Atravessando uma nova idade das trevas
E preparando a quarta onda de democratização
Primeira versão. Este texto poderá ser modificado a partir da interação dos leitores.
Estou há trinta dias escrevendo e reescrevendo este texto, assaltado constantemente por dúvidas sobre qual seria a impressão geral que ele passaria. Explica-se. Ninguém gosta de ser mensageiro de notícias ruins. Nem de se parecer com um anunciador de tragédias, correndo risco de ter o mesmo destino de Cassandra. Como conta Homero, essa princesa de Troia, filha de Príamo e Hécuba, foi amaldiçoada por Apolo por ter resistido às suas investidas amorosas. A maldição: suas previsões seriam sempre corretas, mas ninguém jamais acreditaria nelas. Com efeito, ela profetizou a queda de Troia, a morte de Agamenon e diversos desastres e mortes durante e após a guerra. Mas por causa da maldição divina, ela era vista como louca e suas advertências eram ignoradas.
Eis-nos agora em condição semelhante, tendo que anunciar o provável advento de uma idade das trevas do ponto de vista da democracia.
A maioria das pessoas não acreditará nisso, assim como não acreditou no que sobreviria à Europa e ao mundo na década de 1930. As pessoas não poderiam imaginar que teríamos, no mesmo tempo de uma década e na meia década que a seguiu, a grande depressão, as fomes em massa ceifando milhões de vidas na União Soviética (Holodomor, na Ucrânia, no Cazaquistão e em outras regiões) e as fomes na China, a invasão japonesa da China e o massacre de Nanquim, a guerra civil espanhola, a ascensão do nazismo e a perseguição dos judeus na Alemanha e em outros países culminando no Holocausto, o grande terror stalinista e a segunda grande guerra mundial. No conjunto, não foi desgraça pequena. O saldo total dessas tragédias ultrapassa 100 milhões de mortos em 15 anos.
Os acometidos por cegueira voluntária - céticos ou super-otimistas, nefelibatas ou pollyannas - dirão que nada de tão trágico pode jamais acontecer. Que é um exagero alertar para a recessão democrática, a desconexão e a desconsolidação democráticas ou que não há nenhuma onda de autocratização em curso. Acusarão os que chamam a atenção para esses perigos de não entender direito ou de não apostar suficientemente na democracia, o que os levaria a duvidar da capacidade dos regimes democráticos de se recuperar por seus próprios meios. Paradoxalmente, os democratas descrentes têm uma crença: a democracia sempre vence no final; e se isso não está acontecendo é porque ainda não chegamos ao final.
Ainda há os que não valorizam a democracia e, assim, não se preocupam se ela está regredindo no mundo. E, por último, os que não sabem bem do que se trata. Esses últimos são a maioria. Normal. Os democratas sempre foram minoria.
Entretanto, não se trata aqui de profecia e sim de reconhecimento do estado da democracia no mundo; ou melhor, do curso do processo de democratização nos Estados e sociedades ao redor do globo.
Atualmente, quando falamos de democracia, parece que estamos falando grego. As pessoas não entendem porque acham que essa não é uma questão. Para elas o assunto está resolvido: democracia é eleição e pronto. É troca de governo sem derramamento de sangue (de acordo com as leis, é claro). Discutir mais o quê?
Aliás, Clístenes, Efialtes, Péricles, Aspásia e Protágoras - os principais agentes conhecidos da primeira democracia, que não era baseada em eleição - falavam grego de verdade. E também não foram assim tão bem-entendidos pelos nativos do idioma. Embora a primeira democracia tenha durado quase 200 anos, os democratas sempre foram minoria em Atenas. É o que se pode inferir de todos os relatos. Nem os historiadores Heródoto e Tucídides entenderam bem o que era a democracia. Talvez escapassem alguns artistas, como Ésquilo e, mais duvidosamente, Eurípedes.
E, dois milênios depois, os democratas continuaram sendo minoria quando a democracia fez acenos de que ia renascer:
no parlamento inglês dos Bill of Rights do século 17,
na revolução americana do século 18,
na revolução francesa também do século 18 (onde parece que o único democrata identificável era um americano em missão diplomática: Thomas Jefferson).
Até que a democracia renasceu de fato com o primeiro regime liberal que surgiu na mundo, na Suíça do século 19 (em 1849). E depois, na condição de democracia liberal ou apenas eleitoral: na Austrália (em 1858), na França (em 1874), na Nova Zelândia (em 1887), na Dinamarca (em 1902), na Islândia (em 1904), na Noruega (em 1906), na Holanda, na Finlândia e na Argentina (em 1918), na Inglaterra e na Alemanha (em 1919), no Uruguai (em 1920), nos Estados Unidos e no Canadá (em 1921) (1). Durante toda essa primeira onda de democratização, os democratas foram minoria.
