Camus: a coragem da Revolta
Já passei da metade da biografia do Camus escrita pelo Olivier Todd, e é impressionante como o livro vai muito além de uma simples reconstrução biográfica. É uma história de vida, de posicionamento, de concepção artística, de transição filosófica e de coragem intelectual. Quanto mais avanço, mais me chama atenção a honestidade brutal com que Camus se coloca diante do próprio tempo, das próprias contradições e dos próprios medos. Minha curiosidade inicial estava muito ligada ao Mito de Sísifo, mas, conhecendo melhor sua trajetória e principalmente a relação com Sartre, fui entendendo que um dos pontos centrais de inflexão da sua vida intelectual acontece depois da publicação de O Homem Revoltado.
A ideia de “revolta” passa a ocupar um lugar decisivo no pensamento de Camus, porque ela tenta justamente escapar tanto da resignação quanto da lógica revolucionária totalizante. E é aí que ele aperta feridas profundas. Camus começa a desmontar os exageros morais, as hipocrisias e as justificativas violentas que muitas revoluções produzem em nome de um futuro supostamente redentor. Isso o coloca em rota de colisão com boa parte da intelligentsia francesa da época, especialmente o entorno sartriano, profundamente influenciado pelo marxismo e pela ideia de revolução histórica como horizonte inevitável.
Ao mesmo tempo, a biografia mostra uma relação muito mais complexa e humana entre Camus e Sartre do que normalmente aparece nas simplificações históricas. Existe admiração, carinho, reconhecimento mútuo, mas também diferenças profundas de origem, experiência e percepção do mundo. Camus, argelino, vindo de uma infância pobre, ocupa um lugar muito diferente de Sartre, um intelectual parisiense de origem burguesa. E Olivier Todd vai costurando tudo isso com um nível de detalhe impressionante, mostrando as hesitações, inseguranças, ambiguidades e tensões internas do próprio Camus, sem transformá-lo em herói puro nem em caricatura.
O capítulo 39, chamado A Revolta, talvez seja um dos momentos mais ricos até aqui justamente porque mostra o instante em que Camus começa a formular, de maneira mais explícita e formal, sua crítica aos absolutismos ideológicos e à transformação da revolta em justificativa para o assassinato político e para os totalitarismos modernos. É impressionante como muitos dos dilemas colocados ali seguem vivos hoje, especialmente quando se olha para a forma como diferentes campos políticos continuam justificando violências, mentiras e autoritarismos em nome de um suposto bem futuro.
E existe uma camada ainda mais interessante nisso tudo: Olivier Todd consegue mostrar como essas posições não surgem de um Camus abstrato ou puramente racional. Elas surgem de alguém profundamente angustiado com o próprio tempo, tentando encontrar uma saída ética e humana num século que parecia transformar toda revolta legítima em máquina de destruição. Há uma honestidade muito rara na maneira como Camus parece se recusar a aceitar simplificações confortáveis, mesmo sabendo o custo pessoal, intelectual e político disso.
Estou compartilhando abaixo um trecho importante desse capítulo 39. E numa próxima postagem quero trazer também o capítulo 40, que entra diretamente na explosão pública dessa polêmica e no rompimento mais aberto com Sartre e parte da esquerda intelectual francesa. Vale muito a leitura — principalmente pela riqueza de nuances que o Todd consegue construir ao mostrar um Camus simultaneamente forte, contraditório, vulnerável e extremamente lúcido.
CAP 39 REVOLTAS - Albert Camus - Uma vida. Olivier Todd
[...]
Vindo de Argel, de passagem depois da falência da Charlot em Paris. Poncet encontrou Camus num pequeno hotel do 1º arrondissement, na rua de Beaujolais. De seu quarto, Camus avistava os jardins do Palais-Royal. Albert explicou a Charles que estava se dedicando a um trabalho de pesquisa considerável. Tinha lido Marx “atentamente”, não todo Marx. A ideia da revolta preocupa Camus pelo menos desde 1943, e, em 1945, ele redigia cerca de quinze páginas, “Remarque sur la révolte” [Observação sobre a revolta]. “O que é um homem revoltado? É antes de tudo um homem que diz não. Mas, embora recuse, ele não renuncia: é também um homem que diz sim. Entremos nos detalhes com o movimento de revolta.” Ai está, quase palavra por palavra, o início do primeiro capítulo de O homem revoltado terminado.
