Mandar dá um trabalho danado.
Quem depende apenas de ordens precisa vigiar, cobrar, punir, corrigir, repetir instruções e descobrir o que fazer com toda pessoa que resolve não obedecer. É um poder caro, barulhento e, no fundo, bastante rudimentar. Há sempre alguém que precisa dizer “faça isso”, outro que precisa ouvir e uma possibilidade incômoda de que a resposta seja “não”.
O poder fica muito mais eficiente quando já não precisa mandar o tempo inteiro porque conseguiu interferir numa camada anterior. As pessoas começam a saber, antes que qualquer ordem seja dada, que tipo de coisa pode ser dita sem parecer absurda, de quem uma explicação será aceita, que dúvida demonstra inteligência e qual revela deslealdade, quem pode nomear um problema e quem será imediatamente transformado no próprio problema assim que tentar fazê-lo.
Nesse ponto, já estamos falando de alguma coisa maior do que autoridade.
Uma autoridade pode decidir, pode coordenar, pode inclusive mandar, dentro de certos limites, porque nenhum mundo social funciona se toda decisão precisar retornar ao ponto zero e ser refeita por todas as pessoas envolvidas. Uma cirurgia não é uma assembleia, uma empresa precisa assinar contratos, um maestro precisa começar a música em algum momento e até o grupo de amigos precisa descobrir quem vai reservar a mesa, sob pena de morrer de fome numa discussão altamente democrática sobre restaurantes.
O problema começa em outro lugar: quando a autoridade que recebeu poder para decidir uma coisa passa a se comportar como se tivesse recebido também o direito de definir a realidade dentro da qual todas as coisas poderão ser decididas.
Essa passagem é muito mais séria.
Se alguém decide o horário de uma reunião, exerceu autoridade. Se passa a decidir também quem pode ser considerado razoável dentro dela, que experiência merece ser ouvida, que pergunta é legítima e que versão dos acontecimentos deverá valer mesmo quando contradita por quem estava presente, alguma coisa mudou de natureza.
É nesse ponto que começo a falar em monopólio da ontogênese.
E convém ser rigoroso aqui, porque a expressão pode dar a impressão errada de que um autocrata produz sozinho o mundo social que os outros apenas recebem. Isso seria contradizer quase tudo que venho dizendo desde Ontogênese. Nenhum rei, ditador, sacerdote, partido, empresário, Estado ou líder espiritual cria sozinho o mundo que governa. Até o tirano mais absoluto depende de gente obedecendo, acreditando, administrando, transportando, registrando, ensinando, repetindo, protegendo, financiando, temendo e atribuindo significado às coisas. Sem relações não há reino. Há apenas um homem usando uma coroa ridícula numa sala vazia.
O mundo continua sendo produzido entre pessoas.
O monopólio acontece quando um centro consegue apropriar-se da autoria de uma realidade que jamais produziu sozinho.
Essa talvez seja uma das operações políticas mais antigas da humanidade. Muita gente faz o mundo existir; alguém se apresenta como sua origem.
O senhor antigo fazia isso de uma maneira quase honesta de tão explícita. Sua posição vinha da linhagem, da conquista, da propriedade, da tradição, talvez de alguma combinação conveniente entre espada e genealogia. O mundo possuía uma ordem e ele aparecia no alto dela. Não precisava fingir horizontalidade, fazer pesquisa de clima ou anunciar no LinkedIn que acreditava profundamente em liderança servidora. Era senhor. Os outros sabiam.
Só que nem mesmo o senhor governava apenas pela força. Se precisasse manter todo mundo permanentemente sob ameaça de morte, seu mundo duraria pouco ou custaria caro demais. O domínio precisava ganhar sentido, tornar-se costume, entrar na linguagem e parecer razoável para um número suficiente de pessoas. Em algum momento, a posição daquele homem deixava de ser apenas resultado de uma violência anterior e começava a parecer parte da própria estrutura das coisas.