Bem... depois vieram mais duas ondas de democratização. Na segunda onda de democratização (1945-1961) tivemos a derrota do nazifascismo com a conversão das autocracias fechadas do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) à democracias. E, na terceira e última onda (1989-1999) tivemos o período talvez mais brilhante das democracias que começa, simbolicamente, com a queda do muro de Berlim (em 1989), se consuma com a bancarrota da União Soviética (1991) e a conversão à democracia eleitoral das autocracias fechadas do Leste europeu. Por incrível que pareça, em todas essas ondas de democratização (de declínio de regimes autocráticos ou de expansão dos regimes democráticos), os democratas continuaram sendo minoria.
Mas como isso é possível? Como podem ter surgido todas essas democracias, estando sempre em minoria os agentes democráticos?
Pois é, os democratas eram minoria, mas em número suficiente para fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática (sim, os agentes democráticos são o fermento, não a massa). Eis que temos agora um problema (no Brasil e em outros países): não conseguimos alcançar esse número mínimo.
Como não há democracia sem democratas (já dizia o saudoso Ralf Dahrendorf) esse é o principal problema que temos pela frente.
Ondas de democratização e autocratização
Entretanto, observa-se historicamente que depois de toda onda de democratização vem (ou veio, pelo menos até agora) uma onda de autocratização. Depois da primeira onda de democratização tivemos a primeira onda de autocratização (1922-1944) com a ascensão dos totalitarismos (o fascismo e o nazismo, que vão até 1945 e o stalinismo, que se prolonga até 1953). Foi no meio dessa onda que o mundo experimentou uma década de trevas (1934-1944) (2). Desnecessário dizer que os democratas se tornaram uma minoria ainda mais exígua durante a primeira onda de autocratização.
Depois da segunda onda de democratização veio, igualmente, uma segunda onda de autocratização (1962-1988), marcada pela primeira grande guerra fria (3). E os democratas - como é óbvio - minguaram ainda mais durante a segunda onda de autocratização.
Sim, isso foi um problema. Mas o problema - ainda maior do que todos os já mencionados aqui - é que depois da terceira onda de democratização veio uma terceira onda de autocratização que vai se avolumando rapidamente.
A terceira onda de autocratização começa, mais visivelmente, no início deste século. É a onda de ascensão dos novos populismos do século 21 como principais adversários da democracia liberal e da segunda grande guerra fria, no formato de netwar (a nova forma de guerra em uma sociedade em rede) (4).
Não é uma hipótese especulativa. Isso está acontecendo. Para entender o que está acontecendo talvez seja necessário espancar com mais vigor aquela porção pollyanna que se esconde em cada um de nós. Examinemos dois exemplos recentes que têm alimentado os esperançosos e otimistas inveterados. A derrota eleitoral de Viktor Orbán não interrompe a terceira onda de autocratização em curso. Assim como uma possível derrota de Trump nas próximas eleições legislativas não interromperá. Os alertas sobre a recessão democrática não são exagerados. São reais.
Não adianta brigar com os números. Por volta de 2005 o número líquido de democracias no mundo parou de crescer (o que foi chamado de recessão democrática). Naquela época 50% da população mundial viviam em autocracias. Em 2025, 74%. Em 2005 50% da população mundial viviam em democracias. Em 2025 apenas 26%. As porcentagens podem variar de acordo com os diferentes rankings (e indicadores) de democracia (se da Freedom House, da The Economist Intelligence Unit, do V-Dem ou de outro instituto qualquer), mas não se afastam muito desses números. Wishful thinking é gostoso. Mas é preciso cair na real. E a situação real é ilustrada no mapa abaixo, em que as raras manchas verdes estão diminuindo, não aumentando, sobretudo nos grandes países, mas também nos médios. E não só, como veremos a seguir.
Não adianta dourar a pílula. A situação, definitivamente, não é boa para a democracia. Segundo a The Economist Intelligence Unit, restou apenas uma democracia plena entre os dezesseis países com mais de 100 milhões de habitantes: o Japão; e não há nenhum indício de que os quinze restantes vão se converter em democracias plenas nos curto ou médios prazos. Dos 48 países com populações majoritariamente muçulmanas, mais de 80% são autocracias; nada indica que essa porcentagem vá se modificar significativamente nos curto ou médio prazos; pelo contrário, tende a aumentar. Dos 51 países atualmente em guerra (considerando conflitos armados com mais de mil mortes anuais ou crises humanitárias graves), mais de 80% são autocracias; e isso só tende a piorar. Dos cerca de 65 países com sistemas de governo presidencialistas plenos, a maioria é de autocracias; isso também não vai mudar nos curto ou médio prazos.