Camus abre-se a respeito de seu ensaio com uns e outros, mas não com a família sartriana. Em 1949, Georges Bataille lhe perguntava quando contava terminá-lo. Camus dizia-se então longe do final. Redigiu sua primeira versão em papel pergaminho de boa qualidade, como se fizesse questão de escrever num suporte “rico”, como se trabalhasse para a posteridade. Ele dedica a obra a Jean Grenier, que influenciou duplamente seu pensamento político: antes da guerra, o professor o impeliu a aderir ao partido comunis- ta e, ao mesmo tempo, estava escrevendo um ensaio contra o espírito de ortodoxia, no qual dizia, a propósito de um texto marxista consagrado à dialética em biologia: “Estamos aqui em pleno messianismo, um messianismo que justifica todos os massacres.” Em seu livro, Camus pretende examinar a ortodoxia revolucionária da esquerda criptocomunista e o messianismo do genial Marx. Grenier e Camus se encontram em Fontenay-aux-Roses. onde o professor está instalado, perto da villa de René Poirier, outro professor de Camus em Argel. Grenier, então, leu um manuscrito de O homem revoltado. Camus lhe descreve a organização de seu projeto:
- Quero falar do humano, sobretudo da moderação enquanto escala do humano. Do negativo ao positivo.
- Seu livro está na linha reacionária de Maurras - diz Grenier.
- Azar [...] devemos dizer o que queremos... responde Camus - Ele não aceita uma retórica da complacência política. Ninguém lhe fará dizer que é noite em pleno dia.
- Você vai fazer muitos inimigos - observa Jean Grenier.
- É, provavelmente, meus amigos não serão muito firmes.
Camus faz modificações em seu manuscrito, manda um exemplar datilografado e corrigido para René Char, em 12 de julho de 1951:
“Meu caro René,
“Aqui está o objeto de tantas penas. Percebo que este manuscrito está muito rabiscado. Dei o melhor à gráfica. Mas sei que você se reconhecerá nele. Possa ele ser digno, em sua forma, do que ambos pensamos. É com uma alegria profunda, em todo caso, que o confio a você [apesar de minha ansiedade, é claro). Extraí muito de nosso encontro de ontem, ou melhor, você me tirou de algumas das dúvidas em que me encontrava depois deste longo trabalho obstinado. Mais uma pedra branca no caminho belo e estrito de nossa amizade. Muito afetuosamente seu...”
A obra poderia ter como subtítulo: “o homem contra uma certa ideia de revolução”. Para Camus, esse livro, teoria política e artística, é uma “confidência”. Ele expõe mais seu pensamento em anotações ou cartas pessoais do que em algumas obras buriladas. “Nossas gerações”, ele escreve a um correspondente, “não tiveram outra fé além da revolução. Eis o drama em que a revolução, em seus próprios sucessos, nos mostra uma face horrível [.]. Em cento e cinquenta anos, a França conheceu quatro revoluções sangrentas e um certo número de rebeliões. No mesmo lapso de tempo, a Inglaterra, sem uma só rebelião [Camus parece esquecer o movimento cartista assim como as revoltas operárias na Grã-Bretanha no século XIX], realizava uma incontestável democracia social, hoje a mais avançada do mundo, ao lado das escandinavas. A revolução não é portanto um fim, não pode portanto ser um objeto de fé, ela é um meio a serviço da justiça e da verdade. Se não serve a seus fins, como é visível neste momento, é preciso reconhecê-lo e dizê-lo.