É aí que o sacerdote historicamente ganha uma função que vai muito além da religião. Não estou dizendo que religião seja autocracia, evidentemente. Seria uma simplificação preguiçosa, além de historicamente falsa. Tradições religiosas produziram também comunidades, resistência, cuidado, cultura, pensamento, arte e experiências humanas extraordinárias. O que me interessa é uma operação específica que pode acontecer dentro delas e fora delas: o monopólio da interpretação.
Quando existe uma realidade sagrada à qual somente alguns possuem acesso legítimo, a pessoa que interpreta essa realidade ganha um tipo especial de poder. Ela já não diz apenas o que deve ser feito. Pode explicar por que aquilo deve ser feito em nome de uma ordem que os demais não estão igualmente autorizados a interpretar.
Isso muda tudo, porque discutir com o sacerdote deixa de ser apenas discutir com uma pessoa. Você está discutindo com a verdade da qual ele se tornou representante.
Talvez essa seja uma das invenções mais eficientes da história do poder: retirar do governante a aparência de interesse particular e permitir que ele fale como porta-voz de alguma coisa maior do que ele. Deus, tradição, história, povo, ciência, mercado, nação, revolução, natureza, algoritmo. O nome muda bastante. A operação é surpreendentemente resistente.
A modernidade derrubou muitos altares e produziu uma quantidade respeitável de novos sacerdócios.
O partido pode ocupar esse lugar quando deixa de ser uma organização que disputa projetos para se imaginar intérprete privilegiado da história ou encarnação legítima do povo. Nesse momento, o adversário já não está apenas errado. Sua própria presença começa a parecer artificial, degenerada ou ilegítima. Se o partido representa o povo verdadeiro, quem está contra ele precisa ser explicado como alguém enganado, manipulado, vendido, alienado ou inimigo.
Repare na conveniência da operação. Você começa afirmando que representa as pessoas e termina explicando por que as pessoas que não o apoiam não representam nem a si mesmas.
O povo real vai sendo substituído por um “povo” teórico muito mais bem-comportado, aquele que pensa exatamente como deveria pensar se tivesse compreendido direito a própria condição.
É uma tentação poderosa porque resolve uma dificuldade irritante da política: gente concreta nunca cabe perfeitamente na teoria feita em seu nome.
A maioria também pode escorregar para esse lugar quando deixa de compreender a vitória como autorização temporária para decidir e passa a tratá-la como prova ontológica de que finalmente descobrimos quem é o verdadeiro povo. Vou voltar a isso com calma mais adiante, porque o majoritarismo merece uma reflexão própria. Por enquanto basta notar a mudança: contar mais votos concede poder para governar dentro de uma democracia; não transforma metade mais um numa espécie de manifestação estatística da verdade.
O número resolve uma decisão, todavia, não deveria resolver quem tem direito ao mundo.
A elite técnica pode chegar ao mesmo lugar por uma estrada completamente diferente e muito mais elegante. Em vez de falar em povo, fala em competência. E competência importa, como já vimos. Eu não quero que cálculo estrutural, diagnóstico médico ou segurança de uma barragem sejam decididos pela preferência de quem levantou mais a mão numa sala.
Só que saber como uma coisa funciona não concede automaticamente o direito de decidir para que ela deverá servir.
Esse deslocamento é pequeno o bastante para passar despercebido. O especialista começa oferecendo conhecimento indispensável e, quando percebemos, a descrição técnica do problema já trouxe escondida dentro dela uma decisão sobre o tipo de vida que todos deverão aceitar. A planilha continua impecável. O problema é que algumas das premissas morais foram colocadas nas células e formatadas como se fossem dados.
Conhecimento técnico tem autoridade sobre aquilo que consegue conhecer tecnicamente. Quando passa a reivindicar autoria sobre o mundo inteiro que será produzido a partir desse conhecimento, a inteligência começa a flertar com sacerdócio.
É por isso que a velha disputa entre Estado e mercado, quando tratada como escolha entre divindades concorrentes, costuma me cansar tão rápido.