A tendência é que a democracia dos modernos, implantada em cada país como regime político, além de suas crises internas, não consega resistir por muito tempo à ausência de uma ordem internacional liberal (que está sendo desmontada, ao que parece de modo irreversível nos curto e médio prazos, pelo eixo autocrático e pelos EUA sob Trump). E que a democracia como modo de vida, experimentada aqui e acolá por comunidades territoriais e setoriais, também não resistirá muito tempo à autocratização nos Estados-nações onde se localizam essas comunidades - a menos que as redes de agentes democráticos se configurem de novas maneiras e que esses agentes adotem outros comportamentos. Este artigo é sobre isso.
Precisamos cair na real
Cair na real aqui é perceber que são grandes as chances de estarmos entrando numa nova idade das trevas do ponto de vista da democracia. Não é inédito. Já tivemos várias idades das trevas na história, quando ainda nem existia democracia, mas nas quais foram gerados padrões autocráticos (míticos, sacerdotais, hierárquicos e autocráticos) que se replicam até hoje (5). É inegável, porém, que tivemos, em época recente, uma década das trevas no século 20: 1934-1944 (da ascensão de Hitler ao final da segunda guerra mundial) dentro da primeira onda de autocratização caracterizada pela ascensão dos totalitarismos (1922-1944).
Talvez o que venha agora, dentro da terceira onda de autocratização, seja não apenas uma década de trevas, mas algo muito mais profundo e duradouro. Ao que tudo indica não é um processo que vai se reverter pelos mecanismos usuais de correção das democracias. Quem acha que basta ter um bom candidato democrata que, no próximo pleito, vai mudar tudo por um golpe de sorte eleitoral, não entendeu da missa a metade. Claro que ajuda ter bons candidatos democratas disputando eleições. Mas mesmo para que isso seja possível, em quantidade suficiente, temos que ter uma massa crítica de agentes democráticos na sociedade. Se não tivermos, como ocorre neste exato momento no Brasil e em outros países imersos na terceira onda de autocratização, isso é um sinal de que não alcançamos essa massa crítica.
Só haverá uma quarta onda de democratização se restarem democratas em número suficiente para, mesmo sendo minoria: a) se opor e resistir a qualquer tirania, seja dita de esquerda ou de direita, religiosa ou laica; b) recusar a guerra (ou não praticar a política como continuação da guerra por outros meios): repudiar o majoritarismo, o hegemonismo e o "nós contra eles", pois política não é guerra e sim evitar a guerra; e c) fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática.
Atenção! Quem faz essas coisas (descritas no parágrafo anterior) é um agente democrático, não apenas um eleitor que diz preferir democracia à ditadura. Quando falamos que os democratas são e sempre foram minoria isso significa que os agentes democráticos (o fermento na massa) são minoria, não que as pessoas que declaram preferir a democracia são minoria.
O que fazer?
Então, para dar continuidade a esta conversa, o leitor pode tentar responder àquela célebre pergunta de Vladimir Ilyich Ulianov (que não gostava de democracia): o que fazer? Podemos elencar agora algumas pistas para tentar dar uma resposta a essa questão.
I - Conexão, interação, conversação constante
Os democratas devem se manter conectados (e interagindo) presencialmente ou por meios virtuais. Mais do que de raízes, os democratas precisam de antenas: para buscar os seus sense8s. Tomamos aqui como metáfora a série das irmãs Wachowski (2015-2018), na qual oito pessoas, de diferentes lugares do planeta, formam um “cluster” de sensates. Eles e elas podem então sentir as emoções uns dos outros. A metáfora é relevante porque a conversão à democracia não é somente (e talvez nem principalmente) uma escolha racional. Há sempre uma motivação emocional primária que leva a isso, uma insuportabilidade com o modo de vida autocrático, com a guerra e a hierarquia. Encontrar os sense8s é então estabelecer conexões com pessoas que manifestam o mesmo emocionar.
Uma vez detectada uma sintonia emocional entre duas ou mais pessoas está feita a conexão entre elas. A partir daí essas pessoas devem interagir regularmente. Conversar, conversar sempre, não parar de conversar sobre democracia. A democracia é uma rede de conversações: assim nasceu, assim renasceu, assim ainda se mantém. Se a conversação democrática parar, a democracia acaba.
