Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (30/10/2026)
Assim que saiu o resultado da eleição, no meu grupo de família apareceu a mensagem: “É o Brasil na linha de frente da democracia no mundo!”. Deduzo disso que Lula não só não é uma ameaça à democracia, como é a vanguarda em sua defesa.
Um sobrinho querido, que é artista, postou em seu Instagram que se orgulhava da mobilização de rua que mudou o voto dos brasileiros no segundo turno e pediu aos ouvintes que continuassem a mobilização. Ele não é do tipo militante e sua participação foi inédita, até onde sei; por isso, perguntei nos comentários se essa mobilização poderia incluir a reivindicação pelo impeachment de algum ministro suspeito do STF.
A minha impressão é de que o que ocorreu em termos de mobilização entre o primeiro e o segundo turno das eleições só foi possível por existir um comando claro. A espontaneidade das pessoas foi muito bem conduzida para um objetivo específico: derrotar um candidato identificado como o grande mal.
Tenho bastantes dúvidas se um tipo de mobilização que envolvesse temas caros à população de um modo geral poderia acontecer num ambiente cada vez mais dividido. Se a eleição de um candidato representa a vanguarda no combate ao que há de pior acontecendo no mundo em termos de ataque à democracia, como encarar pessoas que votaram em Flávio Bolsonaro — ou que não votaram, ou votaram nulo ou em branco — como parceiras em movimentos de rua?
O escritor anônimo Cronista Artificial, que publica textos sobre política no X, cunhou uma expressão muito feliz ao identificar os eleitores de Lula como “democratas certificados” (ver nota). Aqueles que não se alinharam a ele na mobilização e no voto são considerados “suspeitos em observação”.
O tema do impeachment de ministros do STF permanece como pauta para o mandato que se inicia em janeiro. É óbvio que o governo eleito tem muito a agradecer à atuação de ministros da Suprema Corte, tanto na demonização do candidato adversário quanto na complacência com atos suspeitos de uso da máquina pública.
É difícil esperar ações de mobilização do comando do “exército de Lula” em favor de reformas muito identificadas com o bolsonarismo. O que espero é que essa juventude mobilizada possa identificar pautas comuns a todos os brasileiros, independentemente do candidato escolhido, e, principalmente, consiga pensar e agir sem comando.
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