Há coisas que o Estado faz porque só uma estrutura pública consegue assegurar direitos, impor limites a poderes privados, prover bens comuns, sustentar instituições, proteger pessoas que não conseguiriam se proteger individualmente e garantir alguma continuidade para uma sociedade complexa. Há também uma quantidade enorme de coisas que pessoas, empresas, comunidades e redes conseguem criar muito melhor sem que um funcionário público precise autorizar cada movimento.
O problema começa quando qualquer um desses domínios sofre uma intoxicação metafísica e resolve explicar o mundo inteiro.
O Estado redentor aparece quando todo problema humano começa a ser traduzido como algo que precisa ser administrado por uma instância central. Aos poucos, cidadãos deixam de aparecer como pessoas capazes de produzir mundo e viram população a ser conduzida, corrigida, protegida, incentivada, distribuída, educada ou supervisionada. Talvez tudo isso seja necessário em alguma medida. A intoxicação começa quando a medida desaparece.
O mercado total produz outra redução. Tudo aquilo que pessoas fazem juntas passa a ser traduzido em preferência, preço, incentivo, competição, produtividade, eficiência ou escolha de consumidor. Se alguma coisa não encontra expressão adequada nessa linguagem, parece quase defeituosa. Comunidade, cuidado, patrimônio comum, tempo sem produtividade, vínculos que recusam cálculo, bens cuja destruição não deveria depender apenas da capacidade de pagamento começam a entrar no mundo já obrigados a se justificar diante de uma gramática que não foi feita para compreendê-los inteiramente.
Não estou equiparando Estado e mercado, como se fossem duas versões moralmente simétricas da mesma entidade. Seria falso e intelectualmente preguiçoso. Estou procurando uma estrutura que pode atravessar ambos: o momento em que uma forma parcial de organizar a realidade perde a consciência de seus limites e passa a exigir jurisdição sobre o todo.
É aí que a ferramenta começa a sonhar que é mundo. A plataforma digital acrescentou uma variação interessante porque consegue exercer parte dessa função sem precisar fazer grandes discursos sobre verdade. Ela pode simplesmente organizar visibilidade. E isso é um poder ontogenético imenso.
Aquilo que aparece muito começa a parecer importante. O que aparece repetidamente ganha familiaridade. Certas pessoas se tornam reconhecíveis. Certas posições desaparecem antes mesmo de serem refutadas porque nunca conseguem chegar ao campo comum de atenção. Um sistema de recomendação não precisa escrever um manifesto para alterar o tipo de mundo que seus usuários encontram quando abrem a tela.
Adiante, vou dedicar uma reflexão exclusiva a isso, então não vou entregar aqui o trabalho que pertence a ela. O que importa agora é perceber que o monopólio da ontogênese não exige necessariamente um sujeito sentado numa cadeira dizendo “eu mando”.
Pode existir uma arquitetura de poder sem rosto suficiente para isso. Aliás, esse ponto é fundamental. Se transformarmos toda autocracia numa conspiração de indivíduos mal-intencionados, não vamos entender boa parte das formas contemporâneas de fechamento. Ninguém precisa se reunir numa sala escura para combinar que determinado mundo deixará de aparecer. Incentivos, reputações, métricas, protocolos e sistemas de visibilidade podem convergir até produzir um centro que ninguém planejou integralmente e que, mesmo assim, começa a selecionar realidade.
Autocracias podem ter cabeça, mas vale atestar que também podem funcionar como arquitetura. E talvez as segundas sejam ainda mais difíceis de enfrentar, porque não existe estátua para derrubar.
O líder carismático reaparece justamente na outra ponta desse problema, devolvendo corpo ao centro. Sua força não depende apenas da posição formal que ocupa, mas de uma espécie de concentração interpretativa. Pessoas começam a olhar para ele para descobrir o que aconteceu, o que aquilo significa e como devem se sentir a respeito.