II - Variedade de sistemas congruentes e redundantes de comunicação autônoma
Os democratas devem ter seus próprios veículos de comunicação (sites, portais, blogs, substacks, plataformas) e neles publicar regularmente. Grandes meios de comunicação, estatais ou comerciais, controlados por governos iliberais (autoritários ou populistas) ou mesmo por algumas corporações (como as chamadas, um tanto incorretamente, de MAGA Techs), não vão dar muito espaço para democratas. Os meios de comunicação comerciais que ainda precisarem, por razões de mercado ou outras, dar mostras de admitir pensamentos divergentes, manterão um ou dois desviantes nos seus planteis de jornalistas ou comentaristas; e só. Nesse veículos da imprensa tradicional, os agentes democráticos serão contados nos dedos de uma mão. Já é assim, aliás.
Então é preciso multiplicar os marketplaces de democracia. Um marketplace, como se sabe, é um shopping virtual que reúne múltiplos vendedores e marcas em um único site ou aplicativo. Funciona como um intermediário digital onde diversos lojistas anunciam seus produtos, e o cliente pode comprar de diferentes vendedores em um mesmo carrinho, centralizando tráfego e pagamentos. A mesma coisa deve acontecer com a democracia. Cada veículo democrático deve ser um marketplace dando acesso imediato a outros veículos democráticos, formando grandes “nuvens” de interpretadores do que está acontecendo do ponto de vista da democracia liberal. Mas isso não basta, como veremos a seguir.
III - Plataformas interativas de inteligência democrática (com IA)
Os veículos de comunicação dos democratas devem fazer parte de agregadores (portais ou aplicativos) onde seja possível acessá-los, resumí-los e comparar publicações (com o auxílio de Inteligência Artificial).
Cada grupo de democratas deve construir a sua própria “contextopedia”, na forma de chatbots e agentes IA autônomos abastecidos com as obras referenciais do pensamento democrático. Cada comunidade de democratas que fizer isso terá a sua própria lista de obras fundamentais, ou seja, a sua linha de “tradição” democrática escolhida, o que pode incluir, além dos textos que sobreviveram da primeira democracia (dos séculos 5 e 4 a.C. em Atenas (6), de Althusius e Spinoza a Diamond e Fukuyama, passando - entre outros - por Locke, Montesquieu, Costant, Rousseau, Jefferson, Madison e os Federalistas, Paine, Tocqueville, Mill, Dewey, Popper, Arendt, Berlin, Dahl, Lefort, Bobbio, Havel, Castoriadis, Jacobs, Maturana, Dahrendof, Rawls, Putnam, Linz, Huntington, Manin, Sen e Rancière (7).
Além disso, os democratas - sem abandonar as mídias sociais atuais - devem adotar (ou construir) plataformas e aplicativos que facilitem a interação democrática e viabilizem o netweaving nas redes de democratas (quer dizer, de agentes democráticos). Programas de mensagens, como WhatsApp e Telegram, podem continuar sendo usados, mas são inadequados para permitir a articulação e animação de verdadeiras redes sociais (não mídias sociais) de democratas (8).
Sim, os agentes democráticos são netweavers. E o netweaving de redes humanas (de democratas) agora deve ser feito virtualmente e presencialmente.
IV - Comunidades políticas democráticas
Os democratas não podem ser espécies de empresários individuais da política, ou seja, agentes políticos sem comunidade política, mas devem articular e animar comunidades políticas democráticas. Agentes democráticos não surgem fora de comunidades políticas democráticas (9).
Por isso se diz que a democracia é uma rede de conversações. Não importa se uma rede (a comunidade política) tenha três, trinta ou trezentos nodos (pessoas): sem ela, ninguém se tornará um agente democrático; ou seja, não será capaz de desempenhar aquelas funções já mencionadas aqui. Provavelmente será desviado por algum interesse individual ligado à sua atividade ou carreira política e fará muitas concessões para sobreviver, se destacar e prosperar como um ator político. O risco é se transformar num íon social vagando num meio gelatinoso - como são muitos atores políticos que deixaram de atuar (ou nunca atuaram) como agentes democráticos, sempre tentando levar alguma vantagem. A correção de rumo tem de ser feita continuamente e só uma comunidade política é capaz de fazer isso (10). Os agentes democráticos - e suas comunidades políticas - são ilhas na rede. O grande desafio colocado para essas ilhas é como encontrar e reconhecer outras ilhas semelhantes, se conectar e interagir com elas.
