Decifrando a pulsão de controle das mídias sociais
É o velho "controle social da mídia" reformado
Claro que crianças e adolescentes devem ser protegidos: em todo lugar, inclusive na internet.
Devem ser protegidos, primeiramente, em casa. Cerca de 70% dos abusos sociais (sexuais) infantis ocorrem em casa e são cometidos por familiares e pessoas próximas às crianças. O problema é como fazer isso. Não teria cabimento uma solução do tipo Janja: vamos proibir a família!
Na escola: crianças e adolescentes são vítimas de bullying dos colegas e sofrem outros molestamentos (inclusive pedagógicos, por parte dos professores). Na igreja: são vítimas de abuso sexual por parte dos sacerdotes. Na vizinhança: são vítimas de jovens meliantes que praticam intimidação, roubam seus tênis, seus celulares e seus relógios. O problema, novamente, é como resolver isso sem proibir as escolas, as igrejas e o livre ir-e-vir de crianças e adolescentes nas ruas.
Todavia, há algo muito suspeito nessa conversa de proteger crianças e adolescentes na internet do jeito como está sendo tocada pelo governo e seu partido. Parece um primeiro passo para a implantação da velha proposta petista do controle social da mídia, agora reformada como controle social da mídia social (já que grandes meios de comunicação, como as TVs, estão alinhados ao governo por outros motivos: propaganda oficial, renovação de concessões, condições favoráveis para renegociação de dívidas e militância de esquerda no jornalismo).
O segundo passo será, quem sabe, a proteção de mulheres e minorias de qualquer tipo de discriminação (meio na vibe woke).
Um terceiro passo poderia ser a soberania nacional: quem criticar o comportamento do governo brasileiro em relação a países estrangeiros em conflito com o Brasil será traidor da pátria e estará cometendo um crime capital. E as mídias sociais que não censurarem isso estarão também cometendo um crime e devem ser banidas.
O último passo será a defesa da democracia: contra a desinformação, contra o discurso de ódio, contra as fake news, contra os ataques às instituições e, então, contra qualquer crítica ao governo, às políticas governamentais e aos governantes. O STF começou desajeitadamente por aí, aproveitando-se da pregação antissistema bolsonarista. Mas o propósito final, na verdade, é deslegitimar qualquer oposição, em especial dos democratas liberais que se opõem aos populismos ditos de esquerda ou de direita.
Há dois objetivos nesse movimento.
O primeiro é privar as oposições de meios de comunicação sem controle governamental, na base do “eu fico com a Globo News e você fica sem o X”. Especialmente em épocas eleitorais (como aconteceu com o próprio X na reta final da campanha de 2024).
O segundo objetivo é a construção do novo inimigo público universal: os malvadões capitalistas donos das Big Techs. A maior Big Tech do planeta, a ditadura da China, está fora, assim como as grandes autocracias da Rússia e do Irã que usam as mídias sociais como armas para desestabilizar as democracias liberais. Todos esses são aliados na luta anticapitalista contra o inimigo principal. É uma espécie de reciclagem da visão bipolar marxista-identitarista do mundo: os explorados, oprimidos, dominados e discriminados contra os exploradores, opressores, dominadores e discriminadores. Veste como uma luva no “nós contra eles” do PT.



