Haverá problema se Lula perder a eleição. E um problema, talvez maior, se ele ganhar
Haverá problema se Lula perder porque ninguém sabe o que será um governo chefiado por um representante da famiglia Bolsonaro. Não que Flávio dará um golpe de Estado, como acusa o PT para aterrorizar a população. Mas há quem ache - com certa razão - que Flávio transformará o congresso nacional num campo de negociação pouco republicana a ceu aberto, tipo uma grande Alerj. Seria a riojaneirização do parlamento, do governo federal e da república como todo (que deixaria, então, de ser pública).
Haverá problema se Lula ganhar, porque ele já não tem como conquistar governabilidade por meios rigorosamente democráticos. Este artigo é sobre isso.
A questão, para resumir, é a seguinte. Se Lula é minoria nos governos e parlamentos municipais, nos governos e parlamentos estaduais, no Congresso Nacional, nas mídias sociais e nas ruas, como ele espera alcançar governabilidade se for eleito?
Examinemos algumas hipóteses sobre o que Lula poderá fazer para governar em “ampla minoria”.
🔵 Vai tentar comprar (ou alugar) parlamentares, numa reedição modificada do mensalão.
Isso está cada vez mais difícil de ser feito depois das emendas parlamentares obrigatórias. Deputados e senadores não dependem mais do presidente da república para conseguir enviar para suas bases algum recurso público e, com isso, garantir sua reeleição. Assim, não são mais tão compráveis (ou alugáveis) como eram (na época do mensalão e em períodos anteriores ou imediatamente posteriores).
🔵 Vai continuar mantendo o consórcio com o STF (atuando como tribunal de exceção), a PGR (como grande inquisidora) e a PF (como polícia política).
Eis o grande risco. Há limites para efetivar tal instrumentalização em condições de folgada maioria parlamentar de oposição no Congresso Nacional. No limite pode até acontecer de uma lei aprovada por maioria no parlamento ser revogada pela suprema corte a mando do governo e o Congresso não aceitar a decisão judicial: o que abre brecha para a desobediência civil. Ademais, se o governo usar essas instituições de Estado como instrumentos de governabilidade pela força, não estaremos mais num regime democrático e as instituições não alinhadas não terão razões para obedecer a ordens judiciais, acatar o ministério público e validar as ações da polícia. E o PT não tem força político-militar para impor uma alteração desse tipo no regime.
🔵 Vai governar com o “Exército do Lula”, formado durante o segundo turno da campanha, ocupando as ruas e ameaçando as instituições.
Aí estaremos todos sob o comando da seita criada por Jim Janones. O tal exército que ele está criando para a campanha - e um exército político já é uma aberração numa democracia - é uma organização monocrática. Só ele fala. Só ele dá ordens. E as ordens não são para as pessoas agirem sob comando. São para elas pensarem sob comando.
Isso pode não estar dando muito certo nem para a campanha. Talvez tenha sido um erro capital de Lula e do PT darem protagonismo a esse Janones para vencer a eleição no vale-tudo. Pessoas sérias, moderadas, de centro democrático, que têm critérios éticos (e sabem que os fins não podem justificar os meios) e que poderiam ser atraídas para a campanha da reeleição, se sentiram mal com a vulgaridade das mensagens e com essas sucessivas ordens monocráticas dizendo o que elas deveriam ou não ler, o que elas deveriam pensar e como deveriam se comportar, para então conduzí-las como gado.
Acrescente-se que o PT perdeu o monopólio das ruas desde 2013. E não, não recuperou até hoje.
🔵 Vai tentar montar uma coalizão dos grandes meios de comunicação chapa-branca para influenciar a opinião pública e pressionar o parlamento.
Mas num mundo em que grande parte das pessoas se informa pelas mídias sociais, os meios de comunicação tradicionais perderam seu papel de mediadores e curadores do processo de formação da opinião pública. Não vai funcionar. E é muito provável que os principais veículos comerciais rejeitem esse tipo de manipulação, de olho no que podem perder à medida que 2030 for chegando e não houver mais Lula para mesmerizar as massas e salvar o PT do rebaixamento para a segunda ou terceira divisão.
🔵 Mesmo sabendo que é impossível alcançar governabilidade em termos democráticos nessas circunstâncias, vai insistir em governar na base do “nós contra eles”, conclamando os seus apoiadores para uma guerra santa do povo contra as elites e o imperialismo yankee em defesa da democracia e da soberania.
Pior. Pode haver uma reedição do CCC (comando de caça aos comunistas) com o sinal trocado: CCF (comando de caça aos fascistas). Isso será o pior cenário. Confronto aberto, inclusive físico. Deslegitimação do poder representativo, quer dizer, erosão acelerada do regime político democrático.
Caminharíamos para uma situação pré-revolucionária sem estarem consteladas as condições subjetivas e objetivas para o predomínio pela força de um poder. Nessas condições, o cenário tende a ser de alta instabilidade.
Ao que tudo indica, porém, o clima não vai melhorar depois da eleição, seja qual for o resultado - e isso na melhor hipótese: do perdedor aceitar e metabolizar a derrota. Toda essa energia negativa turbinada pelos populismos em disputa não vai se dissolver por encanto ou desencanto.
Tempos piores virão.