V - Novas redes locais
As comunidades políticas democráticas devem atuar no espaço público, seja em territórios ou setores de atividade. O objetivo aqui é articular redes locais, onde novos agentes democráticos podem ser formados. Ninguém muda de comportamento, passando a ser um agente democrático, se não mudar de rede. Sempre é bom repetir um trecho do artigo sobre as comunidades democráticas do futuro (já citado acima como referência):
Não adianta tentar convencer pessoas envolvidas em interações adversariais (como é próprio num ‘estado de guerra’ como o que já estamos no mundo) a mudarem de opinião. Adaptando o que escreveu James Clear (2018) (11), em “Por que os fatos não mudam nossas mentes”, convencer uma pessoa a mudar de opinião é, na realidade, convencê-la a mudar de tribo. Se alguém abandona as suas crenças corre o risco de perder também seus laços sociais. Você não pode esperar que alguém mude de ideia se você tira a sua comunidade. Você tem que mostrar a essa pessoa que existem outros lugares para ir. Ninguém quer que sua visão de mundo seja destruída se o resultado disso for a solidão. Uma pessoa só muda de opinião se mudar os seus relacionamentos, se conectando a novas redes e passando a interagir nelas recorrentemente. Só assim essa pessoa pode mudar suas crenças sem o risco de ser abandonada socialmente.
Onde está a saída? Fazer ou quebrar links locais. Os links locais regulam o mundo - como descobriu a Deborah Gordon (2018), estudiosa das redes e do comportamento das formigas, em “Os links locais regulam o mundo”:
“O padrão de ligações na escala local define as opções para estabilidade e transformação. Quase tudo o que acontece na vida é o resultado de uma rede. Fazer ou quebrar ligações locais: esta é maneira de mudar” (12).
VI - Módulos sociais de sobrevivência
As comunidades políticas democráticas devem construir “módulos sociais de sobrevivência” ou seja, módulos de sobrevivência baseada em convivência. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Então é preciso se preparar para o pior.
A questão não é que os agentes democráticos não conseguirão atuar de alguma maneira e sim que eles não conseguirão sobreviver se na terceira onda de autocratização vier uma idade das trevas semelhante àquela da década de 30 do século 20. Não que serão necessariamente presos ou enviados para campos de concentração e sim que, não tendo espaços para agir, também não terão remuneração para realizar qualquer trabalho ligado às suas posições ou convicções. Será possível sobreviver, mas não em uma ocupação própria de um agente político democrático. Isso nos melhores cenários. Nos piores, depedendo dos regimes políticos dos países onde vivem, os democratas poderão ser perseguidos, banidos, presos, torturados e mortos (como já acontece em vários lugares, da Venezuela ao Irã, passando pela Rússia e pela China).
Com o recrudescimento da terceira onda de autocratização muitos agentes democráticos poderão ter um final de vida trágico como o de Walter Benjamin, sem emprego e sem ter onde morar, dependendo exclusivamente da ajuda de amigos democratas (ou, no caso, mais antifascistas do que democratas) para sobreviver. A ajuda-mútua sempre será essencial. Mas é preciso se preparar para que essa alternativa - sobrevivência em comunidade - não seja tão precária que leve ao suicídio ou à morte por falta de pronta assistência médica, de abrigo seguro ou de alimentação adequada.
Não é possível desprezar esses riscos, que são reais para a imensa maioria da população do planeta. Imagine-se o que é tentar ser um agente democrático na Rússia, na Bielorrússia, na China, na Coreia do Norte, no Vietnam e no Laos, no Cazaquistão ou em outras ditaduras da Ásia Central, no Irã, no Afeganistão, em Angola em em outras ditaduras africanas, em El Salvador, em Cuba, na Venezuela ou na Nicarágua. Se juntarmos a esse conjunto (o eixo autocrático) as autocracias eleitorais da Índia, do Paquistão e da Turquia, teremos boa parte da população mundial que já vive em uma idade das trevas do ponto de vista da democracia. Claro que, em algumas circunstâncias, é possível se livrar disso deixando de ser um agente democrático ou, correndo mais riscos, sendo um agente democrático clandestino ou secreto (vivendo uma vida dupla) - mas isso também restringe o campo de atuação dos democratas (13).
Uma comunidade política democrática é um sistema social. Partamos do que dizia Maturana: um sistema social conserva a vida dos membros (14). É uma responsabilidade dos democratas manter os seus parceiros de comunidade vivos e com condições de atuar politicamente. Não é cada um por si. Se for, os agentes democráticos desaparecerão do mundo (e, com eles, a própria democracia). A solidariedade começa em casa e as comunidades democráticas são casas da democracia.
