Cidadãos ou plateia?
Costuma-se supor que, à medida que as sociedades crescem, o poder acaba nas mãos de poucos. Hoje, salvo o Japão, países com mais de 100 milhões de habitantes não são democracias plenas. Como se toda coletividade complexa, cedo ou tarde, passasse a exigir mais mando e menos participação. O aumento da escala social parece pesar nas regras do jogo, mas ele, por si só, não determina o rumo político.
O tamanho da população, a antiguidade da agricultura e a região do mundo, isoladamente, não explicam a autocracia. O que surge com mais força ao lado da concentração do poder é outro conjunto de fatores: desigualdade elevada, burocracias organizadas por favor e parentesco, recursos dissociados do controle social e rituais políticos centrados na figura do líder. Em contrapartida, governos mais coletivos costumam aparecer onde há maior partilha de poder e menor personalismo.
Anyang, Tikal, Copán e Roma imperial figuram entre os casos em que hierarquia, monumentalidade e personalização do poder são marcantes. Por outro lado, Atenas, Mohenjo-Daro, Monte Albán, Teotihuacan, Tlaxcallan, a Iroquoia setentrional e os zuni proto-históricos apontam para outra direção: a de ordens políticas em que o poder foi, em maior ou menor grau, compartilhado, distribuído ou contido.
O centro da questão, portanto, está menos na complexidade de uma sociedade do que no uso que se faz dela. Quando o poder se fecha sobre si, os cidadãos viram plateia. Quando precisa prestar contas, negociar limites e buscar legitimidade pública, tende a aceitar freios mais firmes.
A concentração do poder é uma possibilidade recorrente, mas jamais uma sentença da vida humana. A democracia, com todas as suas imperfeições, também constitui uma possibilidade concreta. Ela permanece inacabada, vulnerável e sujeita a reações sucessivas em contextos distintos. Já a autocracia prospera quando economia, administração pública, ritual político e desigualdade passam a atuar em favor do comando concentrado.
Por isso, algumas escolhas institucionais importam muito: evitar a personalização extrema do mando, impedir que o serviço público funcione por amizade ou favor, garantir transparência no uso dos recursos, reduzir desigualdades e preservar espaços efetivos de participação.
Nenhuma sociedade surge destinada à liberdade nem condenada ao mando centrado. A história humana testou, repetidas vezes, tanto o espetáculo do líder quanto a partilha do poder. E continua testando.
A última onda de democratização ocorreu no período compreendido entre a queda do Muro de Berlim, em 1989, e os ataques às Torres Gêmeas, em Nova York, em setembro de 2001. De lá para cá, uma onda de autocratização ganha força.
Estão faltando democratas!
Cf. o artigo publicado na Science Advances (18/03/2026): The distribution of power and inclusiveness across deep time.