Antes da redação de O homem revoltado, e depois diante de Jean Grenier, entre outros, Camus sublinha essa ideia. Por volta do final dos anos 1940, na intelligentsia progressista, e em torno da redação de Les Temps modernes, não se insiste em certas realidades do mundo comunista gime policial, campos de concentração, para não colocar em perigo a Revolução em geral. As realidades revolucionárias são maquiadas. Todos mentem para os outros e para si mesmos. As aparências do regime são negativas, mas, com sinceridade ou má-fé, as pessoas se acreditam “realistas”. Camus: “As vezes odeio minha época. Não sou um idealista. E não são essas realidades, por mais abjetas e cruéis que sejam, que odeio. São as mentiras em que elas chafurdam. [A Rússia é] hoje uma terra de escravos juncada de postos de vigia [...]. Combaterei até o fim o fato de esse regime de campo de concentração ser adorado como instrumento da libertação e como uma escola da felicidade futura... Só uma coisa no mundo me parece maior do que a justiça: é, se não a própria verdade, pelo menos o esforço no sentido da verdade. Não temos necessidade de esperança, temos apenas necessidade de verdade.” E não de “dialética”.
Em 1951, Camus está muito isolado dentro da intelligentsia de esquerda.
Marguerite Duras, então pouco conhecida, com dois romances publicados, e Jean Duvignaud, escritor, deixam o partido em 1949, seguidos oficialmente, dois anos depois, por Edgar Morin, que se afastou há mais tempo. Permanecem no PCF os filósofos Jean-Toussaint Desanti, Henri Lefebvre, Roger Garaudy. Na aurora dos anos 1950, Camus pressente a quarentena. Ele ouviu, na embaixada soviética, um funcionário russo dizer:
- Fizemos um grande esforço. Pensem bem, tínhamos dez milhões de prisioneiros políticos. Agora há muito menos.
A hemorragia dos intelectuais irá começar realmente em 1956, com outros escritores: Alphonse Boudard, Aimé Césaire, Jean-Pierre Chabrol, Dominique Desanti, Jacques-Francis Rolland, Claude Roy, Roger Vailland, Robert Merle, Claude Morgan. E prosseguirá com Jorge Semprun...
Camus, em O homem revoltado, entrega-se a um exercício filosófico ambicioso. Quer elaborar suas experiências, seus conhecimentos e suas leituras, sociais, literárias, filosóficas. Aborda ao mesmo tempo a política, o social e o literário e se lança numa aventura filosófica francesa típica, às vezes perigosa. Alguns anos antes, ele observava: “Creio que para mim tanto faz estar em contradição. Não tenho vontade de ser um gênio filosófico.” Agora famoso, com esperança de poder desempenhar um papel, quer pôr ordem nas contradições progressistas que compartilhou. Deseja ultrapassar o absurdo, pela revolta. Mas, quando esta se pretende revolucionária, adota razões que a levam a um novo absurdo, o assassinato. O homem revoltado verdadeiro conserva sua dignidade e recusa a humilhação. Depois de 1917, De esquerda ou de direita, os revolucionários no poder justificam prisões, moral provisória. assassinatos em nome da felicidade futura da humanidade. Camus espera hoje formular um novo humanismo. Pelos sofrimentos humanos, ele não tem uma piedade fingida. Seus sentimentos humanitários, sua simpatia pelos pobres, pelos explorados, pelos perseguidos, estão ligados à caridade leiga. Ele faz uma pergunta fundamental: como certos homens, em nome da revolta que se tornou revolução, aceitaram o assassinato coletivo? Como militantes, justamente revoltados, transformados em revolucionários profissionais, criaram, no século XX, Estados totalitários? Os homens não acreditam mais em Deus, mas alguns, sobretudo na Europa ocidental, divinizam a história.