VII - Indicadores sociais de democracia como modo-de-vida
Desenvolver e aplicar (global e localmente) novos indicadores e índices sistêmicos de democracia mais baseados em capital social do que em atributos formais da democracia como regime político (por exemplo, direitos políticos e liberdades civis). A democracia é o jogo, não apenas as regras do jogo. E o jogo é jogado, fundamentalmente, na sociedade. É a polis - não a cidade-Estado, mas a koinonia (comunidade) política, a morfologia e a dinâmica da rede de democratas, não o Estado democrático de direito com suas leis e seus atributos. Mas como isso quase nunca é medido, as pessoas se desinteressam pela democracia porque julgam que não concerne às suas vidas, sendo assunto para os profissionais da política.
Nossas coinspirações
Sterling, Cahill, Benda e Havel, e as irmãs Wachowski, são inspirações para a resistência democrática durante uma possível idade das trevas que se avizinha com o recrudescimento da terceira onda de autocratização. Fornecem material para uma co-inspiração democrática como defesa contra qualquer conspiração autocrática. Mais, porém, do que resistência e defesa: experiência de liberdade, experimentação, ensaio, usinagem de novos padrões democráticos.
Ilhas na rede. Em Islands in the Net, Bruce Sterling (1988) explora um futuro globalizado e saturado pela “Net”, uma rede mundial de dados que dita a economia e a vida social. O tema principal é a tensão entre os centros de poder tecnológico e as “ilhas” — locais na periferia (física ou digital) que tentam operar fora do controle das grandes corporações ou que buscam criar novos tipos de infraestrutura e governança. A obra antecipa um mundo onde a realidade única se estilhaça em diversos “clusters” ou bolhas sociais. O livro serve como metáfora para o presente: navegamos em um oceano de ilhas (bolhas) que podem ser tanto espaços de inovação democrática quanto ninhos de autocracia e jihadismo. Sterling anteviu o poder das grandes corporações (como as atuais MAGA Techs), mas não dos Estados autocráticos que estão movendo uma netwar (guerra antissocial) contra as democracias liberais.
Mosteiros irlandeses. Em Como os irlandeses salvaram a civilização, Thomas Cahill (1995) faz um fascinante e surpreendente relato de um episódio virtualmente ignorado nos anais da civilização ocidental. Entre a queda de Roma (476) e a ascensão de Carlos Magno (768) – período que ficou conhecido como a “Idade das Trevas” – o aprendizado, a erudição e a cultura simplesmente desapareceram do continente europeu. Foram três séculos de escuridão. O grande legado da civilização ocidental teria sido inteiramente perdido não fosse a intervenção crucial dos monges da Irlanda. A narrativa brilhante de Cahill detalha o papel fundamental dos irlandeses na preservação e transmissão da literatura clássica dos gregos e romanos. Enquanto o outrora vasto Império Romano se desintegrava em caos e ruína, durante o século 5, o analfabetismo tornou-se padrão, as grandes bibliotecas continentais desapareceram e o saber erudito deixou de existir. Trabalhando nas margens da Europa, na Irlanda, “ilha dos santos e estudiosos”, longe dos saques ocorridos no continente, os recém letrados escribas irlandeses começaram uma tarefa monumental: copiar cada pedaço da literatura ocidental que pudessem descobrir. Além de preservarem esta valiosa herança cultural, os monges irlandeses no exílio, inspirados por São Patrício, restabeleceram a leitura no continente, criando uma ponte crucial entre a Roma antiga e a Europa medieval. Os irlandeses, portanto, não apenas salvaram a civilização, mas se tornaram formadores da mentalidade medieval, colocando sua marca singular na cultura do Ocidente (15).