Essa terceira coisa é importante, pois o líder não oferece apenas decisão ou explicação. Ele começa a organizar percepção.
Quando tudo vai bem, sua visão confirma que o caminho estava correto. Quando alguma coisa dá errado, continua sendo ele quem interpreta por que deu errado. Talvez tenha havido sabotagem, falta de maturidade, ausência de comprometimento, energias contrárias, traidores, inimigos, execução inadequada, gente que ainda não entendeu a proposta. O acontecimento muda, mas o centro conserva o direito de explicar o acontecimento.
A realidade pode contrariá-lo sem jamais conseguir julgá-lo, e esse é um sinal brutal de fechamento.
E comunidades espirituais capturadas conseguem levar essa lógica a um grau quase artístico porque possuem acesso a um vocabulário capaz de transformar qualquer objeção numa interpretação da pessoa que objetou.
Quem concorda entendeu. Quem discorda talvez esteja no ego, no medo, na resistência, preso a uma etapa, incapaz de perceber aquilo que os demais já perceberam.
É um sistema extraordinariamente eficiente. Até a tentativa de sair dele pode voltar como prova de que ele estava certo sobre você.
Mas seria muito cômodo rir apenas das comunidades espirituais. A mesma estrutura aparece em organizações políticas, empresas, grupos intelectuais, famílias e movimentos sociais sempre que uma parte adquire o privilégio de interpretar todas as demais e perde, convenientemente, a obrigação de ser interpretada pelo mesmo critério.
O poder mais profundo talvez esteja aí: quem pode explicar quem?
Essa pergunta me interessa mais do que parece.
Quem ocupa uma posição ontogeneticamente privilegiada não precisa ser a pessoa que dá todas as ordens. Pode ser aquela cuja interpretação encerra a discussão. Todos podem falar, mas uma pessoa decide o que as falas realmente significaram. Todos podem discordar, mas alguém possui a capacidade especial de traduzir a discordância para dentro de sua própria narrativa sem jamais permitir que ela altere essa narrativa.
Você diz que está se sentindo controlado, e a conversa rapidamente deixa de ser sobre o controle para virar uma análise da sua dificuldade com limites. Você diz que já não confia, e a desconfiança passa a ser tratada como incapacidade de se entregar. Aponta uma contradição, mas, em vez de a contradição ser examinada, alguém explica que você está vendo apenas uma parte, que lhe falta contexto, que ainda não compreendeu o suficiente. Aos poucos, tudo o que poderia colocar o centro em questão volta para você como diagnóstico.
O problema está na assimetria: quem interpreta tudo e todos não aceita tornar-se objeto da interpretação dos outros.
Aí o círculo fecha.
Talvez seja isso que a frase “o real passa por mim” consiga condensar. Não significa necessariamente que alguém diga essas palavras em voz alta. Seria gentil da parte dos autocratas facilitar tanto o diagnóstico. O mecanismo costuma aparecer de maneira mais discreta: alguma pessoa, grupo, instituição ou sistema torna-se o lugar pelo qual os acontecimentos precisam passar para receber significado válido.
O senhor dizia: a ordem passa por mim.
O sacerdote podia dizer: o sagrado passa por mim.
O partido: o povo passa por nós.
A técnica: a decisão racional passa pelo conhecimento que dominamos.
A plataforma nem precisa dizer nada. Basta que quase tudo que conseguimos ver passe por ela.
São histórias diferentes, com responsabilidades, escalas e consequências que não podem ser colocadas num saco e tratadas como se fossem iguais. O parentesco que estou propondo é estrutural: em todas essas situações pode surgir a tentação de transformar mediação em monopólio.
É aqui que Claude Lefort deixa de ser apenas uma referência importante e encosta de maneira quase desconfortável na tese desta obra.