O livro analisa a época e seus males. Camus tenta fugir do absolutismo ideológico, não das ideias. Opõe-se ao espírito de intolerância e de ódio. Antes de todo artista, a seu ver, ele define o lugar do criador revoltado. A gestação do livro foi penosa. Os planos sucessivos o atestam. Para Camus, hoje “a filosofia [...] pode servir para tudo, mesmo para transformar os assassinos em juízes”. Esse ensaio aparentemente simples - forma polida, horizontes múltiplos -, opondo-se à divinização hegeliana da História, continua sendo um pouco hegeliano, querendo explicar tanto a arte quanto a história, a história na arte, e a arte na história. Um pouco antes, Aragon publicou o primeiro volume de L’Homme communiste [O homem comunista]. Através dessa coletânea de textos, ele desenhou “o homem comunista que nasce diante de nossos olhos”. Em seu livro, mais elaborado, Camus descreve o homem revoltado e revolucionário não comunista. O homem diz não à sua condição de ser mortal, e à criação. O não se transmuta em sim à liberdade e à justiça. Pela revolta, o homem se liberta da sua condição e recria a unidade do gênero humano. A revolta metafísica é recusa, consciência dessa recusa e consciência de si: “Eu me revolto, portanto existimos.” Desvencilhado de Deus, o homem entra na história. A revolta torna-se revolução. Mas a revolta histórica torna-se, por sua vez, negação da revolta metafísica e legitima o crime.
A construção - densa para alguns, complexa para outros - apoia-se em cinco pilares. Camus, definindo o homem revoltado, estuda o que ele chama de revolta metafísica, depois passa à revolta histórica e à revolta artística. Conclui com “o pensamento mediterrâneo”, menos analítico, mais lírico e camusiano: o autor de Bodas opõe um equilíbrio mediterrâneo ao desequilíbrio do totalitarismo, mais nórdico. Faz um elogio da medida como diante de seus ouvintes da Casa da Cultura de Argel em 1937. Liberdade e justiça se opõem: sem comprometimento, é preciso chegar a um compromisso. Camus desenvolve um paradoxo aparente: com uma total liberdade, não há mais justiça; com a justiça total, a liberdade é inútil.
Para ele, os ideólogos, sobretudo alemães, historicistas no sentido de Popper, ou seja, que consideram a história como sendo determinada por forças irresistíveis, são responsáveis pela intolerância no século XX, pelo absolutismo intelectual e político que faz nascer inquisidores. Originalmente, o grande responsável pelo desvio historicista é Hegel, de quem Marx, os marxistas e os comunistas são herdeiros. Hegel, o primeiro, descreveu o papel criador do grande homem, como Carlyle. Defensor no fundo do tribalismo nacionalista, das exaltações do estado inimigo de to- dos os seus concorrentes, portanto votado à guerra, ele estaria na origem do Führerprinzip. Hegel fez do sucesso histórico o princípio moral de todo comportamento coletivo ao qual devem subordinar-se os comportamentos individuais. Torna admissíveis as mentiras da propaganda e as deformações da verdade. Guerra e glória tornam-se fins desejáveis. Enfim, Hegel opôs a vida esplêndida do homem heróico à do pequeno-burguês medíocre, idealizando os combates e o sangue derramado. Estava aberta a brecha para os métodos que legitimam o pior.
Para teorizar, Camus fundamenta-se no que viveu em seu conhecimento direto, knowledge by description, diria Russell -, mas sobretudo em conhecimentos indiretos, knowledge by acquaintance, e livrescos. Seu ensaio se transforma em autobiografia intelectual descontínua. Sua experiência revolucionária é limitada: membro do Partido Comunista Argelino, diante dos nacionalistas argelinos, viu o partido forjar e abusar de uma dupla linguagem. A Resistência não desembocou numa Revolução com que Camus sonhava ainda em 1944. Seus amigos revolucionários Lazarevitch, Rosmer - e Boris Souvarine, que ele conhece - explicaram em que a revolução bolchevique havia traído o ideal revolucionário puro. Recomendaram-lhe os livros de testemunhas como Margarete Buber-Neumann, que escapou do gulag e de Ravensbrück, ou Victor Serge, testemunha lúcida do “socialismo real” soviético. 24 Camus tem um mérito, raro: desde há alguns anos, ouve algumas testemunhas críticas da Revolução russa mas, como se fosse por acaso, são pouco ouvidas elas não faltam, - e lê obras que, muitas vezes, são tabus. Tenta em vão a “o primeiro desencantado do comunismo”. Enquanto estava trabalhando em O homem revoltado, na Berlim bloqueada pelos soviéticos reunia-se, em junho de 1950, o Congresso pela Liberdade da Cultura, organização patrocinada por quarenta intelectuais, entre os quais Camus, Blum, Gide, Aron, Rousset, Mauriac, Rémi Roure; entre os britânicos, Koestler e Russell; no bloco americano, John dos Passos, Upton Sinclair, James Burnham; à frente dos italianos, Silone. Camus não participou da reunião de Berlim, mas assinou um Manifesto aos Homens Livres. Declarava que “a liberdade intelectual implica em primeiro lugar a liberdade de pensamento e de palavras, sobretudo se estes se opõem aos dos dirigentes”, acrescentando, nota camusiana: “privado do direito de dizer não, o homem torna-se um escravo”. Já na primeira página de O homem revoltado, Camus escreve: “Um escravo, que recebeu ordens durante toda a vida, de repente julga inaceitável um novo comando.” O manifesto diz: “É também a afirmação de que a teoria e a ação dos Estados totalitários são a maior ameaça que a humanidade teve de enfrentar ao longo da história e da civilização.”