Polis Paralela. Em O Poder dos Sem-Poder, Vaclav Havel (outubro de 1978) (16) comentou o conceito de Polis Paralela proposto por Vaclav Benda (maio de 1978) (17). As Poleis Paralelas (ou Estruturas Paralelas) surgiram como um conceito fundamental da resistência dissidente na Tchecoslováquia comunista. Em vez de tentar derrubar o regime autoritário (pós-totalitário) por meio de uma revolução violenta ou de reformas políticas internas — que pareciam impossíveis na época —, eles propuseram a criação de estruturas sociais independentes que funcionassem paralelamente às instituições oficiais do Estado. A estratégia não buscava o confronto direto, mas sim o desengajamento. O objetivo era viver “dentro da verdade”, ignorando as mentiras do sistema oficial. Para tanto, Benda e Havel propunham empreender uma Educação Paralela (organização de seminários privados e “universidades de apartamento” para ensinar história, filosofia e literatura que eram proibidas ou distorcidas pelo Estado); Cultura e Arte Paralelas (produção de literatura clandestina (Samizdat), concertos de bandas de rock proibidas e exposições de arte em porões e casas particulares); Economia Paralela (troca de bens e serviços fora do controle estatal, baseada na confiança mútua e na necessidade); Informação e Mídia Paralelas (canais de comunicação independentes para circular notícias reais sobre o que acontecia no país e no mundo, combatendo a propaganda oficial). Não se tratava apenas de resistência civil à ditadura, mas de criar ambientes onde era possível experimentar a liberdade dentro de uma sociedade fechada pelo Estado autoritário. Possivelmente haverá muitos isomorfismos entre a sociedade pós-totalitária tcheca e o que serão as sociedades não-democráticas da terceira onda de autocratização.
Sense8s. Na série de TV Sense8s (ou sensates), da Netflix, Lana Wachowski e Lilly Wachowski (2015-2018) narram a história (do futuro) de oito estranhos de diferentes partes do mundo (São Francisco, Londres, Berlim, Nairóbi, Mumbai, Seul, Cidade do México e Chicago) que, de repente, descobrem que estão mental e emocionalmente conectados. A pertinência (e a potência) da metáfora já foi assinalada anteriormente.
Epílogo: o início está próximo?
Os Anonymous anunciam: The beginning is near. Mas quão próximo estará esse novo começo para a democracia?
Não, infelizmente, esse novo começo não parece estar próximo. A não ser que encaremos o início como o começar a fazer o que deve ser feito agora para preparar o advento de uma nova onda de democratização. Mas uma quarta onda de democratização não ocorrerá se a democracia não for reinventada pela segunda vez. Eis o tema de um próximo artigo.
Notas
(1) Usamos aqui - e ao longo de todo o texto - a classificação do V-Dem Institute, a partir do mapa dinâmico Our World in Data. Há uma limitação: todo estudo retroativo é anacrônico, pois conceitos que fazem sentido hoje podem não fazer (o mesmo sentido) no passado.
(2) No final desse período (1944) restam apenas sete democracias liberais no mundo: Islândia, Suécia, Suíça, Reino Unido e Irlanda, Austrália e Nova Zelândia. Pouquíssimas também eram as democracias eleitorais: apenas quatro – Canadá, EUA, Uruguai e Finlândia. Na América do Sul e na América Central restou apenas uma democracia. Na Europa, cinco democracias liberais e uma eleitoral. Na África, nenhuma democracia. Na Ásia e Oriente Médio nenhuma democracia. A exceção de sempre é a Oceania, com suas duas democracias liberais (Austrália e Nova Zelândia).
(3) O mundo então se polarizou em dois blocos (EUA x URSS) e tivemos a revolução chinesa de 1949; a guerra da Coréia em 1950 e a divisão das duas Coréias em 1953; a criação da Otan em 1949 e do Pacto de Varsóvia em 1955; a revolução cubana em 1959; a ereção do muro de Berlim em 1961; a guerra do Vietnam entre 1959 e 1975; a crise dos mísseis em Cuba em 1962; o surgimento de regimes militares na América Latina e em outras regiões do mundo – na América do Sul esse ciclo, que foi iniciado no Brasil em 1964, disseminou várias ditaduras militares pela região, chegando à Bolívia (1964), à Argentina (1966, e depois 1976), ao Chile e ao Uruguai (1973); por último, a guerra do Afeganistão entre 1979 e 1989.
(4) São eventos associados à terceira onda de autocratização: a subida ao poder na Rússia de Vladimir Putin em 1999-2000; a ascensão do jihadismo ofensivo islâmico, o atentado terrorista ao WTC (2001), a guerra contra o terror e o unilateralismo em política externa por parte dos EUA (sob o segundo governo Bush); o surgimento do populismo de esquerda na América Latina levando a autocracias eleitorais (Venezuela, Nicarágua) e à regimes eleitorais parasitados por forças políticas não-liberais (Bolívia, Equador, El Salvador, Paraguai, Honduras, Argentina, Peru, México, Brasil); a ascensão do populismo-autoritário de extrema-direita (Cinco Estrelas e Lega de Salvini, Le Pen, Brexit, Trump, Bolsonaro e consolidação de autocracias eleitorais de extrema-direita na Hungria, Turquia e Índia); o início da formação de um novo eixo autocrático (juntando autocracias fechadas e eleitorais como Cuba, China, Rússia, Irã, Síria, Venezuela, Nicarágua, Hungria, Turquia, Índia) além de regimes eleitorais parasitados por populismos de esquerda e de extrema-direita, com tendência a instaurar uma segunda grande guerra fria de longa duração; a invasão da Ucrânia pela ditadura russa (em 2014 e, mais amplamente, em 2022) e a formação de uma coalizão das democracias liberais para conter o avanço do novo eixo autocrático; o pogrom de 7 de outubro de 2023 do Hamas em Israel, a guerra em Gaza, a ofensiva do Irã, via seus braços terroristas e diretamente, contra Israel e EUA e seus aliados e a atual guerra do Irã.