Quando Lefort fala da democracia como uma forma política na qual o lugar do poder permanece simbolicamente vazio, ele não está sugerindo que ninguém governe. Presidentes governam, parlamentos legislam, tribunais julgam. O vazio está em outro lugar: ninguém pode incorporar definitivamente o poder como se sua própria pessoa, partido ou grupo fosse o corpo verdadeiro da sociedade. Quem ocupa o poder continua sendo ocupante, não proprietário.
A Ontogênese me permite deslocar essa percepção um pouco mais.
Talvez o lugar que precise permanecer vazio não seja apenas o lugar do poder. É também o lugar de origem do real comum.
Nenhuma parte da sociedade pode se instalar ali e declarar que o mundo inteiro nasce dela. Nem governante, nem maioria, nem povo convertido em substância imaginária, nem elite esclarecida, nem mercado, nem Estado, nem ciência, nem religião.
Isso não torna todas essas coisas equivalentes. Tampouco diminui a importância de qualquer uma delas. A questão é mais incômoda: nenhuma parte contém o todo que ajuda a produzir.
Uma sociedade autocrática esquece justamente isso. Uma parte se apresenta como encarnação do conjunto e começa a tratar tudo que escapa dela como ameaça à própria realidade social.
Lefort viu na tentativa totalitária de incarnar a unidade social o contrário profundo da indeterminação democrática. A sociedade plural, conflitiva e impossível de fechar definitivamente precisa então aparecer como um corpo único, e alguém reivindica o direito de falar como se fosse a cabeça desse corpo.
Arendt chega perto do mesmo problema por outro caminho. Sua política depende da pluralidade e do aparecimento de pessoas que agem e falam umas diante das outras; o poder, em seu sentido político forte, surge dessa capacidade de agir em conjunto, não como propriedade privada acumulada dentro de um indivíduo.
Vista daqui, a operação autocrática é quase uma falsificação da origem. Muitos produzem, enquanto um aparece como autor.
A pluralidade que tornou o poder possível é rebaixada depois à condição de audiência, massa, seguidores, executores ou povo agradecido.
O centro vive daquilo que nega.
Essa contradição é importante porque mostra por que nenhum monopólio da ontogênese consegue ser absoluto de verdade. O senhor ainda precisa dos outros. O partido ainda precisa do povo que afirma representar. A plataforma ainda precisa das pessoas produzindo conteúdo, atenção e relações. O líder espiritual ainda precisa da comunidade que sustenta sua autoridade. O mundo continua nascendo entre muitos até quando alguém consegue capturar o crédito de seu nascimento.
Autocracia é, nesse sentido, parasitária.
Ela precisa da criação distribuída que depois tenta esconder.
Popper acrescenta outra pressão importante. Uma sociedade aberta não é valiosa porque as pessoas que vivem nela finalmente descobriram as respostas certas, mas porque preserva formas de crítica e correção pelas quais decisões, políticas e ideias podem ser confrontadas e modificadas sem que o mundo inteiro precise ser demolido.
O monopólio da ontogênese faz exatamente o contrário: começa a retirar do mundo a capacidade de corrigir o centro. E isso inclusive pode acontecer sem censura formal. Basta construir uma realidade em que toda evidência contrária possua uma explicação capaz de proteger previamente aquilo que deveria ser examinado. Se a política fracassou, faltou aplicá-la direito. Se a liderança perdeu apoio, houve manipulação. Se a previsão não aconteceu, alguma condição invisível interferiu. Se alguém saiu da comunidade, sua saída confirma que nunca tinha compreendido realmente o trabalho.
Repare que o problema não é oferecer explicações para um fracasso. Fazemos isso o tempo todo e muitas vezes com razão. O problema aparece quando não existe nenhum acontecimento concebível capaz de obrigar o centro a rever a si mesmo.
Nesse ponto ele deixou de ter uma interpretação e passou a possuir imunidade. E poder imune à realidade aprende rápido a produzir sua própria realidade.