O ensaio de Camus expressa o estado de espírito dos melhores desencantados do comunismo. Em março de 1951 surge a revista Preuves, ponta de lança da luta intelectual. É dirigida em parte por François Bondy e será posteriormente financiada, sem que Camus ou Aron e outros o saibam, pela CIA, que investe na cultura. Camus recorreu, como vimos, a ami- gos como Lazarevitch para explorar a história dos terroristas e niilistas russos. Do mesmo modo, alimentou sua obsessão pelo sagrado ao longo de discussões com o padre Bruckberger. Há uns dez anos ele lê ou relê Platão, Kierkegaard, Nietzsche, Jaspers, Heidegger, Chestov. Parece menos minucioso e acadêmico com relação a Hegel: embora faça anotações para A fenomenologia do espírito, também utiliza textos selecionados ou estudos de especialistas como Hyppolite ou Kojève. No que se refere a Marx, sua leitura ainda é fragmentária: utiliza muito a antologia de Henri Lefebvre e Maximilien Rubel.
Seu livro contém numerosas alusões a Marx, algumas a Lenin, nenhuma a Stalin. Camus deseja ultrapassar o espírito revolucionário sangrento e o absurdo do absurdo, que leva a um impasse: “O absurdo ultrapassa a si mesmo.” Ele busca uma pureza da revolta que devolveria uma coerência à ação. A posteriori, o ensaio O homem revoltado é uma ilustração teórica de A peste; O mito de Sísifo foi o contraponto de O estrangeiro. O homem revoltado e A peste fazem parte do mesmo ciclo, juntamente com O estado de sítio e Os justos. Em seu ensaio vibrante, Camus explica sua época a seus camaradas e acerta contas consigo mesmo. É também “um esforço para compreender meu tempo”. Alusão a O mito de Sísifo: “Poderia ser útil interrogar-se a respeito do problema do suicídio no tempo da negação.” Naqueles anos 1950, “no tempo das ideologias”, é preciso opor-se ao assassinato político.
