Com Trump e Bibi não há solução
Os EUA e Israel não conseguem mais resolver a situação
É impossível a paz no Oriente Médio enquanto a teocracia dos aiatolás e a ditadura policial-militar da "SS" chamada IRGC continuarem estimulando o culto ao martírio e à vingança.
No funeral faraônico do aiatolá Ali Khamenei, que está ocorrendo nestes dias, a frase que mais se escuta nas ruas de Teerã é o tradicional cântico iraniano "Morte à América", alternado com o também tradicional "Morte a Israel" (1).
O Comandante do Exército Iraniano, Major General Amir Khatami, declarou anteontem:
"Com ainda maior determinação, dizemos aos inimigos do Irã: vingaremos o sangue de nosso líder martirizado e o sangue dos outros mártires".
E o líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei escreveu no mesmo dia:
”Mais uma vez, declaro enfaticamente que a política fixa da República Islâmica do Irã, continuando o caminho do Fundador da Revolução e do Líder Martirizado, baseia-se no apoio contínuo à resistência contra o inimigo sionista-americano”.
Parece inequívoco que uma força maligna continua em gestação no Irã (2).
Todavia, como o mundo democrático poderá sair dessa situação?
Bem… Os democratas não fazem guerra, a não ser quando seus países são invadidos por forças beligerantes estrangeiras.
Mas os autocratas fazem (aliás, a autocracia é a guerra). A guerra do Irã contra as democracias não começou em 2026 e sim em 1979. Foi uma guerra contra a imensa maioria da sua própria população. E foi apresentada aos países islâmicos da região e a seus apoiadores mundo afora, como uma guerra contra o “Grande Satã” (EUA) e o “Pequeno Satã” (Israel) e seus aliados. Não tem a ver, portanto, como se justifica falsamente, com os desprezíveis governos populistas-autoritários de Trump e Netanyahu. Começou muito antes. Tem a ver, sim, ao fim e ao cabo, com a democracia.
Entretanto, uma vez recomeçada recentemente a fase mais violenta do conflito, não é possível recuar sem promover a ascensão dessa tenebrosa força da teocracia dos aiatolás e da ditadura policial-militar do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC).
Trump e Bibi erraram quando atacaram o Irã da última vez, da forma como o fizeram. E Trump errou novamente quando recuou (e praticamente se rendeu), permitindo a vitória da ditadura iraniana e beneficiando seus aliados do eixo autocrático (como a China e a Rússia, mas também o Paquistão e a Turquia). Essas, hoje, são as grandes potências que passarão a dominar o Oriente Médio.
Uma vez, porém, na guerra, os EUA e Israel deveriam dar mostras de poderiam fazer exatamente o que a Ucrânia está fazendo na sua guerra de defesa contra a Rússia: desabilitar as fontes de energia iranianas.
Nas circunstâncias atuais, para neutralizar o Irã, em termos militares, seria necessário, se pudesse (e devesse) ser feito, destruir as 10 refinarias de petróleo do Irã (Abadan, Isfahan, Tehran, Bandar Abbas, Arak, Tabriz, Shiraz, Lavan, Kermanshah, Persian Gulf Star), as suas 400 usinas de energia (térmicas, hidreléticas, nuclear e renováveis) e parte considerável dos cerca de 5 mil poços de extração de petróleo e gás.
Se tal fosse feito, o Irã ficaria paralisado no escuro. Claro que isso poderia gerar um imenso problema humanitário, com uma leva de refugiados como jamais foi vista na história, num país de quase 100 milhões de habitantes. Para não falar do abalo que causaria na economia mundial. O que obrigaria uma renegociação global para estabilizar a região e o mundo.
Para evitar tal desastre, todos deveriam se envolver: as democracias liberais das Américas, da União Europeia, da Ásia e da Oceania, por um lado e o eixo autocrático (as autocracias reunidas no BRICS ou do Sul Global), por outro. Essa coalizão não seria formada por desejo dos seus participantes, mas a partir da percepção de que todos só teriam a perder. Por exemplo, a Turquia e o Paquistão estariam dispostos a absorver milhões de refugiados iranianos? A China e a Rússia aceitariam isso? E a Europa? Sem levar em conta os efeitos deletérios sobre o custo de vida dos americanos e sobre a sua segurança (já que uma exacerbação do jihadismo ofensivo islâmico alcançaria todo o planeta: mas, em especial, os EUA e a Europa).
Porém Trump nem conseguiu esboçar coalizão nenhuma, revelando que os EUA - sob o atual governo - não conseguem mais, sozinhos, resolver a situação. E sem o apoio dos EUA, não há saída para Israel.
E talvez nem mais com o apoio americano haja saída para Israel. Incluindo Egito e Paquistão (Oriente Médio estendido), Israel está cercado por 15 ditaduras. É uma posição muito vulnerável para um regime democrático. Para piorar tudo, o governo atual de Israel é populista-autoritário, abrigando supremacistas judaicos que sonham com o "Grande Israel" - o que afasta Israel do mundo democrático que poderia defendê-lo.
De qualquer forma, não há como discutir com os números. Israel tem aproximadamente 10,2 milhões de habitantes. As ditaduras do OM estentido que cercam Israel têm quase 1 bilhão de habitantes (951-955 milhões segundo o Worldometer e o World Population Review) (3).
Se não houver uma coalizão global para reestabilizar a região, uma nova diáspora judaica pode ser apenas uma questão de tempo. Essa coalizão, no entanto, não será formada enquanto Netanyahu permanecer no poder. Logo, é um imperativo para a sociedade democrática israelense retirar Bibi do poder e isolar os supremacistas judaicos, negociando, porém, com seus aliados mais moderados do Likud e de outros partidos.
Se o governo Trump também não consegue liderar uma solução para a situação - pois os aliados democráticos não confiam mais nele -, a fim de evitar o pior para os Estados Unidos, para Israel, para o Oriente Médio e para o mundo, o imperativo para a sociedade democrática americana é retirar Trump do poder, a começar por derrotá-lo nas eleições de meio de mandato de 2026, isolando o MAGA e negociando com seus aliados (como os republicanos mais moderados e, inclusive, com alguns Tech-Bros).
Com Trump e Bibi não há solução.
Notas
(1) Assistam o vídeo:
(2) Ainda no funeral macabro de Khamenei: ao assistir o vídeo abaixo é impossível não ser transportado para Salusa Secundus, o planeta-prisão que servia como o brutal campo de treinamento dos guerreiros imperiais Sardaukar (na série Duna, de Frank Herbert):
(3) Paquistão: 259,3 milhões + Egito: 120,1 milhões + Irã: 93,2 milhões + Turquia: 87,9 milhões + Iraque: ≈ 48,0 milhões + Afeganistão: ≈ 45,0 milhões + Iêmen: ≈ 43,0 milhões + Arábia Saudita: ≈ 35,2 milhões + Síria: ≈ 26,5 milhões + Líbano: ≈ 5,9 milhões + Jordânia: ≈ 11,6 milhões + Emirados Árabes Unidos: ≈ 11,6 milhões + Omã: ≈ 5,7 milhões + Kuwait: ≈ 5,1 milhões + Catar: ≈ 3,2 milhões + Barein: ≈ 1,7 milhões. Total aproximado = 1 bilhão.



