Camisa de força
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (22/01/2026)
Em artigo publicado na revista Atlantic, Anne Applebaum constata que Trump vive numa realidade paralela. Ela se referia à mensagem do presidente americano para o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, onde reclamava da não concessão do prêmio Nobel a ele como se fosse atribuição do governo norueguês a concessão da referida premiação. Um dia depois, terça-feira, Trump publicou uma fotografia criada por Inteligência Artificial em que aparecia na frente de líderes europeus enquanto mostrava que a Groenlândia e o Canadá pertenciam aos Estados Unidos!
Não são distantes as lembranças de trumpistas acusando o presidente anterior, Joe Biden, de senilidade e demência. Não estão distantes de nós a percepção de vários analistas sobre problemas mentais de Trump. A diferença entre as duas narrativas é que numa a intenção era provocar ruído, enquanto na outra é compartilhar uma preocupação de interesse público.
Decorre daí uma dedução lógica a respeito dos freios possíveis a um quadro instaurado de instabilidade e até de insegurança política. No caso de Biden, mesmo que o efeito desejado fosse o ruído, a percepção pública do seu problema de saúde provocou a substituição da sua candidatura a presidente pelo nome de sua vice, Kamala Harris. É óbvio que, ressalvadas todas as questões mentais envolvidas no diagnóstico de Biden e o atraso no diagnóstico, este ainda contava com lucidez suficiente para perceber o seu quadro e admitiu voluntariamente sair da disputa.
No caso de Trump, obviamente esse gesto de humildade não vai acontecer. O constrangimento de um diagnóstico público sobre sua condição, um homem capaz de inventar realidades paralelas e levar uma nação inteira a aceitar seus devaneios, é insuficiente para fazê-lo recuar.
A realidade criada e produzida por ele só pode ser derrubada por forças externas atuando, por exemplo, como propõe Applebaum no artigo acima mencionado, com lideranças suficientes dentro do seu partido republicano brecando qualquer medida amparada apenas no contexto de seu narcisismo. Ou pela articulação de nações médias para criação de um novo caminho que enfrente a arrogância das grandes potências, tal como propõe o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
Para usar uma piada correndo na internet sobre o caso, o melhor prêmio que o governo norueguês poderia dar ao presidente americano seria uma camisa de força. Mas enquanto o humor não é suficiente para fazer entender o quão perigoso é deixar um lunático sem controle no comando do país mais poderoso militarmente no mundo, resta a nós pobres mortais a tarefa contínua de alertar para o risco que estamos vivendo.