O coração e a alma da obra é um questionamento, então radical e original, da revolução em geral e das revoluções soviética e francesa em particular - empreitada corajosa, sobretudo para um escritor de esquerda em evidência. Seus professores de história ensinaram ao jovem Camus liceano e estudante que revolução e democracia eram idênticas, e reacionárias todas as críticas à ação revolucionária. Opor-se à Revolução francesa ou criticá-la era conspirar contra a liberdade, trair a França e sua vocação universal. Naqueles anos 1950, a historiografia marxista de 1789, dominante na universidade francesa, reprime o debate. Nem historiador nem filósofo acadêmi- co, Camus rebela-se contra uma versão oficial e expurgada bem antes que uma escola de novos historiadores franceses, em sua maioria provindos de Annales, reexaminasse as revoluções de 1789 e 1917. Os historiadores marxistas ou pseudomarxistas franceses ou estrangeiros transformam os bolcheviques em herdeiros dos jacobinos. Tanto por intuição como por raciocínio ou através de suas pesquisas, Camus vincula, numa óptica inversa, o Terror francês ao Terror soviético. Ele ataca toda uma mitologia da Educação nacional francesa e da intelligentsia de esquerda, comunista e não comunista. Mostra 1917 sob a luz de 1789, sem negar as aquisições da Revolução Francesa e os valores da democracia representativa. Mas des- creve e denuncia os aspectos mais funestos dessa Revolução e da simbólica revolucionária. Mais excêntrico ainda para a época, na contracorrente, ele atira bolas no grande boliche do museu Grévin da Revolução, que continua sendo o mito fundador da República e da Resistência. Há um curso e uma cátedra da Revolução na Sorbonne. Pontífices como Georges Lefebvre, Albert Mathiez e Albert Soboul fazem a lei nos círculos acadêmicos e fora da universidade. A trajetória de Camus é atípica. Jornalistas e quadros, historiadores e hierarcas do Partido Comunista Francês veem a revolução bolchevique pelo prisma do perídodo jacobino. Camus, com uma candura e uma audácia singulares, vê o jacobinismo no bolchevismo. Ele ataca personalidades-tabu. Todo liceano francês, se a família não é de extrema direita, tem um respeito confesso ou secreto por Robespierre e Saint-Just. Iconoclasta, Camus pulveriza Saint-Just “... seu tom definitivo. A cascata de informações peremptórias, o estilo axiomático e sentencioso [...]. As sentenças se desfiam em ladainha, como a própria sabedoria da nação ..., as definições ... se sucedem como comandos frios e claros, [...] Os princípios devem ser moderados, as leis implacáveis, as penas sem retorno. É o estilo guilhotina”. Estamos longe dos manuais escolares do ensino público, do Saint-Just, duro, com certeza, mas tão puro, apresentado por tantos professores. Camus descobre nele sobretudo um fanático, e, na revolução jacobina tentando instituir uma religião da virtude, cinismo, assim como o início de uma evolução sangrenta, subordinando meios infames a fins idealizados. Camus agrava seu caso: nos liceus da França e da Argélia não no ensino privado, que exagera de maneira diferente -, parte-se de um axioma: a execução de Luís XVI talvez tenha sido votada precipitadamente, mas foi necessária. Em 1951, tranquilo, Camus escreve: “É um escândalo repugnante ter apresentado como um grande momento da nossa história o assassinato público de um homem fraco e bom. Essa decapitação não marca um apogeu, longe disso.” Não se trata de saber se a apreciação de Camus é correta. Ele vê na morte de Luís XVI o fim de uma história de direito divino, mas questiona a execução de um rei e as motivações dos regicidas.
Depois de longas digressões sobre Hegel e Marx, de quem ele respeita as análises, mas não o messianismo - Marx é para ele um “desemburrecedor incomparável” -, depois de desvios para o lado dos niilistas russos, Camus constata que à esquerda o único valor dos anos 1950 é a revolução. Em nome de seus deveres, os revolucionários se conferem todos os direitos.
