Confiança
Foto Sergio Larraín
Vivemos em um emaranhado de problemas e precisamos lembrar da tecnologia social que os tornava administráveis: a capacidade de confiar uns nos outros.
Tentamos corrigir efeitos visíveis, como desinformação, desconfiança institucional, colapso ambiental e polarização, sem enfrentar a causa raiz: a erosão da confiança.
A resposta dominante tem sido mais controle, monitoramento, regulação do comportamento e contratos para garantir o mínimo de previsibilidade. Mas nenhuma sociedade se mantém por coerção. Sociedades funcionam quando conseguem cooperar em larga escala. E a cooperação, por definição, exige confiança. O problema do presente não é a falta de regras. É o excesso de desconfiança.
A confiança nasce quando reconhecemos o outro como legítimo para conviver, mesmo quando discordamos dele. Esse gesto transforma indivíduos dispersos em um corpo político capaz de pensar e agir em conjunto.
A confiança se revela no elevador, quando alguém segura a porta; na reunião, quando a palavra é cumprida; e quando alguém escuta antes de reagir. Esses atos parecem pequenos, mas são a infraestrutura da vida coletiva.
Instituições — escolas, empresas e governos — guardam memória, criam previsibilidade e coordenam esforços. Quando passam a operar como máquinas de controle, perdem a capacidade de gerar cooperação e passam a produzir conformidade estéril. O resultado é conhecido: mais regras e vigilância, menos iniciativa; mais autoridade, menos legitimidade. Sem confiança, a política enfraquece.
O contrário da confiança é a paralisia produzida pelo excesso de controle. Os cidadãos ficam cansados de cumprir regras que já não reconhecem como suas. A legalidade permanece, e a legitimidade evapora.
Leis são necessárias. Instituições são indispensáveis. Mas nenhuma regra substitui o reconhecimento do outro. Quando esse reconhecimento deixa de existir, a lei passa a atuar como contenção de danos.
Governar é alinhar vontades e emoções para permitir a ação conjunta entre diferentes. Em um século atravessado por crises interdependentes, nenhuma solução duradoura surgirá sem níveis inéditos de cooperação contínua.
Nossa tarefa é fortalecer instituições e reconstruir a confiança que lhes dá sentido. Isso começa na escala mínima das relações diárias, onde o outro deixa de ser ameaça e volta a ser um parceiro possível. Pedir confiança, em um ambiente já saturado de suspeitas, pode soar ingênuo. A solução passa por criar e nutrir redes de interação que favoreçam atividades livres e recorrentes, sem submissão a autoridades, doutrinas ou guerras.
Uma sociedade pode sobreviver a crises, mas nunca à suspeita permanente. A confiança dispensa a coerção e faz da cooperação uma força maior que a vigilância.
Onde a confiança brota, renasce a esperança de resgatar a humanidade.




