Nas últimas semanas, tenho recebido de alguns amigos, de maneira bastante intensa e fervorosa, textos, vídeos, notícias, argumentos e apelos sobre a eleição. Vejo também as postagens, acompanho as discussões e, em alguns casos, confesso que observo com algum incômodo o grau de certeza, de urgência e até de cinismo que vai tomando conta do debate. Tenho minhas opiniões sobre muitas dessas manifestações e sobre a postura de algumas pessoas neste momento. Mas tenho tentado preservar essas opiniões — e, sobretudo, preservar as relações. Não porque considere o momento irrelevante ou porque esteja distante da discussão política. Justamente o contrário. Talvez por pensar e estudar democracia há algum tempo, tenho cada vez menos vontade de deixar que uma eleição reduza relações construídas ao longo de anos a uma escolha circunstancial de lado.
A inspiração para organizar melhor o que eu vinha dizendo separadamente a algumas dessas pessoas veio de uma conversa com meu amigo Luiz de Campos, também colunista/chargista da Revista ID. Luiz havia escrito uma resposta a um amigo seu que o pressionava, de maneira igualmente apaixonada, diante de uma escolha eleitoral. Li aquela resposta e reconheci ali algumas inquietações que também são minhas: a transformação recorrente da política em guerra, a necessidade de criação de inimigos, a convocação permanente para que todos escolham um lado e a dificuldade crescente de admitir que alguém possa, de maneira informada e consciente, simplesmente se recusar a fazê-lo.
Inspirado por aquela conversa, comecei a organizar uma carta minha. Partes dela já apareceram, de maneiras diferentes, em mensagens que mandei a amigos e familiares nas últimas semanas. Resolvi agora reuni-las em um texto único e publicá-lo porque percebi que, no fundo, tenho repetido a mesma coisa para pessoas diferentes. Não se trata de uma defesa do voto nulo, muito menos de uma tentativa de convencer alguém a acompanhar minha escolha. É quase o contrário: é um pedido para que consigamos atravessar este período sem transformar toda relação em uma disputa de convencimento e sem exigir uns dos outros demonstrações permanentes de pertencimento.
A carta é endereçada a um amigo. Mas poderia ser enviada a vários dos meus.
“Meu querido,
Obrigado pelo carinho e também pela preocupação. Eu sei que, quando você me manda textos, argumentos, notícias e reflexões, isso vem de um lugar genuíno, de quem olha para o que está acontecendo, considera a situação grave e gostaria que eu enxergasse algumas coisas da mesma maneira. E talvez seja justamente por isso que eu prefira te responder com um pouco mais de calma.
Minha posição nessa eleição não nasceu agora, nem é resultado apenas das notícias ou dos acontecimentos das últimas semanas. Já há alguns anos venho fazendo um percurso bastante intenso de estudo, reflexão e conversa sobre democracia, política, instituições, polarização e sobre o que vem acontecendo no Brasil e no mundo. E, claro, estou acompanhando esta eleição muito de perto. Tenho lido as notícias, acompanhado as campanhas, ouvido os diferentes argumentos e, inclusive, lido com atenção praticamente tudo o que amigos têm me enviado — de um lado e de outro. Tento fazer isso criticamente, inclusive em relação às posições com as quais tenho mais afinidade.
Por isso, acho importante dizer com clareza: meu voto nulo no segundo turno não é um voto de indecisão, muito menos de desinformação. Não é o voto de alguém que não sabe o que está acontecendo, que não percebe as diferenças entre os candidatos ou que simplesmente acha que “tanto faz”. É uma posição política construída. Pode estar errada, evidentemente, como qualquer posição política pode estar, mas é uma conclusão à qual cheguei depois de bastante reflexão.
Eu reconheço que existem diferenças entre os lados. Reconheço também que a situação política é grave e que há riscos distintos envolvidos em cada resultado. Minha questão está em outro lugar.
Tenho cada vez mais dificuldade com a maneira como nossas eleições vêm sendo organizadas emocionalmente. A cada rodada, a disputa deixa de ser apresentada como uma escolha entre alternativas políticas, com virtudes, defeitos e consequências diferentes, e passa a ser apresentada como uma espécie de batalha final. De um lado está a salvação; do outro, a catástrofe. E, uma vez estabelecida essa lógica, já não basta escolher: é preciso se alistar.
Primeiro se condena quem está com o inimigo. Depois, quem se recusa a entrar na guerra. A dúvida vira covardia, a neutralidade vira cumplicidade e o voto nulo passa a ser tratado como uma espécie de omissão moral. Surge então esse argumento recorrente de que “agora não é hora”, porque a situação é excepcional demais, o risco é grande demais, o outro lado é perigoso demais. O curioso é que esse “agora” se repete eleição após eleição. O inimigo pode mudar, a urgência pode mudar de nome, mas a estrutura permanece.
E talvez uma das coisas que mais me incomodem nisso tudo seja justamente essa necessidade permanente de fabricar inimigos. Se eu tivesse que escolher um inimigo político a combater, talvez fosse exatamente essa lógica que precisa produzir inimigos para continuar existindo.
Porque, a partir daí, já não estamos apenas discordando sobre caminhos para o país. Passamos a precisar acreditar que do outro lado existe algo moralmente inferior, perigoso ou intolerável. E isso vai contaminando tudo. Contamina a maneira como interpretamos os fatos, como julgamos as pessoas, como tratamos quem discorda e, no limite, até a maneira como nos relacionamos com amigos e familiares. Pessoas de boas intenções acabam capturadas por uma estrutura que exige delas não apenas um voto, mas adesão, indignação e algum grau de hostilidade contra quem não reconhece a mesma urgência.