Camus executa outros heróis - literários - em voga. Assim, para ele, Sade exalta sociedades totalitárias: “O sucesso de Sade em nossa época se explica por um sonho que ele tem em comum com a sensibilidade contemporânea: a reivindicação de liberdade total, a desumanização operada a frio pela inteligência.” Os romances de Sade são de uma terrível monotonia erótica. Camus reconhece, todavia, dois méritos no marquês: ele odiava a pena de morte - tanto quanto Camus - e, como um terrorista russo, achava que um assassino político devia pagar com a própria morte. Camus também ataca Arthur Rimbaud e o pretenso conde de Lautréamont. Em Rimbaud ele não questiona o poeta - “o maior de seu tempo” -, mas o homem. Para ele, Rimbaud foi um poeta da revolta em sua obra, não em sua vida, cujo fim foi lamentável. Camus se supera: “O mago, o visionário, o preso intratável sobre o qual a prisão sempre volta a se fechar, o homem-rei na terra sem deuses, leva perpetuamente oito quilos de ouro num cinto que lhe cinge o ventre, queixando-se de que ele lhe dá disenteria. E esse o herói mítico que se propõe a tantos jovens que não cospem no mundo, mas que morreriam de vergonha à simples ideia desse cinto?” É possível ser um adolescente revoltado genial e um adulto convencional, até mesmo colonialista. Na époса, os manuais de literatura francesa, conformistas e temerosos, não ousam criticar o homem Rimbaud. Nos liceus, Histoire illustrée de la littérature française [História ilustrada da literatura francesa], de Émile Abry, Paul Crouzet, Charles Audic, todos agrégés, os dois primeiros inspetores gerais da Educação nacional, consolida a vulgata rimbaudiana, saudando o visionário, libertador da prosódia e encantador “nas asas de suas visões febris”. Eles resumem o desfecho de sua vida com menos severidade do que Camus: “Ele acaba se empregando numa exportadora de Aden e torna-se seu agente para a Abissínia. Enquanto Verlaine, em seus Poetas malditos, revela aqueles poemas aos estetas maravilhados, ele trafica na selva mercadorias coloniais. Está em plena realidade, esquecido de suas fantasmagorias de adolescente.” Camus quer que a vida de um homem, seus atos e seus pensamentos coincidam. Na França, insiste-se com frequência em que é preciso distinguir as simpatias nazistas de Heidegger de seus escritos e separa-se facilmente a obra de Céline de seus delírios antissemitas.
Camus nunca se apresentou como especialista em poesia, mas, em seu ensaio, faz questão de estabelecer uma escala de valores sãos. Os cantos de Maldoror de Lautréamont são “o livro de um colegial quase genial” - um “quase” mortal: nos anos 1920, Lautréamont foi admirado pelos surrealistas e, depois da Libertação, continua sendo um pedestal homologado. Para os inspetores gerais Abry e Crouzet, prudentes, Lautréamont participa simplesmente “do romantismo extravagante”. Em sua corrida solitária, Camus ataca até mesmo os totens da ideologia gasosa que se difunde à esquerda. Depois trata do surrealismo. Suave, acerta contas com Breton e Aragon. Mais afável com o velho surrealista do que com o comunista, Camus saúda Breton, que “escolheu o amor, na sordidez de sua época, e isso não se pode esquecer, ele é o único a falar profundamente do amor”. Mas uma declaração estrondosa de Breton continua sendo inaceitável para Camus, que a toma ao pé da letra: o ato surrealista mais simples consistia em descer à rua, de revólver em punho, e atirar ao acaso na multidão. Camus sugere que Breton deve estar arrependido de ter proferido essa frase estúpida.
Entre Camus e os surrealistas, a crise se abriu desde O mito de Sísifo e refere-se à questão do suicídio: “Eles falaram do suicídio como uma solução e Crevel, que julgava essa solução ‘provavelmente a mais justa e definitiva, matou-se, tal como Rigaut e Vaché. Aragon pôde, em seguida, estigmatizar os discursadores do suicídio. Não impede que celebrar a aniquilação e não se precipitar para ela com os outros seja honroso para alguém.” Uma vez mais, Camus prefere os que harmonizam suas declarações e seus atos. “Nesse ponto”, acrescenta, “o surrealismo conservou da ‘literatura’, que ele abominava, as piores facilidades.”
Camus afirma também que “os surrealistas [...] escolheram servir à revolução de sua época”. A seu tempo, eles são cúmplices do bolchevismo e do jacobinismo. Camus parece injusto, pois os surrealistas, grupusculares e crepusculares no início dos anos 1950, não são aqueles dos anos 1920 e 1930. Não podem ser acusados de cumplicidade com o partido comunista. Chegando dos Estados Unidos, Breton tomou partido contra o regime soviético. Continuando a cantar Sade, a mulher-criança, o acaso objetivo, o trotskismo, a anarquia e o humor ácido, Breton é um profeta sem fiéis, ou quase, de ilusões tão irrealistas quanto comoventes, com poucos leitores militantes, a despeito da bela história do surrealismo de Maurice Nadeau. Os surrealistas estão na história, pelo menos literária. Não a fazem mais. Depois da Ocupação e da Resistência, que ecos e que sentido podem ter afirmações como “o surrealismo declara-se o único qualificado para lançar na balança as forças de que se fez prospector”? Breton, três anos antes da publicação de O homem revoltado, foi violentamente atacado por Roger Vailland, companheiro de estrada do PCF. Cortês, mas pérfido, Camus sublinha, tal como Vailland, as tentações irracionalistas de Breton. Vailland utiliza seu comunismo para se desvencilhar do surrealismo, ao passo que Camus utiliza o próprio surrealismo, nos aspectos que lhe desagradam, para liquidar mais ainda o comunismo. As agressões sucessivas de Vailland e de Camus parecem excessivas. A fúria de Camus, aqui, remete quase tanto a antipatias pessoais quanto a argumentos rigorosos.
