A antiga Suméria ocupa lugar decisivo na história da organização humana. Sua paisagem guarda uma história especial. No fim do Pleistoceno, o nível do mar estava muito abaixo do atual, e parte do atual Golfo Pérsico era terra emersa, ocupada por populações humanas. Os dados geológicos e os modelos paleoclimáticos sustentam essa tese. A elevação das águas após a última glaciação submergiu as antigas áreas habitadas. Sedimentos trazidos pelo Tigre, pelo Eufrates e pelo mar tornaram o fundo do Golfo um reliquiário de registros arqueológicos.
A continuidade dessas populações com os sumérios posteriores ainda carece de evidências. Suponho, no entanto, que seus antecedentes viviam ali e que uma importante parte da nossa história esteja ocultada no local.
Há argumentos de que formas primitivas de governo popular e participação comunitária foram inventadas de forma autônoma em diversas sociedades tribais arcaicas, motivadas pela “lógica da igualdade” entre os membros do grupo. À medida que a humanidade se fixou na agricultura e desenvolveu cidades e Estados complexos, essa igualdade inicial foi sufocada pelo surgimento de ordens hierárquicas e monárquicas.
Na Mesopotâmia meridional, a urbanização reuniu crescimento populacional, especialização do trabalho, comércio, escrita, administração, religião institucionalizada e autoridades permanentes. A cidade ampliou a cooperação além do parentesco, ligando agricultores, artesãos, comerciantes, sacerdotes e administradores por contratos, medidas e registros.
O comércio intensificou contatos e exigiu formas estáveis de negociação. Algumas cidades evidenciam indícios de participação coletiva: fontes antigas mencionam conselhos de anciãos e encontros convocados para deliberar acerca de guerra, paz e assuntos comunitários. O próprio vocabulário sumério registra termos associados a assembleias, indicando que essas instituições faziam parte de seu universo político. A participação era restrita, e sua composição, seu funcionamento e sua capacidade de limitar os governantes permanecem discutidos.
Ainda assim, há registros dessas práticas muitos séculos antes da democracia grega, constituindo algumas das evidências escritas mais antigas de consulta e deliberação comunitária.
A Suméria foi a mais remota civilização comercial com traços democráticos, na qual a escrita, a aritmética e a investigação empírica estiveram vinculadas à vida mercantil e à necessidade de negociação voluntária entre os cidadãos.
A escrita ampliou a capacidade administrativa. Registros cuneiformes de estoques, pagamentos, propriedades e trabalho permitiram burocracias mais complexas. A mesma técnica favoreceu a tributação, o controle patrimonial e a organização do trabalho.
A religião reforçou essa concentração. Templo, governo e administração permaneciam próximos, e a autoridade do governante recebia fundamento sagrado. Uruk, Ur, Lagash, Nippur e Eridu mostram estruturas políticas mais verticalizadas. A muralha assumia função política: protegia a cidade, delimitava vínculos cívicos e ajudava a definir os integrantes da comunidade.
Aparecem mecanismos de consulta e negociação dentro de uma ordem hierarquizada e revelam formas muito antigas de participação e deliberação coletiva, condicionadas pela organização social de seu tempo. Esse tipo de assembleia arcaica não se confunde com o modo de regulação democrático. A democracia representa uma ruptura ou brecha histórica contra o modelo autocrático-patriarcal inaugurado na Suméria.
A experiência urbana ampliou a cooperação em larga escala e criou instrumentos capazes de concentrar decisões.
Surgia um problema destinado a atravessar milênios: a distribuição do poder em sociedades cada vez mais organizadas.





Leio sobre as civilizações antigas e os sistemas hierárquicos e autocráticos prevalecem. Observando o momento atual das sociedades, será que a democracia é um sonho possível à maioria dos povos ? Os Sumérios existiram há quatro mil anos antes de Cristo.