. Funciona como ativo.” O presidente português, conhecido por sua moderação, não fez uma acusação direta de corrupção que ligasse o comportamento de Trump com eventual financiamento russo para cumprir determinada função. Ele simplesmente avaliou esse mesmo comportamento à luz dos efeitos reais que produzem, e esses pareciam ser bastante favoráveis à Rússia até aquele momento.
Mesmo que aparentemente uma intervenção americana na Venezuela signifique desmontar ou dificultar uma conexão com Moscou, o simples fato de um país invadir o território de outro para realizar uma prisão justifica, aos olhos de Putin, sua incursão dentro do território ucraniano. Para quem não se lembra, a agressão contra a Ucrânia é chamada pela Rússia de uma simples Operação Especial. Os americanos deram o nome para a ação militar, que matou mais do que 70 agentes armados, de uma simples ‘operação de prisão’ do ditador venezuelano.
Há quem veja no comportamento do trumpismo, no entanto, algo além de manipulação e perceba nele um alinhamento claro com a faceta mais evidente dos autocratas: a guerra. O desmonte da política externa americana para atender a um ideal de força para além do que determina a lei internacional sem nenhuma vergonha de seus promotores de admitir isso coloca os Estados Unidos no mesmo patamar de nações imperialistas e autocráticas como Rússia e China.
A falta de clareza quanto ao que fazer no dia seguinte à prisão do ditador venezuelano evidencia o caráter errático de Trump. Os Estados Unidos estarem sendo levados a reboque deste tipo de comportamento acende o alerta do mundo que ainda acredita em regras de conduta. Trump é só um ativo russo ou, principalmente, é um agente da guerra?