Isso me incomoda profundamente porque essa divisão do mundo entre os que estão do lado certo e todo o restante é justamente uma das coisas das quais acredito que uma cultura democrática deveria tentar se afastar. A realidade social raramente cabe nessa separação absoluta entre bem e mal, salvação e perdição. E, quando tudo isso ainda se organiza em torno de líderes que passam a encarnar pessoalmente a “boa luta”, seja Lula, Bolsonaro ou qualquer outro, tenho ainda mais dificuldade em aderir.
Política democrática pressupõe conflito, escolha, divergência, composição e limites. Guerra exige aliados e inimigos. E tenho a sensação de que estamos, há bastante tempo, importando a lógica da guerra para dentro da política e depois nos surpreendendo com a nossa incapacidade de convivermos uns com os outros.
Por isso, meu voto nulo não pretende dizer que os dois lados são iguais. Não acho que sejam. Tampouco significa que desconheço os riscos ou que não terei de conviver com as consequências do resultado. Significa que, olhando para este segundo turno, para os riscos que identifico de ambos os lados e também para o processo político que nos trouxe novamente até aqui, não me sinto representado por nenhuma das duas alternativas a ponto de entregar meu voto a uma delas.
E eu aceito as consequências dessa escolha. Inclusive a possibilidade de, no futuro, descobrir que estava errado. Isso também faz parte de tomar uma decisão política como adulto. O que não aceito é a ideia de que alguém possa transferir para mim a responsabilidade moral pela escolha que essa própria polarização produziu: “se você não votar no meu candidato e o outro ganhar, a culpa também será sua”. Não. Cada um precisa responder pelo voto que decidiu dar — e eu respondo pelo meu.
Também não quero convencer ninguém a votar nulo comigo. Não estou fazendo campanha pelo voto nulo e não pretendo transformar cada conversa com alguém de quem gosto numa sequência interminável de argumentos, vídeos, notícias e contra-argumentos. Tenho amigos queridos votando dos dois lados e compreendo as razões de muitos deles, mesmo quando discordo profundamente.
Então meu pedido para você é o mesmo que tenho feito a outras pessoas de quem gosto: cara, me deixa em paz com o meu voto.
Não porque eu não queira conversar sobre política. Muito pelo contrário. Gosto demais dessa conversa e ela ocupa uma parte importante da minha vida. Mas talvez agora simplesmente não seja o momento. Tenho pedido isso aos meus amigos porque percebo que, dentro desse clima eleitoral, estamos cada vez menos conversando para compreender uns aos outros e cada vez mais conversando para convencer, corrigir ou arregimentar. E, nesse estado, tenho receio de que a gente destrua mais laços do que construa qualquer compreensão política relevante.
Depois da eleição, quero muito conversar. Quero ouvir você, contar com mais calma como cheguei até aqui, discutir democracia, instituições, autoritarismo, economia, desigualdade, liberdade, Lula, Bolsonaro, esquerda, direita e os riscos que cada um de nós está enxergando. Podemos inclusive descobrir que continuamos discordando profundamente. Tudo bem. Democracia também deveria servir para isso.
Agora, prefiro que a gente preserve alguma distância dessa discussão. Não apenas você e eu. É algo que tenho tentado fazer com as pessoas de quem gosto.
Porque essa eleição vai acabar. Alguém vai ganhar, alguém vai perder, o estado de urgência eleitoral vai diminuir e o país que emergir no dia seguinte continuará precisando existir. E suspeito que, independentemente do resultado, teremos bastante coisa difícil pela frente. Talvez uma das coisas de que mais precisaremos seja justamente reconstruir alguma capacidade de conversar, conviver e confiar em pessoas que fizeram escolhas diferentes das nossas.
Seria uma pena chegarmos lá tendo destruído exatamente os laços de que vamos precisar para fazer isso.
Um fraterno abraço, meu amigo.”
Talvez esta carta diga menos sobre em quem votar do que sobre como gostaria que conseguíssemos continuar convivendo depois de votar. Eleições terminam. A política, não. Tampouco terminam as amizades, as famílias, as relações profissionais e todos os pequenos espaços de confiança dos quais uma sociedade depende para continuar funcionando. Quando permitimos que a lógica eleitoral invada tudo isso, corremos o risco de produzir uma vitória bastante estranha: alguém ganha a eleição, mas todos saímos dela um pouco mais incapazes de viver juntos.
Tenho pensado que parte do problema da polarização talvez esteja justamente aí. Não apenas na distância entre posições políticas, mas na transformação dessa distância em uma exigência moral sobre o outro. Já não basta discordar: é preciso explicar por que o outro está errado, omisso, alienado ou, no limite, colaborando com o inimigo. E talvez uma democracia saudável dependa justamente da capacidade oposta: reconhecer que pessoas informadas, bem-intencionadas e comprometidas com a própria democracia podem olhar para uma mesma realidade e chegar a conclusões diferentes — inclusive sobre o que fazer diante de uma urna.
Por isso tenho pedido aos meus amigos que deixemos algumas dessas conversas para depois. Não como fuga, mas como preservação. O clima eleitoral atual parece produzir muito mais calor do que escuta, e há discussões que talvez façam mais sentido quando já não estivermos tentando alterar o voto uns dos outros. Depois da eleição haverá tempo para discordar, avaliar escolhas, reconhecer erros e conversar sobre o país que restou dela. E desconfio que, qualquer que seja o resultado, vamos precisar muito mais dos laços que conseguirmos preservar agora do que das últimas discussões que conseguirmos vencer antes da urna.