O homem revoltado termina com um elogio à medida, pouco surrealista. Camus canta seu lírico “pensamento mediterrâneo”, o Mediterrâneo contra o norte da Europa, Platão e Santo Agostinho contra Hegel e um Marx deturpado pelos marxistas. Solene, às vezes pomposo, Camus se empolga: “Na miséria comum, a antiga exigência renasce então; a natureza novamente se ergue diante da história [...]. Lançados na ignóbil Europa em que morre, privada de beleza e de amizade, a mais orgulhosa das raças, nós mediterrâneos continuamos vivendo da mesma luz. No âmago da noite europeia, o pensamento solar, a civilização de semblante duplo (face norte e face sul] espera sua aurora. Mas ela já ilumina os caminhos do verdadeiro domínio.” Para ultrapassar o niilismo, Camus recorre à retórica e frequentemente à grandiloquência. Termina seu ensaio, aliás, não com um raciocínio, mas com ênfase imagética: “Nesta hora em que cada um de nós deve retesar o arco para reafirmar seu valor, para conquistar, na história e contra ela, o que já possui, a magra colheita de seus campos, o breve amor dessa terra, na hora em que enfim nasce um homem, é preciso abandonar a época e seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira range. No auge da maior tensão irá brotar o ímpeto de uma flecha direta, do dardo mais rijo e livre.”
Nesse livro, Camus pensa sozinho contra seu meio na França e revolta-se contra os clichês de uma intelligentsia de esquerda à qual pertenceu. Sua salvação se encarna na revolta artística do escritor. Escrever é agir contra uma história encarnada pelo fascismo, pelo comunismo, pelo nazismo, pelo franquismo, cujas finalidades repousam em crimes cada vez mais irracionais. Em sua crítica do marxismo e do comunismo - que leitores e comentaristas retêm antes de tudo -, Camus sente-se heterodoxo, embora outros à sua volta aos quais ele remete, Roger Caillois ou Jules Monne- rot - também derrubem os totens da esquerda. Camus publica O homem revoltado quatro anos antes do surgimento de L’Opium des intellectuels [O ópio dos intelectuais] de Raymond Aron e vinte e cinco anos antes de La Tentation totalitaire [A tentação totalitária] de Jean-François Revel.
Camus é também, a contragosto, um francês insular. Ainda não leu Popper, mas distinguem-se convergências entre eles. A seus olhos, Marx continua sendo estimável, generoso - eles não criticam o homem, como Monatte, que detesta o gênio que engravidou sua empregada e se desinteressou dela. Para Popper e Camus, o marxismo antes de tudo não é científico. Popper aprofunda mais e, tal como Aron, liquida a teoria da mais-valia, da qual Camus passa por cima.
Muitos críticos do planeta se debruçam sobre o marxismo e suas consequências, desejadas, previstas ou não, por Marx. Com o tempo, Orwell, Po- pper e Camus pesam sobre os espíritos, mas, no início dos anos 1950, Albert Camus é o único escritor francês mundialmente apreciado ou depreciado, e provindo da esquerda, a tomar posições tão nítidas.
Ele corrige as provas de O homem revoltado no início do verão de 1951. Para os leitores, um romancista terá mais crédito e peso do que um economista ou um sociólogo?