Rancière ajuda a perceber uma camada ainda mais sutil. Aquilo que ele chama de ordem policial, num sentido muito mais amplo do que a polícia estatal, distribui lugares e capacidades: quem aparece, quem é ouvido como alguém que fala, que atividade pode ser reconhecida e que presença permanece como ruído. A política acontece justamente quando essa distribuição é interrompida por quem não deveria ter parte e aparece como igual.
Traduzido para o problema desta reflexão, o monopólio da ontogênese não precisa calar todo mundo. Basta controlar a diferença entre fala e ruído. E isso é muito mais sofisticado.
Você pode deixar a pessoa discursar por horas desde que nada do que diga consiga alterar sua posição ontológica no mundo. Ela fala, mas continua classificada como alguém que “não entendeu”, “não tem preparo”, “não representa ninguém”, “está contaminado”, “é radical demais”, “é ingênuo”, “é ressentido”, “não pertence de verdade”.
A boca continuou aberta, mas o mundo já tinha decidido o que sairia dela.
É nesse ponto que a autocracia deixa de ser apenas concentração de poder e passa a ser algo mais profundo: concentração da capacidade de produzir inteligibilidade.
Há coisas que acontecem diante de todos e, ainda assim, não encontram uma linguagem legítima para existir. Pessoas sofrem, mas o mundo ao redor não reconhece aquele sofrimento como algo que merece nome; experiências reais ficam sem categoria, sem escuta, sem lugar suficiente para aparecer. E quando alguma coisa não consegue nem ser reconhecida como real, ela quase sempre chega derrotada à disputa sobre o que o real é.
Augusto de Franco vem insistindo há anos em democracia como desconstituição contínua de autocracia, e essa formulação ganha para mim uma precisão adicional quando olhada desse ponto. O problema não é apenas retirar o autocrata. É desconstituir a estrutura que precisa dele ou que, mesmo sem ele, continua procurando um centro para ocupar o lugar vazio.
Porque podemos tirar o chefe e preservar a hierarquia. Derrubar o líder e conservar o hábito de pedir autorização. Fechar a instituição e levar conosco exatamente a mesma maneira de produzir obediência. É possível até criar uma rede inteira e reconstruir dentro dela, com linguagem moderna e estética horizontal, o velho centro que jurávamos ter abandonado.
A geometria mudou, mas a ontologia ficou.
É por isso que uma rede não se torna democrática apenas por não possuir organograma vertical. Às vezes a hierarquia migra para a reputação, para o acesso à informação, para quem conhece os fundadores, para quem controla a linguagem do grupo ou simplesmente para aquela pessoa diante da qual todas as outras, sem que ninguém tenha escrito regra alguma, começam a medir as palavras.
O senhor também sabe trabalhar de roupa casual.
Agora vem a parte desagradável, porque seria uma covardia intelectual chegar até aqui e usar todo esse aparato apenas para identificar autocratas nos outros. Eu também quero que o meu mundo prevaleça.
Qualquer pessoa que escreve um livro inteiro defendendo uma tese precisa admitir isso sem fazer pose de iluminação democrática. Eu considero algumas ideias melhores do que outras. Acho algumas explicações ruins, certas estruturas violentas, alguns argumentos intelectualmente insustentáveis. Se não achasse, não teria motivo para escrever trocentas páginas tentando convencer alguém de alguma coisa.
O problema não é querer convencer. Ele começaria quando eu passasse a considerar toda discordância com esta tese como prova da incapacidade de quem discorda.
Se “autocracia é o monopólio da ontogênese” virar uma frase usada para classificar qualquer pessoa que não aceite a minha própria ontologia, parabéns: teremos acabado de construir, com uma eficiência quase cômica, um pequeno monopólio da ontogênese usando uma teoria contra o monopólio da ontogênese.
O ser humano tem talento para essas coisas. Por isso esse conceito precisa funcionar contra quem o formulou.
Talvez esse seja um bom teste para qualquer pensamento que pretenda preservar alguma abertura: ele precisa suportar a possibilidade de ser usado para interrogar sua própria autoridade. Caso contrário, vira doutrina de autodefesa.