(5) Pode-se especular, com bases em alguns evidências historiográficas, conquanto incertas, que tivemos um idade das trevas na Suméria: 4.000-2.000 a.C. (da formação do estamento sacerdotal com a ereção do Estado-Templo à queda das cidades-Estado como Ur e Uruk); uma idade das trevas na Europa Antiga: 4.000-1.000 a.C. (do surgimento dos kurgans ou da cultura Yamna e da sociedade proto-indo-europeia à Idade das trevas na Grécia); uma idade das trevas na Grécia: 1150-800 a.C. (do final da civilização micênica e a invasão dória ao florescimento das cidades-Estado gregas); e uma idade das trevas na Europa: 476-768 (da queda de Roma à ascensão de Carlos Magno).
(6) E não sobrou nenhum texto teórico democrático, apenas relatos de historiadores e menções. Desgraçadamente, sobreviveram muitos textos teóricos antidemocráticos (como um panfleto do velho oligarca, ou Pseudo-Xenofonte e as obras quase inteiras de Xenofonte e de Platão - pró-espartanos e adversários da democracia). Aí veio Aristóteles e seu sucessor Teofrasto, que não entenderam bem do que se tratava – ou entenderam e censuraram, excluindo os escritos democráticos, como os dos sofistas, da sua tradição doxográfica; de sorte que, dos séculos 5 e 4, não temos nada.
(7) Um exemplo desse tipo de referencial democrático pode ser encontrado no artigo de 15/02/2026 que define a revista Inteligência Democrática: Nosso referencial democrático.
(8) Há plataformas do tipo Circle (focadas em comunidades online privadas, com feeds, discussões, membros pagos, cursos, memberships e engajamento), algumas mais adequadas e outros menos para o propósito do netweaving de redes de agentes democráticos: Might Networks, Skool, Kahabi, Podia, Bettermode (ex-Tribe), Disciple, BuddyBoss, Discord, Slack, Thinkific, Hiberbrite. Mas talvez nenhuma delas sirva e então cabe a cada comunidade política criar a sua, na sua medida.
(9) Isso já foi explicado no artigo de 11/07/2025 do autor et al. As comunidades democráticas do futuro e seria ocioso repetir aqui as mesmas argumentações.
(10) Isso já foi explicado no artigo de 19/03/2026 do autor O agente político sem comunidade política.
(11) Cf. James Clear (2018). “Why facts don’t change our minds”. James Clear.com (janeiro de 2018). Disponível em <https://jamesclear.com/why-facts-dont-change-minds>
(12) Cf. Deborah Gordon (2018). “Local links run the world”. Aeon, 01/02/2018. Disponível em <https://aeon.co/essays/the-most-important-connection-in-any-network-is-the-local>
(13) O autor deste artigo (e vários de seus companheiros, colegas e conhecidos) viveu assim durante um período da ditadura militar no Brasil.
(14) “É constitutivo de um sistema social o fato de que seus componentes sejam seres vivos…” Um sistema social só se constitui se estes seres vivos, no processo de integrá-lo, conservarem nele sua organização e adaptação. “Por isso, qualquer tentativa de caracterizar um sistema social de uma maneira que desconheça que a conservação da vida de seus componentes é condição constitutiva do seu operar está equivocada e especifica um sistema que não gera os fenômenos próprios de um sistema social. Assim, por exemplo, um conjunto humano que não incorpora a conservação da vida de seus membros como parte de sua definição operatória como sistema, não constitui um sistema social”. Cf. Maturana, Humberto (1985). Biología del fenómeno social in Maturana, Humberto (1985). Desde la Biología a la Psicología. 3. ed. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1996.
(15) Com algumas modificações este parágrafo reproduz uma breve resenha da Amazon.
(16) Cf. Václav Havel (1978). O Poder dos Sem-Poder.
(17) Cf. Václav Benda (1978). Polis Paralela.






