Democracia como componente cultural de convivência social
Walter Alberto Topfstedt, Inteligência Democrática (15/05/2026)
Curiosamente, no Brasil criamos um processo híbrido de hierarquia e horizontalidade, tudo junto e misturado.
Temos uma habilidade de conviver com a dualidade e ambiguidade talvez maior que outras culturas. Prezamos a liberdade, mas também pedimos regulação. O que pode ser um ponto forte, um “ativo social”, se não for orientado, gera o resultado oposto.
Nossa mestiçagem através dos tempos gerou esse “caldo cultural” que nos influencia social e politicamente. Valores democráticos se misturam com outros nem tanto.
Por experiência de imigração, hoje eu convivo com várias nacionalidades. Foi uma surpresa quando percebi que os brasileiros tem algo em comum com os árabes, mais do que imaginamos. São afetivos, grupais e emotivos, além de gostarem muito de futebol e café, como nós. Se você for simpático e acolhedor, lhe chamarão de “irmão” em seguida.
A influência italiana também é muito forte em São Paulo. Adquirimos por tradição alguns hábitos e costumes, que adicionaram um tempero brasileiro a esta mistura.
A diversidade que temos proporciona configurações sociais que vêm desde a colonização, passam pela mudança do Império Portugues e Brasileiro e chegam na República, com destaques regionais e polos de desenvolvimento localizados.
Sem nos darmos conta, acabamos por conceber e desenvolver uma identidade, com um sentido de interdependência e complementariedade únicos, o que levou o sociólogo Italiano Domenico de Masi a mencionar que “o Brasil descobriu a forma de convivência na diversidade no mundo globalizado”.
“Convivência na Globalização”: Enquanto a globalização financeira concentra riqueza, De Masi defendia que o Brasil se destaca na “globalização cultural”, oferecendo solidariedade e criatividade.
Maturana também menciona que “o humano se constitui no entrelaçamento do emocional com o racional”. Esse é um dos pilares da nossa dinâmica social, política e econômica.
E continua: “A rejeição constitui um espaço de interações recorrentes que culmina com a separação. O amor constitui um espaço de interações recorrentes que se amplia e pode estabilizar-se como tal. O amor é a emoção que constitui as ações de aceitar o outro como um legítimo outro na convivência.”
Trabalhamos, nos divertimos, fazemos negócios e convivemos com quem nos apraz, de várias maneiras e intensidades.
Ainda hoje são raros os capazes de se debruçarem na nossa própria história e tradições, tão rica e diversa, que nos faz ser quem somos. E para muitos, isso pouco importa, pois a praticamos todos os dias, à nossa maneira.
Referências
Maturana, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.