O diagnóstico prático desta reflexão, então, não precisa começar procurando o chefe, o tirano ou o sujeito mais carismático da sala. Às vezes eles serão óbvios, o que economiza tempo. Mas eu começaria acompanhando o destino de uma discordância.
Alguém diz uma coisa que realmente toca o centro do mundo. Não uma divergência decorativa sobre detalhes. Alguma coisa que coloca em questão o modo como aquele campo compreende a si mesmo.
O que acontece depois?
Talvez a discordância seja rejeitada, e isso não prova autocracia. Um mundo precisa poder dizer “não”, inclusive porque toda ideia idiota não adquire valor democrático apenas por ter sido pronunciada. O interessante é perceber quem possui o direito de decidir o que aquela discordância significa e se essa interpretação também pode ser contestada.
Se a crítica consegue entrar no mundo, produzir resposta, revelar uma contradição, talvez modificar alguma coisa ou ser recusada por razões que continuam abertas ao exame, ainda existe circulação. Quando toda crítica retorna imediatamente como defeito de quem a fez, o cenário muda.
Nesse momento, não estamos mais discutindo apenas a decisão. Estamos tocando a fronteira do real. E é ali que vale procurar o monopólio.
Quem pode nomear todos os outros sem ser nomeado?
Quem pode interpretar o fracasso sem jamais entrar entre as causas possíveis dele?
Que instituição consegue exigir transparência e permanecer opaca?
Que liderança reivindica confiança como obrigação daqueles que lidera, mas trata desconfiança como desvio moral?
Em que lugar a regra vale como regra até o instante em que alcança quem a criou?
Não precisamos transformar isso ainda num checklist. Mais adiante faremos um diagnóstico muito mais sistemático de mundos que estão fechando. Aqui basta adquirir uma espécie de sensibilidade para a operação.
O monopólio da ontogênese começa quando a assimetria deixa de ser apenas de poder e vira assimetria de realidade.
O desequilíbrio aparece quando uma parte ganha o direito de interpretar o conjunto sem se submeter ao mesmo crivo. Ela julga os outros, explica seus motivos, redefine seus erros e até consegue transformar as próprias falhas em exceção, contexto ou mal-entendido. Os demais, ao contrário, precisam continuar se explicando dentro das categorias que esse centro oferece. Chega uma hora em que ele já não ocupa apenas uma posição de poder; ocupa também o lugar de onde se decide o que conta como acerto, erro, intenção e realidade.
Quando isso se estabiliza, o centro já não precisa vencer toda disputa. Conseguiu algo muito melhor: passou a decidir o que poderá ser reconhecido como disputa.
É por isso que autocracia é o monopólio da ontogênese.
Não porque um senhor consiga criar sozinho o mundo, mas porque ele consegue se apropriar do lugar onde um mundo criado por muitos recebe autorização para existir. O golpe mais profundo não é tomar todas as decisões. É tomar para si o direito de decidir o que poderá contar como realidade quando as decisões forem discutidas.
A partir daí, ainda pode haver fala, instituições, participação, especialistas, ritos, pesquisas, reuniões e até eleições. Toda a mobília permanece. Só uma coisa foi retirada da casa: a possibilidade de que o mundo nasça de outro lugar.
E quando alguém consegue fechar essa possibilidade, já não se tornou apenas dono do poder.
Começou a se comportar como dono do mundo.
Nota do autor: Este texto integra a publicação progressiva, capítulo a capítulo, de um livro em desenvolvimento sobre democracia, escrito a partir da Ontogênese, minha filosofia sobre o modo como o real humano nasce entre pessoas. A versão final em livro poderá sofrer modificações, cortes, acréscimos, reorganizações e desenvolvimentos em relação aos textos publicados originalmente na Revista Inteligência Democrática. Para conhecer a obra que serve de base filosófica a este novo trabalho, acesse Ontogênese: Como o real nasce entre pessoas, disponível na Amazon ou no Clube de Autores.




